Na campanha antipapoula, as meninas freqüentemente pagam o preço

Farah Stockman
Em Shinwar, Afeganistão

Nas áridas colinas da província de Nangarhar, dívida é uma forma de vida. A cada outono, os meeiros pegam empréstimos junto aos traficantes de drogas para a plantação de papoula. Após cada colheita, eles pagam os empréstimos em papoula, que eventualmente é transformada em heroína.

Neste ano, um esforço de erradicação apoiado pelos Estados Unidos reduziu acentuadamente o lucrativo cultivo de papoula em Nangarhar, mas as dívidas dos meeiros persistem. Agora, alguns dos agricultores mais pobres da região dizem que estão sendo forçados a pagar os traficantes com a única coisa que lhes restou: suas filhas.

Dar uma filha para pagar uma dívida é uma prática rara mas antiga entre as tribos rurais do Afeganistão. Um método de pagamento de último recurso, a filha quase sempre é dada como noiva àquele que emprestou o dinheiro ou a seu filho, mas às vezes é dada como serviçal, segundo a Organização Internacional de Migração.

Não há estatísticas sobre quantas garotas foram vítimas desta prática, mas grupos de direitos humanos e a Organização Internacional de Migração possuem casos documentados, e entrevistas com mais de uma dúzia de agricultores endividados e anciões tribais de quatro distritos de Nangarhar disseram ter testemunhado ou participado de tais transações.

"É claro, é um fracasso quando as pessoas vendem uma mulher", disse Arbab Asif, um proprietário que aluga terras para 58 famílias de meeiros. "Mas estas pessoas são muito pobres. Elas não têm qualquer outra alternativa."

Um relatório do mês passado do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (Unodc), estimou que o programa de erradicação -uma combinação de destruição de plantações e persuasão dos agricultores a não plantarem- reduziu o cultivo da papoula no Afeganistão em 21% neste ano. Em Nangarhar, a redução foi de 96%.

Os governos americano e afegão rotularam a campanha, iniciada em novembro de 2004, como a vitória mais significativa na batalha contra os narcóticos no Afeganistão, o maior produtor de papoula para ópio do mundo. Mas tal sucesso lançou uma sombra por todas as aldeias remotas desta província, onde os meeiros estão cambaleando com a repressão.

A prática é um método tradicional de solução de conflito no qual um assassino, ladrão ou devedor é forçado pelos anciões tribais a dar uma filha ou irmã como pagamento à família da vítima. Alguns descrevem a prática como uma transação de casamento.

Em uma cultura de casamentos arranjados, onde o noivo geralmente paga ao pai da noiva entre US$ 200 e US$ 5 mil dependendo de seu status social e dotes, um homem pode cancelar sua dívida arranjando para que sua filha se case com o responsável pelo empréstimo ou um parente deste.

A prática é sigilosa e cheia de vergonha. Ela raramente pode ser revertida, já que as garotas casadas se mudam para um novo lar e divórcio é algo desconhecido por aqui. As leis tribais pashtun proíbem que membros da comunidade discutam a questão abertamente, de forma que os envolvidos falam apenas sob a condição de anonimato. Não foi possível entrevistar as vítimas, que vivem em lares associados aos traficantes.

Um ancião tribal do distrito de Chaparhar descreveu um caso no qual um plantador de papoula não foi capaz de pagar um empréstimo de cerca de US$ 1.166 dólares porque suas plantações foram erradicadas. O agricultor ofereceu sua filha de 14 anos, mas o traficante a recusou porque a garota era muda. Então o agricultor arranjou o casamento dela com um vizinho de 40 anos, e pagou o traficante com o dinheiro que recebeu pelo casamento, segundo o ancião.

"O problema agora está resolvido", disse ele.

Um ancião do distrito de Khogiani descreveu outro caso no qual um homem que devia cerca de US$ 6.600 ofereceu suas duas filhas, com idades de 6 e 10 anos, como pagamento. O grupo de anciões tribais recusou tal forma de pagamento, porque as meninas eram jovens demais, ele disse. O agricultor fugiu com sua família para o Paquistão para evitar o pagamento da dívida em dinheiro. Um amigo que tinha garantido o empréstimo foi preso, disse o ancião. Os anciões tribais exercem a autoridade de tribunal em disputas familiares.

Um homem de 25 anos, um vendedor de suco em Jalalabad, a capital da província, disse que se casou no ano passado com uma menina de 14 anos cuja família não conseguiu pagar o empréstimo para plantação de papoula ao seu pai. Ele disse que seu pai esperou dois anos pelo pagamento do empréstimo antes de requisitar a filha do devedor.

"Depois de dois anos, meu pai foi até ele e perguntou: 'Você pode devolver meu dinheiro? Caso contrário, meu filho é um adulto. Por favor, dê sua filha para mim'", lembrou o homem de 25 anos, descrevendo como transcorreu a transação. "Eu estou muito feliz com minha esposa, mas ainda há tensão entre as famílias. Elas não expressam seus sentimentos, mas permanecem inimigas secretas."

Ele disse que permite que sua esposa mantenha contato com a família dela, mas que é comum os maridos das áreas tribais pashtun proibirem suas esposas de terem contato com o mundo exterior fora do lar, incluindo com seus próprios parentes.

É esperado que a prática de dar a filha uma filha como pagamento de uma dívida aumentará acentuadamente após a campanha agressiva contra a plantação de papoula, especialmente se os agricultores sentirem que não têm alternativa a não ser continuar plantando nas áreas que podem ser duramente atingidas pelos programas de erradicação, arriscando assim não ter renda suficiente para pagar os empréstimos contraídos para financiar suas plantações.

Lal Gul, um pai endividado de cinco, cuja plantação foi destruída neste ano, lembrou que o Taleban reprimiu o cultivo da papoula certo ano em que estava no poder e "testemunhamos muitos casos" de pagamento de dívidas com filhas. "Neste ano, estou certo que o número de casos aumentará porque não há fonte de renda para pagamento dos empréstimos."

No ano passado, o relatório anual da Organização Internacional de Migração descreveu o tráfico de seres humanos no Afeganistão como um problema crescente, e incluiu seções especiais no relatório para a prática do casamento como forma de quitar uma dívida e a troca de mulheres para acerto de disputas.

A Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) gastou US$ 18 milhões em 2005 em projetos de modos alternativos imediatos para ganho de vida em Nangarhar, para dar aos agricultores outra fonte de renda. Mas tais recursos, para projetos de trabalho braçal de curto prazo, ficaram muito aquém de fornecer aos meeiros renda suficiente para pagamento de suas dívidas.

Quase todos os agricultores entrevistados disseram que planejam plantar papoula novamente, já que é o único cultivo para o qual podem obter crédito e o único que lhes gera renda suficiente para pagarem dívidas antigas.

Os traficantes freqüentemente dobram ou mesmo triplicam a dívida se não forem pagos no prazo de um ano. Vários agricultores disseram que alguns traficantes mataram pessoas ou tomaram seus lares quando a dívida permaneceu pendente por muito tempo.

"Você tem três alternativas. Você pode pagá-lo, pode dar sua filha ou irmã ou pode fugir", disse o ancião de Khogiani. "O pai sempre rejeita e nega dar sua filha, mas há muitas obrigações. Este é o motivo para muitas famílias fugirem para o Paquistão."

Em uma região conhecida como Shinwar, berço da indústria do ópio do Afeganistão, a cerca de uma hora de carro a leste de Jalalabad, cerca de 30 famílias de uma aldeia de 200 fugiram recentemente para o Paquistão ou Irã porque não podiam pagar as dívidas ligadas à papoula, disse o ancião tribal Malik Afsar, 84 anos. Ele disse que nenhum agricultor em sua aldeia deu uma filha.

Mas horas depois, um agricultor da região de Afsar reconheceu que sua cunhada, uma criança, tinha sido dada em casamento dois anos atrás para a família de um homem que emprestou ao pai dela dinheiro para plantar papoula. Ele disse que as famílias aguardariam até que ela crescesse para realizar o casamento.

Jandad Spin Ghar, diretor regional da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão, disse que o grupo recebeu numerosas queixas envolvendo a cobrança de dívidas, mas apenas uma se referia especificamente à venda de uma mulher por causa de dívida ligada à papoula. Sua equipe visitou a área para investigar, mas as famílias locais se recusaram a dar qualquer informação.

"É muito sigiloso", disse Ghar. "As leis tribais forçam os agricultores a pagarem suas dívidas. O tribunal, o sistema legal, a polícia, todos recebem dinheiro dos traficantes. O que um agricultor pode fazer? Só lhe resta fugir."

Ghar disse que sua comissão está agindo para impedir mais de 20 casos de garotas sendo dadas como acerto, mas a maioria era como pagamento às famílias de vítimas de casos de assassinato.

Abdul Hamad Razzaq, um pesquisador de direitos humanos baseado em Cabul, ajudou a investigar 500 casos por todo o Afeganistão de meninas e mulheres dadas para acertar disputas. Ele disse que apenas 20 foram para pagamento de dívidas financeiras.

Tal pesquisa, realizada como parte de um relatório de uma nova organização afegã conhecida como Fundação de Pesquisa Legal para Mulheres e Crianças, informou casos de uma mulheres de até 32 anos e meninas de 3 anos sendo dadas para outra família.

Hangama Anwari, uma ativista de direitos humanos que trabalha para persuadir as comunidades a abandonarem a prática, disse que as vítimas freqüentemente vivem o restante de suas vidas em isolamento e vergonha, tratadas como serviçais mesmo quando são esposas.

"É um crime", disse ela. "É contra todas as leis civis e é contra o Islã.
(...) Mas as pessoas que estão aplicando as leis não se importam." George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos