Patrões são injustos com mulheres, diz pesquisa

Kimberly Blanton
Em Boston

Evelyn Murphy não é nenhuma revolucionária, mas a ex-vice governadora de Massachusetts talvez esteja em uma cruzada para corrigir as desigualdades salariais das mulheres, que receberam US$ 0,77 por cada dólar recebido pelos homens em 2004, de acordo com estatísticas do Escritório do Censo.

O título de seu novo livro, "Getting Even: Why Women Don't Get Paid Like Men - and What to Do About It" (Encontrando a Igualdade: por que as Mulheres não Recebem como os Homens - e o que fazer a respeito), pode soar radical. Suas páginas trazem crônicas de mulheres que processaram seus empregadores --e venceram-- porque não foram promovidas, não conseguiram cargos permanentes, não receberam como seus colegas ou foram despedidas por engravidarem ou fazerem denúncias.

A tese de Murphy é clara: os patrões são injustos com as mulheres.

No entanto, as soluções propostas pela diretora de uma empresa de seguros de 65 anos podem surpreender. Ela argumenta que primeiro as mulheres precisam agir dentro do trabalho, confrontando seus patrões sobre as disparidades de salário e exigindo mudança.

Para dar suporte ao livro, ela abriu recentemente uma organização sem fins lucrativos, The Wage Project --das iniciais em inglês para "Mulheres Buscando Igualdade"-- para mobilizar as mulheres e criar redes com grupos de profissionais em torno do país para apoiar seus esforços.

"O litígio não é a melhor forma", disse Murphy.

Outros que travaram essas batalhas por anos podem chamar Murphy de Poliana, acusando-a de não ser realista diante as corporações americanas.

"Na maior parte das empresas, você não sabe quanto seus colegas ganham. Você não tem como saber se está recebendo menos. Algumas vezes, perguntar com jeitinho não resolve. É por isso que as pessoas formam sindicatos ou entram com ações", disse a advogada de Boston Nancy Shilepsky, sócia da Shilepsky O'Connell.

Até David D'Alessandro, em recente opinião no "Boston Globe", disse que os homens em altos cargos evitavam as mulheres em seus círculos pois preferem assim.

Murphy, que participa do conselho de diretores da Sbli USA Mutual Life Insurance Co. e detém um doutorado em economia da Universidade de Duke, faz um cálculo: em suas vidas, as mulheres recebem entre US$ 700.000 e US$ 2 milhões (entre R$ 1,5 milhão e 4,4 milhões) a menos que os homens com a mesma escolaridade.

"O livro de Evelyn me fez lembrar de quando eu estava subindo na carreira", disse June Rokoff, ex-vice-presidente de serviços mundiais da Lótus Development Corp.

O livro conta várias histórias pessoais de mulheres que sentem o ferrão do preconceito no trabalho, o dinheiro perdido e as oportunidades negadas.

Sua história de sucesso favorita ocorreu há seis anos, quando 15 professoras do MIT procuraram o então reitor Charles Vest para pedir mais espaço de laboratório e maiores salários --e conseguiram.

"Eu acredito que se você iniciar um movimento de base, os diretores de empresa vão começar a prestar atenção como nunca fizeram antes", disse Murphy nesta semana, enquanto autografava 500 livros no Commonwealth Institute, que ela ajudou a fundar há oito anos para promover empresárias.

Com a entrada das mulheres no mercado de trabalho nos anos 70, o vão salarial entre homens e mulheres começou a diminuir. A economista da Universidade de Cornell Francine Blau, autoridade em salário das mulheres, disse que o vão encolheu nos anos 80, estagnou nos anos 90, e melhorou levemente desde 2000.

Interessada pelo assunto da diferença salarial, Murphy procurou um agente literário com a idéia para um livro no outono de 2002. A agente Jill Kneerim, da Kneerim & Williams, em Boston, disse que os editores gostaram da proposta de Murphy quando as duas foram a Nova York apresentá-la no início de 2003. Oito editores competiram pelo livro, e Murphy recebeu um gordo adianto, disse Kneerim, apesar de não revelar a quantia.

Murphy imaginou que ia precisar de um ano ou dois para desenvolver sua idéia. A escritora E.J. Graff, quando ouviu Murphy falar no Centro de Pesquisa e Estudos da Mulher na Universidade de Brandeis, onde as duas eram professoras, questionou seu cronograma. Ela ofereceu ajuda e as duas escreveram o livro juntas, publicado neste mês pela Touchstone, uma editora da Simon & Schuster.

Murphy sente que tocou em um ponto que ressoa com o público. Sua turnê com o livro neste mês incluiu cidades da Costa Leste e entrevistas com a rede de televisão Fox e a rádio ABC. Até os homens "entendem que o assunto envolve suas mulheres e filhas", disse Murphy.

Autora é apenas mais um título na carreira eclética de Murphy. Filha de um soldado, logo cedo aprendeu a adaptar-se a circunstâncias, enquanto se mudava freqüentemente com sua família --Roma, norte da Virgínia, Carolina do Norte, de volta para a Virgínia.

Depois de terminar seu doutorado em Duke, ela se mudou para Boston, para trabalhar como consultora sem fins lucrativos do programa federal de combate à pobreza. Seu primeiro aumento só aconteceu depois de seu chefe defendê-la. "Não sabia como pedir", disse ela.

Com 30 e poucos anos, Murphy deixou o emprego, em 1971, para abrir uma firma de consultoria, que depois vendeu para uma empresa britânica. Ela diz que não queria entrar para a política, mas a política encontrou-a.

Depois que o democrata Michael Dukakis foi eleito governador pela primeira vez, em 1974, ela recebeu uma ligação de um contato que havia trabalhado na campanha. Ele pediu a ela que fizesse uma entrevista para entrar em sua equipe de transição, para um dos três cargos no gabinete.

Durante a entrevista, ela se lembra de ter dito: "Sou PhD em economia, então o cargo mais adequado seria de secretária de assuntos econômicos". A equipe respondeu: "Não, isso é para homem." Ela se tornou secretária de assuntos ambientais. Quando lhe ofereceram a vaga, ela pensou: "Posso tentar."

Depois de sua primeira candidatura mal sucedida à vice-governadora, em 1982, Dukakis nomeou-a secretária econômica. Competitiva, Murphy novamente concorreu à vice-governadora em 1986 e foi a primeira mulher eleita para um cargo estadual.

Em 1990, tempos economicamente difíceis, ela competiu nas primárias para governadora pelo Partido Democrata, mas deixou a disputa quando não conseguiu levantar fundos suficientes para concorrer candidatos ricos, o ex-advogado geral Frank Bellotti e o presidente da Universidade de Boston John Silber.

Ela aceitou uma vaga para diretora de uma firma de advocacia e entrou para vários conselhos, inclusive da Blue Cross e Blue Shield de Massachusetts.

A Blue Cross contratou-a em 1993 como vice-presidente executiva de assuntos legislativos e da mídia. Ela deixou a Blue Cross em 1998 para escrever o livro.

Murphy não tinha idéias preconcebidas sobre como remediar o vão salarial. Sua pesquisa e entrevistas com mulheres que processaram seus empregadores levaram-na a estimular as mulheres a agirem junto aos empregadores.

Processar o patrão provoca um "tratamento duro e uma situação em que todos perdem", disse ela. "As mulheres continuam entrando na justiça não porque pensam que ficarão satisfeitas, mas apenas porque acreditam que tornarão o ambiente de trabalho melhor para quem vier depois. Elas repetem muito isso. 'Achei que poderia melhorar as coisas para as próximas funcionárias'", disse Murphy. Elas recebem de US$ 700.000 a US$ 2 mi a menos durante a vida Deborah Weinberg

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