Violência diminui na França

Colin Nickerson
em Paris

A onda de incêndios, saques e confrontos violentos nas ruas entre vândalos e policiais pareceu se acalmar na quarta-feira (09/11), em meio ao tempo chuvoso e frio. Na terça-feira o governo adotara um "estado de emergência".

Em declaração que deve gerar controvérsias entre grupos imigrantes, o ministro do interior, Nicolas Sarkozy, pediu a deportação dos estrangeiros condenados por tomar parte na onda extraordinária de violência que chocou a Europa, e que colocou as políticas de integração da França sob os holofotes.

Quase todos os participantes dos motins são muçulmanos de origem árabe ou africana, disseram as autoridades. Alguns usam o linguajar militante islâmico, mas a polícia diz que a rebelião em centenas de cidades foi fomentada na maior parte por brigões das ruas, gangues criminosas e jovens desempregados, não por grupos radicais muçulmanos organizados. Políticos e a imprensa, porém, sugerem que os ativistas radicais islâmicos estão silenciosamente atiçando os revoltosos.

Apesar do caos civil que alguns chamaram de "intifada francesa" continuar, os incidentes de incêndio e destruição de lojas e instalações do governo caíram dramaticamente pela primeira vez desde o início do movimento há duas semanas, disseram as autoridades.

Do pôr-do-sol de terça-feira até a madrugada de quarta, foram incendiados 617 veículos e 116 cidades. Nas noites anteriores, mais de 1.300 veículos haviam sido carbonizados.

O decreto de emergência baseou-se em uma lei de 50 anos criada para reprimir a desordem durante a guerra colonial da França na Argélia. Ele conferiu maiores poderes de prisão aos policiais e a possibilidade de imposição de toque de recolher em algumas áreas, além do fechamento de estabelecimentos onde os jovens se reuniam.

O estado de emergência se aplicava a Paris, seus subúrbios revoltados e outras 30 cidades do Canal da Mancha até o Mar Mediterrâneo.

Paris, no entanto, preferiu não instaurar o toque de recolher. As atrações turísticas da cidade e a vida nas ruas permaneceram agitadas. Os turistas pareciam alheios aos problemas. Os EUA e outros países emitiram advertências exortando cuidado em áreas de grande perigo, mas não chegaram a aconselhar que as pessoas a não viajassem para a França.

"Assistimos a CNN no hotel, mas não parece real. Exceto que, vindo do aeroporto, vimos fumaça e carros da polícia", disse Michael Goldstein de Scarsdale, N.Y., na quarta-feira, enquanto tirava fotografias de sua mulher alimentando os pombos na Catedral de Notre Dame.

A cidade mediterrânea de Nice, na Riviera Francesa, impôs um toque de recolher para menores e autorizou amplas batidas policiais na quarta-feira para desmembrar gangues.

Uma pesquisa publicada na quarta-feira pelo jornal Le Parisien sugeriu que 73% dos franceses aprovam a repressão do governo. No entanto, outros jornais criticaram o primeiro-ministro Dominique de Villepin por invocar uma lei de emergência associada à era colonial.

"O primeiro-ministro parece estar perdendo a calma", declarou o Le Monde em um editorial extraordinariamente duro, afirmando que o líder "não tem os nervos necessários a um estadista".

Apesar do declínio nos incidentes, a inquietação permaneceu. Incendiários destruíram uma mega-loja de eletrônicos na cidade de Arras, no Norte e um depósito de jornal em Grasse. Um mecanismo incendiário foi detonado em um trem de metrô vazio em Lyon, forçando o fechamento temporário do sistema de trânsito da cidade, de acordo com informes policiais. Ninguém se feriu.

A violência eclodiu no dia 27 de outubro, depois que dois jovens em Clichy-sous-Bois, comunidade formada por projetos de habitação do governo que apresenta alto desemprego ao norte de Paris, foram eletrocutados enquanto se escondiam da polícia em uma subestação de energia elétrica.

Logo os distúrbios se espalharam para centenas de "banlieus" -palavra para "subúrbios" que freqüentemente é usada para conotar bairros de imigrantes pobres que cercam cidades francesas- em quase toda região do país.

As autoridades disseram que tinham detido mais de 1.830 suspeitos nos últimos 13 dias, apesar de muitos terem sido liberados por falta de provas.

"As prisões estão dando resultados; houve queda significativa. Mas precisamos perseverar", disse o porta-voz do Ministério do Interior, Franck Louvrier.

Sarkozy, ministro do interior, que alguns culpam por inflamar a crise referindo-se aos vândalos no início como "corja", disse na quarta-feira que o governo devia deportar os estrangeiros envolvidos nos distúrbios, mesmo os residentes legais no país.

"Pedi aos prefeitos para expulsarem os estrangeiros que forem condenados -tendo ou não documentos de residência- sem demora", disse ele em uma sessão na Assembléia Nacional, a câmara baixa do parlamento. Deborah Weinberg

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