Democratas usarão o furacão Katrina para tentar barrar Roberts na Suprema Corte

Rick Klein
Em Washington

Democratas do Senado disseram nesta terça-feira (06/9) que suscitarão as amplas disparidades de renda e condições de vida expostas pelo furacão Katrina quando questionarem John G. Roberts Jr., em sua audiência de confirmação para a Suprema Corte na semana que vem.

As cenas de devastação que mostraram primariamente pobres afro-americanos em Nova Orleans ressaltaram o vão crescente entre ricos e pobres, disse o senador Edward M. Kennedy, democrata de Massachusetts.

Os democratas do Senado vão associar as cenas de dificuldade econômica às questões constitucionais e jurídicas levantadas contra os esforços para minimizar as desigualdades raciais e econômicas, disse ele. Roberts, no passado, defendeu uma estreita interpretação de leis de direito civil.

"Nós fizemos avanços muito importantes nos últimos 50 anos, derrubando muros de discriminação para que as pessoas pudessem participar e fazer parte de um país diferente. Pediremos a ele que explique seus conselhos que teriam, penso eu, minado esse progresso de maneira importante", disse Kennedy, antigo membro do Comitê Judicial do Senado.

O senador Patrick J. Leahy, de Vermont, mais alto democrata no Comitê Judiciário, disse que também vai perguntar sobre o Katrina nas audiências de Roberts. Da mesma forma, os representantes de direitos civis convidados para as audiências pelos democratas disseram que pretendem se referir às cenas da região devastada pelo furacão.

Líderes do Senado anunciaram que as audiências de confirmação de Roberts, marcadas para a próxima terça-feira, começarão na segunda-feira, em deferência à tragédia do Katrina e à morte do juiz William H. Rehnquist.

O presidente Bush sugeriu fortemente na terça-feira que não ia nomear um substituto para a juíza Sandra Day O'Connor antes de o Senado votar a nomeação de Roberts. Bush disse que O'Connor assegurou-lhe na segunda-feira que permaneceria na corte até que o sucessor fosse confirmado. O presidente quer que o Senado se dedique à aprovação de um presidente para a Suprema Corte em tempo para o início dos trabalhos, no dia 3 de outubro.

"Não quero que o Senado se concentre em quem será o próximo nomeado, mas no candidato que temos até agora", disse o presidente.

Bush, que está sendo pressionado para nomear alguém de uma minoria ou uma mulher, também atiçou os rumores de que escolherá seu amigo de longa data, o advogado-geral Alberto R. Gonzáles, para a Suprema Corte.

"A lista está totalmente aberta, o que deve gerar especulações aqui em Washington", disse Bush. "Observem também que, quando disse isso, olhei direto para Al Gonzáles, o que realmente pode criar especulações."

Roberts, nomeado por Bush na segunda-feira para suceder Rehnquist, foi um dos que carregaram o caixão fechado de Rehnquist pelos degraus de mármore da Suprema Corte, para o primeiro de dois dias de luto público. Rehnquist, que morreu no sábado de câncer na tireóide, será enterrado na quarta-feira no Cemitério Nacional Arlington.

A confirmação de Roberts dava a impressão de que seria relativamente fácil. No entanto, os democratas e grupos liberais esperam que questões levantadas pelo Katrina ofereçam uma nova oportunidade de criticar seu histórico em direitos civis e apontar as diferenças entre os democratas, que defendem um papel de poder para o governo federal, e os republicanos, que são mais deferentes aos Estados.

Leahy disse que assistiu às duras cenas na televisão com uma sensação crescente de raiva diante da incapacidade do governo federal de prover os serviços aos que mais precisam, e que essas questões iam chegar às audiências de Roberts.

"Teremos questões legítimas quanto à autoridade do governo federal e à capacidade dos indivíduos de pedir reparações se não tiverem a ajuda que esperam", disse Leahy.

Alguns memorandos de Roberts de quando era assessor no governo Reagan devem alimentar as críticas dos democratas quanto a sua posição em direitos civis. Roberts, por exemplo, argumentou contra a constitucionalidade da ação afirmativa; fez pressão para abrandar decisões judiciais que obrigavam as escolas a oferecerem transporte às crianças de outros distritos, de forma a diminuir a segregação racial; e argumentou em favor de uma versão diminuída do Ato do Direito ao Voto.

Mais tarde, quando era juiz em uma corte de apelações, Roberts também instou pela interpretação estreita da Cláusula do Comércio, um dos instrumentos que o Congresso usou para aprovar leis federais em uma série de questões que afetam direitos civis.

O furacão serviu como grave lembrete de que muitos americanos continuam politicamente marginalizados e economicamente reprimidos, apesar das leis formuladas para melhorar a situação, em áreas como educação, voto, emprego e moradia, disse Wade Henderson, diretor executivo da Conferência de Direitos Civis.

Henderson e o deputado John Lewis, democrata veterano em direitos civis da Geórgia, vão se referir às cenas de Louisiana durante seu testemunho sobre Roberts diante do Comitê Judiciário, na semana que vem.

"As cenas nos fazem lembrar que realmente vivemos em uma sociedade dividida, onde a raça e a classe são fatores que fazem parte da vida diária", disse Henderson. "O que sabemos sobre John Roberts na implantação das leis de direitos civis do país sugere ambivalência, na melhor das hipóteses, e hostilidade, na pior."

No entanto, o senador John Cornyn, republicano do Texas, disse que os democratas estão extrapolando ao associarem o Katrina a Roberts. Como advogado e juiz federal, Roberts mostrou seu compromisso em defender a Constituição e as leis aprovadas pelo Congresso, disse ele.

"Tentar associar sua audiência de nomeação com o desastre do Katrina é um excesso, eu acho", disse Cornyn. Furacão expôs tensão racial no país; juiz é contra a ação afirmativa Deborah Weinberg

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