Na África, programa de Aids volta-se para os pais

John Donnelly
Em Jos, Nigéria

Três bebês se contorciam no colo das mães. Um deles se soltou. Os dois outros descansaram a cabeça na curva do pescoço das mães.

Os nenéns que esperavam no Hospital Nossa Senhora do Apóstolo poderiam servir de propaganda para os esforços para impedir a transmissão do HIV de mãe para filho. Todas as três crianças, disseram os médicos, parecem ser HIV negativas; eles esperam que os exames confirmem isso.

Outro motivo de celebração estava ao lado das mães e dos nenéns: um pai.

Durante muitos anos, esses programas de Aids vêm tentando salvar as vidas dos bebês e tratar as mães na África sub-saariana. Agora, o foco está se expandindo e envolvendo os pais --mas não tem sido fácil persuadir os homens a serem examinados e tratados. Sua falta de conhecimento está gerando inúmeras infecções e morte.

"Os homens, bem, eles temem o HIV; temem saber que estão infectados", disse Harouna Masok, 32, pai de um dos bebês, que também é HIV positivo. "Não é tão fácil descobrir. Mas eu fiz o exame porque tanto o marido quanto a mulher devem saber sobre sua situação, e ambos devem conhecer suas opções."

Aqui nas terras altas centrais da Nigéria e em dezenas de outros pontos em torno da África sub-saariana, profissionais da saúde estão rapidamente expandindo os programas criados a princípio para deter a transmissão do vírus letal das mães para os filhos.

Nos últimos poucos anos, autoridades da saúde perceberam que os programas que acompanhavam as mulheres grávidas forneciam acesso também aos pais, outros filhos e familiares em geral. Agora, estão começando a examinar famílias inteiras, oferecer aconselhamento e distribuir drogas anti-virais e outros medicamentos para os que necessitam.

"O que esperamos fazer é salvar a família. Não queremos salvar apenas os nenéns. Eles nos dão acesso a todos", disse Atiene Solomon Sagay, que dirige o programa patrocinado pelos EUA em Jos para deter a transmissão de HIV de mães para filhos.

No entanto, os diretores dos programas do Senegal, na África Ocidental, até Suazilândia, na parte sul do continente, sabem que encontrarão dificuldades.

"O problema ao identificar uma criança positiva é que provavelmente você encontrará três ou mais outras infecções. Os pais ou outros membros da família talvez não saibam que estão infectados, então as notícias podem ser muito dramáticas", disse Richard Marlink, diretor científico de tratamento da Fundação de Aids Pediátrica Elizabeth Glaser, em entrevista telefônica de Durban, África do Sul.

Alguns se preocupam que, se os programas forem bem sucedidos, as clínicas e hospitais, que já encontram dificuldades em responder à demanda de pacientes com HIV, ficarão lotados.

Marlink, que também é pesquisador de Aids em Harvard, disse que esforços especiais logo serão necessários para trazer os homens. Ele sugeriu que alguns centros talvez prefiram montar um programa separado para os homens, oferecendo aconselhamento e grupos de apoio. "Você tem clínicas para bebês, centros de pré-natal para as mulheres grávidas, mas nada para os homens", disse ele.

A Universidade Harvard ajuda a patrocinar um programa de Aids no Hospital Universitário de Jos, que há quatro anos atendia meia dúzia de pacientes e hoje trata em média 750 pessoas por semana. John Idoko e sua equipe tentaram vários métodos para levar os homens a fazer os exames. Eles haviam notado que quase dois terços dos que recebiam tratamentos anti-retrovirais eram mulheres.

"Nós nos perguntamos, 'onde estão os homens?'" disse Idoko em uma entrevista em seu escritório recentemente. "Realmente vimos como é difícil chegar até eles."

A equipe de Idoko agora dá às mulheres HIV positivas "cartas de amor", para serem entregues aos maridos e namorados --convites para os homens acompanharem as mulheres em sua próxima visita. Idoko disse que mais homens estão respondendo.

No entanto, o processo é lento. Durante os primeiros sete meses deste ano nas clínicas pré-natais da região, 1.553 mulheres fizeram check-up pré-natal. Dessas, 90% concordaram em fazer o exame de HIV, o que foi extremamente encorajador. Os exames deram positivos para 103, ou 7,3%. Dessas 103 mulheres, apenas 19 conseguiram trazer seus parceiros para serem examinados --menos do que uma em cinco.

Em Jos, as duas outras mães sentadas com Masok, que é do corpo de bombeiros, e sua mulher, Ufulul, 27, policial, disseram que praticamente não tinham nenhuma voz em seu relacionamento com seus maridos.

Gift Ngwu, 24, cujo marido se recusou a fazer o exame, sussurrou para a enfermeira que não podia demorar muito --que seu marido poderia bater nela se não voltasse logo. Ela também disse que seu marido se recusa a fazer o exame e a usar um preservativo. "Ele simplesmente diz que não tem (a doença), então não precisa fazer o exame", disse Ngwu suavemente.

Ângela Ikika, 29, cujo marido fez o exame, mas nunca veio pegar o resultado, disse que periferia não ter outro bebê, mas que, se seu marido insistisse, teria. "Você conhece os homens", disse naturalmente, "eles mandam nas mulheres".

Masok tinha acabado de conhecer as duas mulheres, mas falou: "Você precisa explicar para o seu marido que não é tão fácil ficar produzindo bebês se você é HIV positiva", disse ele. "Você não deve ver o casamento como uma fábrica de crianças. Continuar reproduzindo não é aconselhável."

As duas outras mulheres não disseram nada e Masok silenciou-se. Machismo facilita contaminação e impede que homem faça exame Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos