Das greves de fome à luta contra a tortura

Bella English
Em Cambridge, Massachusetts

Faz 13 anos que o seu marido foi capturado, torturado e morto pelas forças armadas guatemaltecas, e mais de uma década que ela fez a sua última greve de fome. Mas Jennifer Harbury não desistiu da sua cruzada contra o envolvimento dos Estados Unidos com a tortura no exterior. O seu livro sobre o assunto acaba de ser lançado, e neste final de semana, em Washington, D.C., ela ajudará na encenação de um julgamento simulado de autoridades do governo Bush que Harbury e outros ativistas acreditam que desrespeitaram leis internacionais e norte-americanas relativas à tortura.

Os "réus" são o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld; o procurador-geral Alberto Gonzales; e o ex-diretor da CIA, George Tenet. O ator David Clennon (que atuou no filme "Desaparecido") fará o papel de Rumsfeld. Um professor da Universidade Oberlin será Tenet. E Francisco Letelier --cujo pai, Orlando, um alto funcionário do governo chileno, foi assassinado em 1976-- representará Gonzales.

Vários defensores dos direitos humanos - incluindo Harbury, que vai "depor" sobre o assassinato do seu marido - atuarão como testemunhas e presos. Vítimas da tortura de todo o globo serão testemunhas, e a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Mairead Maguire, da Irlanda, será a comentarista. "O nosso objetivo é separar o mito da realidade", explica Harbury, 54.

O seu novo livro, "Truth, Torture, and the American Way" ("Verdade, Tortura e o Estilo Norte-Americano"), tenta fazer o mesmo. "Ficou bem claro que os abusos cometidos na prisão Abu Ghraib foram ordenados a partir de cima. Por que as pessoas que autorizaram a tortura não foram punidas?", questionou ela em uma recente entrevista concedida no seu escritório em Cambridge.

Para Harbury, uma advogada formada em Harvard e militante do movimento de defesa dos direitos humanos, a questão da tortura é tanto política quanto pessoal. Em 1990, quando estava em viagem na Guatemala, Harbury conheceu e se apaixonou por um líder guerrilheiro que atuava na resistência contra o regime militar opressor que destruiu mais de 400 vilas, deixando cerca de 200 mil pessoas mortas ou desaparecidas. Ela e Efrain Bamaca Velasquez - conhecido como Comandante Everardo - se casaram em 1991, tendo morado juntos no Texas e no México quando ele não estava lutando nas montanhas da Guatemala. Ambos sabiam que, pelo fato de ele ser um rebelde do alto escalão da guerrilha, a vida de Velasquez estava em risco constante.

"Assim que alguém era pego, desaparecia", diz Harbury, que era advogada no Texas quando passou a conhecer refugiados da América Central que cruzavam a fronteira dos Estados Unidos contando histórias de horror. "Não havia prisioneiros políticos. Eles matavam todos que capturavam". Desde meados dos anos 80, ela viajou várias vezes à Guatemala com um gravador e uma câmera, colhendo relatos de testemunhas da tortura, e levando tais informações às organizações de direitos humanos nos Estados Unidos. Ela era expulsa da Guatemala, mas retornava mais tarde, comovida pelo sofrimento do povo. O seu livro "Bridge of Courage" ("Ponte de Coragem") relata detalhadamente esses fatos.

As tropas governamentais capturaram Everardo em 12 de março de 1992. Segundo a versão oficial ele se suicidou em combate para evitar ser capturado. Harbury jamais acreditou nisso. Um ano depois, ela ouviu de uma fonte no exército que o marido foi levado para uma prisão militar secreta, onde passou por sessões de tortura. Ele ainda estava vivo? Ela poderia ajudar a salvá-lo? Harbury deu início a uma campanha bastante divulgada para conseguir a libertação de Everardo. A campanha incluiu várias greves de fome, uma das quais durou 32 dias.

Ela suplicou ao governo dos Estados Unidos que a ajudasse, mas as autoridades disseram que não tinham informações sobre o destino do seu marido, e tampouco evidências da existência de prisões secretas. Mas um programa "60 Minutos" revelou que a Embaixada dos Estados Unidos na Guatemala de fato possuía um relatório da CIA confirmando a captura e a detenção secreta do seu marido pelo exército guatemalteco. Mais tarde Harbury descobriu, por meio de documentos do governo dos Estados Unidos, que Everardo foi morto por ordem de um coronel que era um informante pago da CIA.

O envolvimento norte-americano na Guatemala remonta a 1954, quando um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos derrubou o presidente eleito, que reconheceu oficialmente o Partido Trabalhista, legenda que colocou esquerdista em postos-chave de organizações camponesas e sindicatos, e até mesmo em alguns cargos governamentais. Durante grande parte da guerra civil de 36 anos, que teve início durante a Guerra Fria, os Estados Unidos forneceram ajuda financeira ao governo de direita porque este era ferrenhamente anticomunista.

Mais de 40 anos depois, utilizando a Lei de Liberdade de Informação e fontes na Guatemala, Harbury reconstitui aquilo que ela acredita ter acontecido com Everardo. Ele ficou vivo durante pelo menos um ano, foi torturado para a obtenção de informações, permaneceu em uma prisão de segurança máxima para que não fugisse e, a seguir, foi assassinado. Como resultado do caso relativo ao seu marido, a CIA demitiu dois funcionários e rebaixou de posto ou repreendeu oito outros.

Enquanto investigava a morte do marido, Harbury também ouviu várias histórias de guatemaltecos sobre "gringos" que falavam espanhol com sotaque norte-americano e que estavam presentes durante interrogatórios brutais. Ela conheceu a irmã Dianna Ortiz, uma freira norte-americana que foi arrancada do seu convento na zona rural da Guatemala, estuprada e torturada (nesta semana, Ortiz interpretará a si própria no julgamento simulado). Durante a sua investigação sobre a morte do marido, Harbury disse ter recebido ameaças de morte, e o carro do seu advogado foi incendiado.

O seu livro recente documenta a aprovação por parte dos Estados Unidos da tortura na América Central, no Vietnã, na prisão Abu Ghraib e na Baía de Guantánamo, onde vários insurgentes iraquianos e afegãos estão presos. Ela diz que os Estados Unidos treinaram alguns dos piores violadores dos direitos humanos - incluindo o coronel guatemalteco que ordenou a tortura e a morte do seu marido - na Escola das Américas, do exército norte-americano, em Fort Benning, Georgia, tendo recrutado vários deles para atuarem como agentes pagos da CIA.

A escola treina forças de segurança latino-americanas em contra-insurgência, liderança, interdição de drogas e ajuda em caso de desastres. Entre os graduados da escola está o ex-ditador panamenho Manuel Noriega e vários outros acusados de violações dos direitos humanos. Defensores da escola, que foi rebatizada e que opera segundo novas diretrizes, dizem que hoje em dia todas as turmas têm aulas de direitos humanos.

"A tortura não está somente arruinando a imagem dos Estados Unidos no exterior. Ela também é ilegal, e não funciona. Temos dois estatutos definindo a tortura cometida no exterior como crime grave", afirma Harbury, sentada no seu cubículo na sede do Comitê de Serviço Universalista Unitário, uma organização sem fins lucrativos que promove os direitos humanos e a justiça social.

Depois, há as questões de ordem prática. "Quando se tortura alguém, não se consegue bons dados de inteligência. O meu marido era do alto escalão da guerrilha. Ele foi treinado para não falar. O que se deve fazer, em vez disso, é desenvolver a confiança, realizar interrogatórios rigorosos, identificar contradições e dar aos detentos incentivos para que falem. No Oriente Médio, se sugere o envio de imames para falarem com os presos".

Dois anos atrás, Harbury se mudou para Boston quando aceitou uma bolsa de pesquisas de um ano no Instituto Radcliffe, o que lhe permitiu escrever o seu último livro. Quando concluiu o trabalho, ela foi contratada pelo Comitê de Serviço Universalista Unitário como diretora do programa Parem a Tortura Permanentemente. O julgamento simulado faz parte da programação de final de semana "Call For Justice" ("Pedido de Justiça"), que inclui seminários e conferências, assim como o depoimento de sobreviventes da tortura do Oriente Médio, América Latina e Estados Unidos.

O caso de Harbury ainda a assombra. Ela não se conforma por não ter conseguido salvar a vida do marido. Harbury ganhou US$ 500 mil em indenizações do governo guatemalteco no Tribunal Inter-Americano de Direitos Humanos. Ela depositou o dinheiro em um fundo para sustentar os 28 sobrinhos e sobrinhas do seu marido. "Embora o meu marido tenha crescido em uma plantação de algodão, sem acesso à educação, estou feliz em dizer que três membros da família Bamaca estão a ponto de começarem a cursar a faculdade", diz ela, sorrindo. "Me orgulho deles". Ela viaja regularmente à Guatemala para visitar os parentes do marido.

Ela sente que, ainda que o governo e os rebeldes tenham assinado um acordo de paz em 1996, a Guatemala ainda não é um país seguro. "Antes, a meta era aterrorizar a população. Assim, eles deixavam corpos pendurados em árvores. Hoje, os sindicalistas ou militantes de grupos de direitos humanos não têm as mãos amputadas nem são assassinados com maçaricos. Mas as suas filhas podem ser estupradas, eles estão sujeitos a misteriosos e trágicos acidentes automobilísticos e os seus filhos, irmãos e irmãs podem ser mortos". A Human Rights Watch, um grupo de monitoramento dos direitos humanos, diz que a Guatemala fez poucos progressos no campo dos direitos humanos.

Em 2002, Harbury apresentou o seu próprio caso à Suprema Corte dos Estados Unidos, em um processo movido contra funcionários do governo Clinton, no qual ela os acusou de terem-na enganado sobre a captura e a morte de Everardo, privando-a, assim, do acesso aos tribunais, algo que poderia ter salvado a vida do marido. A Suprema Corte determinou por unanimidade que ela não tinha o direito de processar os funcionários.

O que ela deseja agora é resgatar o corpo do marido, para que ele possa receber um sepultamento decente. Até o momento, o governo guatemalteco tem resistido à idéia. Ativista encena peça que ilustra laço dos EUA com torturadores Danilo Fonseca

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