Discórdia sobre casamento gay demite organista e cantor

Maria Cramer

Do púlpito da Igreja de São Gabriel em Brighton, Massachusetts, um membro da Arquidiocese Católica de Boston explicava aos paroquianos como assinar uma petição para proibir o casamento de mesmo sexo em Massachusetts.

Patrick Kilduff, organista da igreja durante 28 anos, foi ficando cada vez mais irritado que a arquidiocese usasse a missa de sábado para fazer o que considerava uma declaração política.

Então, antes de tocar o último hino da missa no dia 8 de outubro, Kilduff foi embora como protesto. A cantora da igreja, Colleen Bryant, disse diante de toda a congregação que quem não quisesse não precisava assinar a petição.

Momentos mais tarde, naquele sábado chuvoso, o pastor da igreja demitiu Bryant. Kilduff, furioso, largou o emprego.

"Chega. Não acredito nisso que vocês fizeram", Kilduff lembrou-se de ter dito aos padres, em uma entrevista na quarta-feira (26/10).

A partida dos dois ocorreu no momento em que a arquidiocese enfrenta críticas crescentes dos leigos e líderes religiosos por sua decisão de remover um padre popular de Newton de sua paróquia.

A arquidiocese alega que a retirada do reverendo Walter H. Cuenin da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda foi por má-conduta financeira, mas muitos católicos temem que a arquidiocese esteja lentamente tirando do ministério público os padres que discordam de seus ensinamentos.

Cuenin defendia abertamente que a igreja Católica aceitasse gays e lésbicas.

Para alguns críticos essas preocupações foram exacerbadas quando, no dia 2 de outubro, com o apoio dos quatro bispos do Estado, ativistas disseram que estavam prestes a coletar as 65.825 assinaturas necessárias para incluir uma emenda constitucional na cédula de 2008, que proibiria o casamento de pessoas do mesmo sexo em Massachusetts.

No final de semana seguinte, as petições apareceram nas mesas atrás igreja de São Gabriel. A princípio, Kilduff tentou ignorar as pilhas de papel. Mas quando o membro da arquidiocese falou à congregação do altar, ele ficou revoltado.

"Nunca fizemos anúncios políticos de qualquer espécie", disse Kilduff. "Isso nunca foi levantado em minha igreja... Fale disso nas escolas, na paróquia, mas não na missa."

O pastor, reverendo Justinian Manning, não atendeu os telefonemas para que comentasse o assunto. Terrence C. Donilon, porta-voz do arcebispo Sean P. O' Malley, disse que o pastor fez a decisão certa.

"As pessoas têm direito a suas opiniões", disse Donilon. "Respeitamos a opinião de todos. Simplesmente não era o lugar apropriado para isso. Tampouco era a hora apropriada."

Donilon também defendeu o uso da missa para promover a petição.

"Qualquer lugar e hora é razoável para o padre promover essas questões que são centrais para a missão da igreja", disse ele.

Mas Kilduff e Bryant disseram que as petições e a demissão de Bryant indicam que os dirigentes da arquidiocese estão impondo sua doutrina aos fiéis.

"Aparentemente, quem questiona é expulso, cortado", disse Bryant, 28.

Kilduff, 41, toca órgão na igreja desde os 13. Há 23 anos, a igreja ofereceu-lhe a vaga de diretor musical. Durante a semana, ele trabalha como especialista em computação.

Nos finais de semana, passava horas na igreja, preparando e tocando as seleções musicais para as três missas. O emprego de meio período lhe rendia cerca de US$ 200 (R$ 460) por semana.

Bryant, que fez mestrado em canto no Conservatório de New England, fora contratada há cerca de seis anos e ganhava o mesmo salário.

"Era uma coisa constante na minha vida", disse ela. "Todo final de semana eu estava lá."

A missa do dia 8 de outubro, entretanto, foi sua última na paróquia.

Kilduff aproximou-se de Bryant, disse a ela que não ia tocar a última música e saiu.

Bryant, que sempre anuncia o hino final, pegou o microfone. Defensora do casamento de mesmo sexo, decidiu expressar seu descontentamento.

"Eu disse que, de forma alguma, as pessoas deveriam se sentir obrigadas a assinar a petição, especialmente quem, como eu, acreditasse que a política não deveria ser assunto daquela casa de adoração", disse ela.

Depois ela cantou dois versos de "Now Thank We All Our God" sem acompanhamento, pegou suas coisas e partiu. Na saída, uma senhora elogiou seus comentários, disse ela.

Cerca de 15 minutos depois, Bryant recebeu uma ligação de Manning, que não estava na missa. Ele tinha ouvido falar de seus comentários pelo padre e estava muito zangado, disse Bryant.

Ele perguntou a ela se planejava fazer declarações similares na missa de domingo. Ela não respondeu.

"Ele disse: 'Bem, então não quero que você volte a cantar'", contou Bryant.

Quando Bryant contou a Kilduff o que havia acontecido, ele foi imediatamente à paróquia, devolveu as chaves da igreja e anunciou sua demissão. Desde então, eles não voltaram lá.

"Fico muito triste", disse Bryant. "É difícil ter dedicado tanto tempo e energia a um lugar. Para mim, não era apenas um emprego; sinto-me mal de ter sido abandonado, completamente cortado."

Donilon disse que a igreja, que recebe cerca de 900 pessoas por final de semana, está procurando novo organista e cantor.

As missas, enquanto isso, têm sido definitivamente mais tristes desde que os dois saíram, disse um dos fiéis, Dick Marques, 68, que assinou a petição.

"Acho pena não termos um organista", disse Marques. "Os cantos eram lindos."
Deborah Weinberg

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