Kerry ataca Bush devido ao Katrina e à pobreza

Peter S. Canellos
Em Providence, Rhode Island

Quase um ano depois de perder a presidência para George W. Bush, o senador democrata John F. Kerry condenou na segunda-feira (19/9) o atual governo Bush. Ele culpou o presidente pessoalmente pelo despreparo para a catástrofe em Louisiana, e chamou o plano de recuperação de Bush de "experimento ideológico de direita". Kerry pediu que houvesse um novo e forte compromisso de combate à pobreza no país.

O ex-candidato à presidência parecia testar as águas para uma segunda corrida presidencial. No que sua equipe chamou de importante discurso, ele deixou a postura de estadista freqüentemente usada na campanha do ano passado e adotou um tom mais duro. Ele também procurou manter a liderança no Partido Democrata, chamando os jovens a fazerem do furacão Katrina o início de uma campanha para mudar as prioridades nacionais.

"Temos que ficar com raiva, e organizar-nos em torno disso", disse de improviso a um público de cerca de 800 alunos na Universidade Brown.

Outros democratas estão soando a mesma nota. O discurso de Kerry competiu pela atenção com um ataque do senador Edward M. Kennedy aos planos do presidente para Nova Orleans. Outro discurso que parecia de campanha foi o do vice de Kerry na chapa de 2004, o senador da Carolina do Norte John Edwards, preparando-se para concorrer à presidência.

Edwards, falando em Washington na segunda-feira (19/9), escolheu uma abordagem mais moderada do que Kerry, ressaltando que a "responsabilidade pessoal" deve ser um componente dos esforços para ajudar os pobres e propondo políticas específicas, como a expansão do Crédito de Imposto de Renda.

Kerry, por outro lado, clamou por uma grande mudança de visão no país, que se concentraria em elevar os pobres, fomentar a competitividade econômica, e diminuir a dependência da energia do petróleo. A tendência de Bush de negar os problemas aflige todas as áreas do governo, disse Kerry.

"O Katrina é o cenário do novo retrato que devemos pintar nos EUA", declarou Kerry. "Por cinco anos, nossos líderes pintaram um quadro dos EUA onde não havia conseqüência quando se ignoravam os pobres; nenhuma nação estava nos ultrapassando; nenhuma aposentadoria estava sendo perdida. Todas as críticas eram chamadas de não patrióticas... bem, o Katrina aconteceu de fato e tirou a camada de tinta que escondida o verdadeiro quadro dos EUA, com todas suas imperfeições."

A exortação de Kerry ao seguro médico universal, especialmente para crianças, fez lembrar muitos outros discursos que deu neste ano, enquanto tentava manter seu lugar no palco nacional depois de perder as eleições para Bush. Mas esses discursos tinham o mesmo tom da campanha --sombrios, mais pesados do que enérgico em suas críticas.

O discurso de segunda-feira marcou uma grande mudança de tom: ele adotou o sentido de revolta e ridículo que marcaram a campanha do ex-governador de Vermont, Howard Dean, no ano passado.

"Se escoteiros de 12 anos podem estar preparados, os americanos têm o direito de esperar que seu presidente de 59 anos esteja preparado", declarou Kerry.

Kerry culpou os programas de mercado livre de Bush por prejudicarem os pobres. Depois, trovejou: o presidente "não consegue pensar em nada para oferecer à Costa do Golfo, além do pêlo do cachorro que a mordeu."

Em entrevista, Kerry disse que sua tristeza com a devastação trazida pelo Katrina e sua frustração após uma recente visita ao Iraque, da qual voltou em um avião com um caixão de um soldado americano, persuadiram-no a retornar à arena.

"O momento chegou", disse ele, admitindo que "se segurou" por quase um ano, para dar a Bush uma chance de governar e evitar a impressão de perdedor amargurado. Agora compreendeu que "é hora de sair e dizer a verdade", disse.

Partidários de Bush não concordam.

"Os ataques de John Kerry aos esforços do presidente Bush para assistir as vítimas e reconstruir a Costa do Golfo não surpreendem --criticar detrás de uma mesa nunca foi difícil para o senador Kerry", disse a porta-voz do Comitê Nacional Republicano Tracey Schmitt, em declaração.

Schmitt criticou os democratas por tentarem marcar pontos políticos em um caso de emergência nacional. Apesar de o discurso de Kerry fazer parte de uma série anual de palestras políticas da universidade, teve o ar de importante momento político.

O senador estava acompanhado de membros da família, inclusive sua mulher, Teresa Heinz Kerry, sua filha Vanessa e seu irmão Cameron --importantes membros de seu círculo interno que poderão aconselhá-lo a concorrer ou não a 2008. Eles e os assessores do senador avaliaram seu desempenho da fila da frente, quase como uma banca de "American Idol".

O senador recebeu uma resposta fervorosa dos alunos da Brown. Durante o período em que respondeu a perguntas, ele sugeriu profunda frustração em não ter podido atingir pessoas suficientes em 2004.

"O número de pessoas nos EUA que não estão interessadas nos fatos é maior do que se pensa", disse ele em certa altura, lamentando a "quantidade de informações enganosas que há por aí."

"Temos um monte de americanos que nunca se sintonizam", reclamou em outro ponto, acrescentando que "cada vez mais as pessoas votam com base em questões que não têm relevância para sua vida diária".

Kerry implicitamente culpou o público por tolerar a "injustiça de 11 milhões de crianças e mais de 30 milhões de adultos estarem em situação de necessidade desesperada de cuidados médicos" e repetidamente implorou aos alunos a "fazerem de suas questões a base dos votos desta nação".

Fazendo uma referência oblíqua à sua própria história de ativismo na Guerra do Vietnã, Kerry implorou que os alunos se envolvessem com a política. Se vai estar junto deles na campanha como candidato presidencial, é uma decisão para mais tarde, disse ele.

No entanto, a presença do círculo interno na primeira fileira, deixou claro que a equipe de Kerry não acha que é cedo demais para começar a pensar a respeito. Discurso do senador é visto como um ato para a campanha de 2008 Deborah Weinberg

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