Ex-chefe da FEMA diz que resposta local 'não funcionou'

Rick Klein
Em Washington

Michael D. Brown, o ex-diretor da Agência Federal de Administração de Emergência (FEMA), acusou na terça-feira os 'disfuncionais' governos estadual e locais na Louisiana pelo agravamento do sofrimento e perda de vidas na catástrofe do furacão Katrina, e disse que a resposta da FEMA foi incapacitada pelo foco do governo Bush no terrorismo em detrimento das operações de emergência doméstica.

Em comentários desafiadores, às vezes irritados, Brown disse para uma comissão de legisladores, que está investigando a resposta ao Katrina, que após a FEMA ter sido colocada sob o comando do novo Departamento de Segurança Interna, em 2002, os pedidos de orçamento para novos equipamentos de comunicação foram rejeitados. Sua agência, ele disse, sofreu "definhamento" à medida que as operações antiterror se tornaram a prioridade.

Pressionado pelos membros do comitê, Brown defendeu agressivamente sua atuação e se recusou a admitir falhas pela resposta do governo de ajuda às vítimas famintas e traumatizadas do furacão Katrina. Ele disse que não conseguiu persuadir a governadora da Louisiana, Kathleen B. Blanco, ou o prefeito de Nova Orleans, C. Ray Nagin, a ordenarem mais cedo a evacuação.

Brown também disse que pediu para que a evacuação tivesse início no sábado, dois dias antes da data prevista para a chegada do Katrina, mas Nagin esperou até o domingo, 28 de agosto, para ordenar a evacuação -menos de 24 horas antes da passagem do furacão.

"Meu maior erro foi não reconhecer no sábado que a Louisiana era disfuncional", disse Brown, que ainda é remunerado pelo governo como consultor para ajudar a consertar os problemas que a catástrofe parece ter exposto.

"O fracasso na evacuação", disse Brown, "foi o ápice de todas as outras coisas que ou saíram errado ou foram exageradas".

Mas o depoimento contencioso de Brown provocou fortes críticas por parte de alguns membros do Congresso, que o retrataram como um administrador inepto que não estava qualificado para o cargo na FEMA.

Além disso, a FEMA e seus principais diretores passaram por uma descompostura por não terem assegurado que os centros de evacuação de Nova Orleans estivessem adequadamente abastecidos, e por não terem ajudado dezenas de milhares de moradores pobres a saírem do caminho da tempestade.

"Vocês foram um fiasco. Para mim a nota de vocês é F-", disse o deputado Gene Taylor, democrata do Mississippi, cujo distrito sofreu danos significativos pelo Katrina. "Talvez o presidente tenha agido corretamente ao lhe pedir para deixar seu cargo."

O deputado Christopher R. Shays, republicano de Connecticut, expressou descrença quando Brown disse que os maiores erros que cometeu foram não ter realizado coletivas de imprensa regulares e ter fracassado em convencer Blanco e Nagin a realizarem a evacuação mais cedo. Apesar dos governos locais terem falhado ao não ordenarem uma evacuação mais rápida, disse Shays, Brown não fez nada para coordenar a resposta federal e assegurar que os refugiados tivessem comida e água suficiente.

"Este é o motivo por estar feliz com sua saída, porque este olhar, você sabe, como de um cervo diante do farol, me diz que você não era capaz de realizar o trabalho", disse Shays. "Eu acho que a razão para você estar lá era para assumir o comando da coordenação, trabalhar com (outras agências), não apenas ficar reclamando do que as outras pessoas estavam fazendo."

Brown se tornou o garoto propaganda dos fracassos do governo Bush no Katrina, que matou mais de 1.000 pessoas e deixou Nova Orleans inundada. Enquanto as imagens dos noticiários mostravam as condições desesperadas no centro de convenções da cidade, Brown dizia em entrevistas que não estava ciente dos problemas até tê-los visto na TV. Após a tempestade, as credenciais de Brown para o cargo passaram rapidamente a ser questionadas; antes de entrar para o governo, ele passou a década anterior como principal dirigente da Associação Internacional do Cavalo Árabe, e várias organizações de mídia divulgaram exageros em seu currículo.

O presidente Bush, que estava em férias durante a passagem da tempestade, viu seus índices de aprovação despencarem até baixas recordes após a catástrofe do Katrina e a resposta ineficiente do governo. Durante uma coletiva de imprensa em Biloxi, Mississippi, Bush elogiou publicamente "Brownie" por fazer "um tremendo trabalho", mas seu governo afastou Brown e ordenou seu retorno a Washington poucos dias depois -uma medida que levou Brown a pedir demissão.

Depondo perante o comitê na terça-feira, Brown fez um depoimento que às vezes era desafiador e às vezes defensivo. Ele se irritou quando Taylor lhe pediu para que se lembrasse dos nomes das autoridades de emergência e a certa altura corrigiu Taylor, quando este erroneamente chamou a FEMA de "associação" em vez de agência.

Brown disse que não gostou de ser "repreendido" por membros do Congresso por circunstâncias que estavam fora de seu controle, e atacou a imprensa por "mentiras" e exageros sobre as discrepâncias em seu histórico profissional. Ele disse repetidas vezes que a primeira linha de resposta em qualquer desastre deve ser local e estadual, e reconheceu apenas que as autoridades federais não estavam preparadas para o tamanho do desastre.

"Eu acho que você quer que eu seja o super-herói que vai chegar lá e retirar de imediato todos de Nova Orleans", ele disse para Shays. "Nós estávamos preparados mas fomos sobrepujados, esta é a melhor forma que posso colocar."

Quando Taylor sugeriu que Brown desconhecia o sofrimento das vítimas do furacão, Brown contra-atacou que seu professor de escola dominical morreu no atentado de Oklahoma City, e que ele viu a devastação e a miséria pessoalmente quando viajou ao Sudeste Asiático após o maremoto de dezembro passado.

"Eu sei como é morte e destruição, de forma que não espero que você me diga que desconheço o sofrimento das pessoas", disse Brown.

Brown reconheceu que um exercício de simulação de furacão, de US$ 1 milhão, em Nova Orleans no ano passado, expôs muitos dos mesmos problemas logísticos e de comunicação que atrapalharam os esforços de ajuda do Katrina. Mas ele disse que as autoridades de segurança interna ignoraram seu pedido de mais recursos para consertar os problemas, apesar de ter dito não se lembra dos detalhes de seu pedido orçamentário.

Michael Chertoff, o secretário de Segurança Interna, disse aos repórteres em Miami, na terça-feira, que não responderia às críticas de seu ex-funcionário. "Ele fala por si mesmo e tem direito ao seu ponto de vista, e não tenho mais nada a acrescentar", disse Chertoff.

Enquanto isso, Blanco acusava Brown de ter minimizado seus esforços para evacuar a cidade e obter ajuda federal o mais rapidamente possível.

"Tais declarações falsas e enganadoras, feitas sob juramento perante o Congresso, são chocantes", disse Blanco em uma declaração preparada, divulgada na tarde de terça-feira. "Elas claramente demonstram o grau assustador com que Brown está ou fora de contato com a realidade ou com a verdade."

A audiência ocorreu na terça-feira em meio a um forte desentendimento partidário que poderá atrapalhar os resultados de quaisquer investigações do Congresso. O comitê deveria ser uma força-tarefa bipartidária de deputados e senadores. Mas os democratas o boicotaram quando seu pedido para uma comissão independente foi ignorado; eles acreditam que, como os republicanos controlam a Casa Branca e ambas as casas do Congresso, qualquer investigação legislativa seria um "encobrimento".

A ação dos democratas levou os líderes republicanos do Senado a seguirem em frente com sua própria investigação e não se juntarem aos membros da Câmara no comitê. Isto significa que o comitê é composto apenas de republicanos da Câmara, a maioria deles leal a Bush. (Dois deputados democratas da região da Costa do Golfo -Taylor e Jefferson- foram autorizados a participar do interrogatório de Brown, mas não são membros do comitê.)

A líder da minoria na Câmara, Nancy Pelosi, democrata da Califórnia, caracterizou o comitê como um "engodo" e previu "um encobrimento partidário" das falhas do governo Bush.

Ainda assim, alguns democratas aproveitaram o depoimento de Brown. A senadora Hillary Rodham Clinton, democrata de Nova York, disse que os problemas com o governo descritos por Brown mostram que a agência deve ser devolvida ao nível de Gabinete.

"Os pedidos de ajuda não respondidos da FEMA à Casa Branca e ao Departamento de Segurança Interna devem provocar um calafrio na espinha de cada americano", disse Clinton. "O fato é que a FEMA costumava funcionar." George El Khouri Andolfato

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