Polanski faz uma adaptação magistral de Dickens

Ed Siegel
Crítico de cinema do Globe

Ele caminha pelas ruas sozinho. As forças do mal estão aguardando por ele. Um passo errado poderá ser seu último. A sorte, tanto quanto sua capacidade, decidirá se ele sobreviverá.

É a história de "Oliver Twist" em sua nova encarnação como um filme de Roman Polanski. Mas também é, em conseqüência, a história de "O Bebê de Rosemary", "O Inquilino", "O Pianista", "Tess" e "Busca Frenética" de Polanski. E quando você considera o quanto as chances estão a favor do mal, então "Oliver Twist" também se torna estreitamente relacionado a "Chinatown", "A Morte e a Donzela" e até mesmo a "A Dança dos Vampiros".

Resumindo, se o filme é ou não um Dickens muito bom --e a maioria dos críticos acha que não-- "Oliver Twist" é um Polanski muito bom.

Não é certamente o que passamos a esperar de produções de Dickens para o cinema e o teatro. O forte contraste entre bem e mal desapareceu. Da mesma forma a algazarra ligeiramente excêntrica e bem-humorada dos personagens secundários de Dickens. E será que Oliver, ou qualquer outro, viverá feliz para sempre? Não aposte nisto. As imagens finais, apesar de esperançosas, não deixam você com as lágrimas de alegria que Dickens provoca em seus leitores.

No filme de Polanski, não há utilidade para sentimentos como este, do início do livro: "O travesseiro de Oliver foi alisado por mãos gentis naquela noite; e ternura e virtude o observaram enquanto ele dormia. Ele se sentiu calmo e feliz, e poderia ter morrido sem um murmúrio".

O que temos no lugar é uma Londres do século 19 não diferente da Varsóvia do século 20 de "O Pianista". Os críticos notaram isto e apontaram que "Oliver Twist" busca o mesmo tom desapaixonado que Polanski empregou naquele filme do Holocausto. Mas muitos sentem que Dickens sem paixão é um mingau ralo.

É neste ponto que acho que estão errados. Ao permanecer fiel ao que considera mais atraente em "Oliver Twist", o filme de Polanski permanece fiel ao que, no século 21, continua sendo mais vital no romance.

Polanski faz com "Oliver Twist" o que a recente produção do American Repertory Theatre fez com "Carmen". Ao reduzir a história ao essencial, ele eliminou do romance o sentimentalismo do século 19 em prol de algo muito mais forte, tanto emocional quanto politicamente.

Este filme está para a maioria das adaptações cinematográficas de Dickens como "O Pianista" está para a maioria dos filmes sobre o Holocausto, um filme que nos lança em um mundo perigoso, em vez de um que toca nossas mais profundas afeições. (Mas como Polanski pôde suportar a trilha sonora sentimentalóide e nauseante de Rachel Portman é desconcertante. Ela quase estraga o filme.)

O diretor é, ele próprio, um sobrevivente do Holocausto. Os nazistas levaram seus pais e sua mãe morreu posteriormente em um campo de concentração. Ele dependeu de esperteza, sorte e da gentileza de estranhos para sobreviver, assim como Wladyslaw Szpilman em "O Pianista" e Oliver, que passa de uma situação a outra em Londres assim como Polanski passou no interior da Polônia. Como se isso já não fosse suficiente para lhe dar uma visão sombria do mundo, sua esposa, Sharon Tate, foi assassinada pelo bando de ratos de Charlie Manson.

Mas não vamos nos deixar levar pela autobiografia. "Oliver Twist" precisa ser auto-suficiente. Ainda assim, vê-lo no contexto da vida de Polanski e outros filmes não apenas lhe dá uma pista sobre as escolhas que ele fez, mas sobre o que faz as escolhas funcionarem.

Mais notadamente, Oliver está fugindo de forças corruptas que não pode controlar ou entender assim como os protagonistas de "O Bebê de Rosemary", "O Inquilino", "O Pianista" e "Tess". As forças do governo que julgam Oliver no início do filme parecem os cultistas que se aproximam de Rosemary no final daquele filme. Os moradores que pedem por sangue são como os vampiros de "A Dança dos Vampiros".

Nos anos 70, Polanski usou técnicas de câmera surreais para capturar a experiência do indivíduo em fuga. Quando Rosemary foge dos satanistas, Polanski dá significado real ao termo "filme de horror" à medida que os closes de Mia Farrow tornam seu terror palpável. Uma das imagens mais assustadoras entre os filmes de suspense é a de Trelkovsky, de "O Inquilino", olhando para seu quarto e vendo seu sósia olhando de volta para ele enquanto a câmera se move sinistramente entre os dois Trelkovskys. Isto é que é perder a identidade.

À medida que Polanski foi ficando mais velho o trabalho de câmera foi ficando mais convencional, mas a história continua a mesma. Richard Walker em "Busca Frenética", Szpilman e Oliver ainda estão fugindo, famílias estão sendo separadas, a corrupção impera.

Talvez o maior feito de Polanski em "Oliver Twist" seja tornar a sorte do personagem título tão concreta e visceral quanto a de Szpilman ou Rosemary. Você sente como é realizar o trabalho insensibilizante que é ordenado a Oliver. E quando ele é levado a Fagin, aquilo parece uma libertação. Polanski e Ben Kingsley não se atolam nos estereótipos judaicos do romance de Dickens e do filme de David Lean, com Alec Guinness.

Eles nos dão um marginal do século 19, às vezes cruel, às vezes gentil, sempre um ser humano, repleto de tons de cinza. Nós não precisamos gostar dele tanto quanto de John Cassavetes em "O Bebê de Rosemary", por vender sua esposa a Satã, mas Polanski certamente deixa evidente o motivo para ambos os personagens terem feito os acordos com o diabo que fizeram.

O mesmo vale para Nancy, aqui não a típica prostituta com coração de ouro, mas uma mulher calculando se pode se dar ao luxo de atuar segundo sua consciência, assim como alguns dos personagens em "O Pianista", que pesam se podem ou não ajudar Szpilman. Mesmo o horrível Bill Sykes parece alguém saído de um pesadelo contemporâneo, mais um bandido de rua ou namorado abusivo do que um vilão vitoriano.

Para Polanski, o governo sempre fez parte do problema, não da solução. Há seu próprio exílio dos Estados Unidos e da Inglaterra como resultado de ter feito sexo com uma menor de idade, é claro. Oliver não pode mais confiar nas forças oficiais tanto quanto Rosemary, Szpilman ou Jake Gittes, em "Chinatown". Em seus filmes, paranóia se torna uma habilidade de sobrevivência. Kafka não é uma influência tão óbvia aqui quanto é em "O Inquilino", mas você ainda assim pode vê-lo nas sombras.

Este não é um filme ostentoso, que chama a atenção a si mesmo, como a celebrada versão de 1948 de David Lean. A direção de arte se inspira sutilmente nas gravuras de Londres de Gustave Doré. Pawel Edelman fornece um trabalho de câmera contido mas nunca obscuro, não diferente do trabalho de Sven Nykvist em "O Inquilino".

Será que tal visão sombria do mundo uma antítese a Dickens?

Não se a meta principal de Dickens fosse nos fazer sentir o apuro de seus personagens. Eu nunca senti tanta solidariedade por Oliver, Fagin ou Nancy. Mesmo pelo cão de Sykes.

O mal está em ação aqui, mas não é um mal singular do século 19. É o mal que reconhecemos de outros filmes de Polanski e, se olharmos com mais atenção, um mal que ainda está em ação hoje. Diretor ajusta o clássico "Oliver Twist" ao seu estilo perturbador George El Khouri Andolfato

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