Coréia do Sul deverá fornecer células humanas clonadas

Gareth Cook
Em Boston

Cientistas sul-coreanos estão organizando um consórcio internacional, que inclui laboratórios na Califórnia e no Reino Unido, e que clonará células humanas para norte-americanos e outros cientistas que não têm acesso à controversa tecnologia de células-tronco.

O plano, que deverá ser anunciado nesta quarta-feira na Coréia do Sul, provavelmente acelerará a criação e o uso de células-tronco embrionárias humanas clonadas, que muitos cientistas vêem como um instrumento potente para a compreensão de doenças e para a potencial descoberta de tratamentos. Mas o plano provavelmente intensificará o debate político sobre a clonagem neste país, já que ele poderá significar o envolvimento de um grande número de cientistas norte-americanos com uma tecnologia que os críticos consideram moralmente questionável. O plano será financiado em parte pelo governo sul-coreano, em um contraste gritante com as políticas do presidente Bush, que impediu o uso de verbas federais para a criação de quaisquer novas células-tronco embrionárias humanas.

O consórcio pretende estabelecer a colaboração com clínicas de fertilidade e cientistas nos Estados Unidos e no Reino Unido, segundo um artigo publicado na quarta-feira no site do "New England Journal of Medicine". Três técnicos sul-coreanos viajarão periodicamente até os laboratórios do consórcio para fazer os procedimentos, e as células-tronco resultantes serão levadas de volta a Seul para passarem por análises e, depois disso, serão disponibilizadas. Segundo o artigo, quando estiver em pleno funcionamento, o consórcio poderá se transformar em uma espécie de linha de montagem, criando cerca de cem lotes de células-tronco embrionárias clonadas anualmente --o que representaria uma aceleração dramática das pesquisas.

O grupo sul-coreano --liderado por Hwang Woo Suk, da Universidade Nacional de Seul, que também liderará o consórcio-- possui os únicos cientistas do mundo que criaram com sucesso células-tronco embrionárias humanas clonadas. Kevin Eggan, que faz parte da equipe da Universidade Harvard que pretende clonar células humanas, diz que ele e outros cientistas ficaram impressionados com a transparência da equipe coreana, que recebeu cientistas de todo o mundo.

"Eu aplaudo esta iniciativa", afirma Eggan. "Espero que ela sinalize uma expansão do seu comprovado compromisso com a disseminação dessa tecnologia para os cientistas de todo o planeta".

Mas vários cientistas também manifestaram um outro temor, alegando ser importante que os pesquisadores norte-americanos aprendam a técnica por si próprios.

"Esta tecnologia está ainda em um estágio tão inicial que eu não sei se seria inteligente centralizá-la", afirma Arnold Kriegstein, diretor do Instituto de Biologia de Tecidos e Células-Tronco da Universidade da Califórnia em São Francisco. "Assim como outras tecnologias, esta avança por meio de inovações que ocorrem em múltiplos locais".

A clonagem, que é conhecida como transferência nuclear de célula somática, é uma maneira de criar células-tronco embrionárias. Os cientistas se interessam por tais células porque elas têm a capacidade de se transformarem em qualquer célula do corpo, o que faz com que sejam uma poderosa ferramenta de pesquisa biológica. Com a transferência nuclear, os cientistas removem o núcleo da célula de um paciente, contendo DNA do indivíduo, e o inserem em uma célula ovo que teve o seu próprio núcleo removido. Esta nova célula é, a seguir, estimulada a crescer durante vários dias, e depois as células-tronco são removidas, destruindo-se o embrião. As células-tronco obtidas possuem o mesmo DNA do paciente original.

Ao fazerem a transferência nuclear com uma célula de um indivíduo que padeça de uma doença, os pesquisadores são capazes de criar células-tronco que contenham os genes para aquela doença, o que lhes proporciona uma nova maneira de estudar a patologia. E, caso as células-tronco embrionárias sejam usadas para o tratamento de pessoas no futuro, a transferência nuclear permitiria que os pesquisadores criassem tecidos geneticamente compatíveis com os pacientes.

Mas essa tecnologia gera difíceis questões de ordem ética. Os oponentes do aborto se opõem à pesquisa com células-tronco embrionárias porque, para a criação dessas células, os cientistas precisam destruir um embrião humano - o que, segundo os críticos, significa acabar com uma vida humana. Com relação à transferência nuclear, a crítica tem sido ainda mais pronunciada, já que os pesquisadores criam um embrião especificamente para a pesquisa e, a seguir, o destroem, em vez de usarem embriões congelados que seriam de qualquer maneira descartados nas clínicas de fertilidade. Os embriões destruídos têm geralmente cinco dias de idade, e são esferas contendo várias centenas de células.

A transferência nuclear também gerou preocupações porque uma mulher precisa doar óvulos para que a pesquisa seja possível, e o procedimento cirúrgico para a retirada deste material implica em alguns riscos para a doadora. Os cientistas alegam que a doação de óvulos é um procedimento freqüentemente utilizado nas clínicas de fertilidade, e que as complicações são raras.

Na Califórnia, a doação de óvulos será administrada pelo Centro de Fertilidade Pacific, em São Francisco, segundo Philip E. Chenette, médico da instituição. A clínica, que é privada, cobrará pelos serviços. Se a pesquisa for feita na Califórnia, ela poderá contar com fundos do Instituto de Medicina Regenerativa da Califórnia, que foi criado depois que um plebiscito autorizou o Estado a arrecadar até US$ 3 bilhões para pesquisas com células-tronco. Segundo o seu presidente, Zach W. Hall, o instituto não está firmando um relacionamento formal com o novo consórcio.

O mais imediato impacto científico do consórcio seria a criação de lotes, ou linhagens, de células-tronco que possuem DNA de pacientes portadores doenças. Isso poderia se constituir em uma ferramenta vital para que os pesquisadores estudassem doenças específicas. Os cientistas seriam capazes de observar as "linhagens da doença", à medida que estas se desenvolvessem em diferentes tecidos, e observar se elas passam por dificuldades em estágios particulares do desenvolvimento. As linhagens da doença poderiam também ser usadas para o teste de potenciais medicamentos, diz Eggan. Na primavera, a equipe de Hwang anunciou ter criado linhagens para duas doenças, a diabetes juvenil e uma desordem hereditária do sangue denominada hipogamaglobulinemia congênita.

Embora nenhum outro cientista tenha se equiparado aos sul-coreanos nesta área, há duas equipes nos Estados Unidos, ambas ligadas à Universidade Harvard, que pediram permissão para realizar experiências com transferência nuclear em suas instituições. Kriegstein diz que cientistas da Universidade da Califórnia em São Francisco estão também se preparando para fazerem a transferência nuclear, embora as suas instalações não estejam prontas. Estes pesquisadores ainda não contam com a permissão da universidade para realizarem tal trabalho.

As atuais regras federais impedem que os cientistas que trabalham em laboratórios financiados com verbas públicas façam pesquisas com células-tronco embrionárias humanas criadas depois de 9 de agosto de 2001, de forma que qualquer célula criada pelo consórcio não poderia ser utilizada neste país, exceto por cientistas que trabalhem para laboratórios custeados pela iniciativa privada. O consórcio não determinou o preço que cobrará pelos seus serviços, segundo o artigo publicado no "New England Journal of Technology".

Segundo a programação, o primeiro-ministro coreano deverá discursar durante o evento para o anúncio do programa. Danilo Fonseca

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