Quando os filmes ambicionam mais, a platéia deve exigir mais

Ty Burr

"Prove que é um bom filme".

Aparentemente eu sussurrei essas palavras quando as luzes se apagaram para a exibição de "Munique" ("Munich", EUA, 2005), algumas semanas atrás. Embora eu não consiga me lembrar de ter dito tal coisa, um amigo me garantiu mais tarde que o fato aconteceu. Ele encarou o ocorrido como um episódio de rigor crítico - a frase que todo cinéfilo pensante deveria pronunciar (embora em silêncio) quando o título do filme surge na tela.

Mas é mais provável que o fato tenha a ver simplesmente com a exaustão.
Dezembro é a marcha da morte para os críticos de cinema, já que neste mês
todos os concorrentes sérios ao Oscar são exibidos durante duas semanas, em uma média de três filmes ao dia. A idéia é fazer com que os críticos
assistam aos filmes "importantes" antes de escreverem a sua lista dos Dez
Melhores de final de ano. Mas o efeito é a segregação das ambições
hollywoodianas em um surto impactante de qualidade. Nós tomamos notas.
Discutimos entre nós. Mas não há como "Syriana" (EUA, 2005), "A Condessa
Branca" ("The White Countess", Reino Unido/EUA/Alemanha/China, 2005) e "The New World" ("O Novo Mundo", EUA, 2006) se beneficiarem ao serem vistos em uma maratona de sete horas, como aquela que eu enfrentei em 6 de dezembro.

Por outro lado, talvez o meu amigo tenha uma certa razão. Todos os que
assistem a "Munique" sabem que o filme é uma tentativa de Steven Spielberg de enfrentar uma fera de várias cabeças: Israel e as questões relacionadas de Estado, terrorismo, vingança e correção moral. Tudo isso vindo do homem que nos deu no ano passado um bom filme sobre uma invasão alienígena.

O fato de Spielberg e "Munique" terem me provado que são bons foi uma
surpresa. 2005 foi um ano no qual muita gente sentiu que os filmes
comerciais atingiram um novo patamar de ambição, tendo se voltado para temas de importância política e insatisfações culturais. Filmes como "O Jardineiro Fiel" ("The Constant Gardener", EUA, 2005), "Soldado Anônimo" ("Jarhead", EUA, 2005), "O Senhor das Armas" ("Lord of War", EUA, 2005) e "Syriana" abordam as conseqüências do envolvimento do Ocidente na África e no Oriente Médio. "Good Night, and Good Luck" (EUA, 2005) e "Capote" (EUA, 2005) examinam a consciência e a falibilidade da reportagem. "Crash - No Limite" ("Crash", EUA, 2005), "Junebug" (EUA, 2005) e "Ritmo de um Sonho" ("Hustle & Flow", EUA, 2005) lançam luz sobre as insatisfações das pessoas comuns que desejam somente interagir com outros indivíduos.

Vários desses filmes foram extremamente bem recebidos, ao que parece, por
todo mundo, com a exceção deste crítico. Ou, em outras palavras, esses
filmes não provaram nada para mim. Onde vários críticos e expectadores
enxergaram em "O Jardineiro Fiel" um drama corajoso e fotograficamente belo sobre a malevolência corporativa na África, eu vi um suspense passável, com uma atuação muito boa de Ralph Fiennes - um filme que abusou de cansativos clichês do gênero, tais como cartas incriminadoras (duas!), misturou-os a uma questão que é motivo genuíno de preocupação social, e filmou tudo com o máximo de arsenal cinematográfico.

Será que eu teria gostado mais do "Jardineiro" caso ele tivesse sido um
documentário, como o excelente e pouco visto "Darwin's Nightmare" (Áustria, 2004)? Ou se fosse um filme sobre a África que mostrasse africanos de verdade? Ou simplesmente se o trabalho fosse mais original? Esses são os tipos de questão com os quais os críticos geralmente se deparam. Talvez seja possível que assistamos a tantos filmes a ponto de nos tornamos incapazes de apreciar qualquer um deles.

Alguns leitores responderam à minha crítica sem entusiasmo ao "Jardineiro" com e-mails, argumentando que deveríamos nos sentir gratos pelo fato de um filme comercial com astros de Hollywood e abordando os problemas do Terceiro Mundo ter sido feito (certamente eles não viram Angelina Jolie em "Beyond Borders"). É uma boa observação. Só que esta não é a tarefa dos críticos. O nosso trabalho é avaliar cada filme, usando como referência o filme que ele se propôs a ser. Se "Penetras Bons de Bico" ("Wedding Crashers", EUA, 2005) se propõe a ser uma comédia engraçadíssima, temos que decidir se ele conseguiu o não o seu intento (chegou perto). Se "A Lula e a Baleia" ("The Squid and the Whale", EUA, 2005) espera criar uma ressonante miniatura de disfunção familiar, ou se "A Luta pela Esperança" ("Cinderella Man", EUA, 2005) quer ser uma inspiradora fábula trivial sobre uma família funcional, isso que dizer que conseguiram? (Sim, ambos conseguiram) E se "Syriana" tenta educar as platéias norte-americanas sobre as complexidades e cumplicidades morais do setor petrolífero, será que foi esse realmente o resultado obtido? (Certamente, mas é necessário que o público faça um certo esforço).

Ou então peguemos "Crash - No Limite", o melodrama de vários personagens,
dirigido por Paul Haggis, que segundo certas pessoas é o filme mais
importante do ano. Ele certamente deseja ser. Haggis, um roteirista que se transformou em diretor, procura pegar todas as vertentes da violência
urbana, classe social e falta de conexão entre os seres humanos e jogar essa mistura na tela, de forma que possamos vê-la. Para certas platéias essa declaração urgente de objetivo é suficiente para atraí-las.

Mas para qualquer um que tenha que assistir a filmes para sobreviver - e que aprendeu a tomar cuidado com cineastas que apelam para esse tipo de tese social -, "Crash" não atinge o seu objetivo. A verdade nos filmes surge com freqüência de momentos menores e singelos: os olhares gradualmente sombrios entre pais e filhoss em "A Lula e a Baleia", o jornaleiro que aguarda a última edição do jornal em "Good Night, and Good Luck", os israelenses e os palestinos discutindo sobre que estação de rádio ouvir, em "Munique". A cada segundo Michelle Willians aparece na tela em "Brokeback Mountain" (EUA, 2005). Os momentos que eu aprendi a apreciar são aqueles que não imploram para provar que o filme é bom, mas que revelam silenciosamente as ironias da vida em andamento.

Contradizendo aqueles que afirmam que os filmes ambiciosos devem ter um
passe livre, passei a acreditar que deve-se exigir muito deles. Não posso
argumentar que "O Virgem de 40 Anos" ("The 40-Year-Old Virgin", EUA, 2005) seja uma experiência cinematográfica mais culturalmente necessária que, digamos, "Soldado Anônimo", mas posso afirmar que "Virgem" é melhor como comédia pastelão do que "Jarhead" como filme de guerra que leva à reflexão, em parte porque ele não almeja a tanto. E posso observar que aquilo que tendemos a aclamar enganosamente como "entretenimento" muitas vezes oculta comentários sociais subversivos. Apesar de toda o seu caráter farsesco, "Virgem" se constitui em uma argumentação surpreendentemente sólida em favor da espera pelo casamento para que se faça sexo.

Mesmo assim, as dúvidas ainda persistem. Talvez seja injusto assistir a "O Jardineiro Fiel" e observar o que o filme tem de errado, em vez de tentar se concentra naquilo que ele possui de bom. Eu perdoei "Munique" pelos seus lapsos de ato final, porque, até então, o filme examina nuances diabólicas da moralidade. Ao final, é necessário que se faça uma barganha silenciosa com qualquer obra de arte, a respeito do que aceitar e o que rejeitar, e tal barganha tem que se sempre pessoal.

É claro que isso só tem importância para quem acredita que a arte - ou mesmo o entretenimento bem produzido - é capaz de muar a forma como as pessoas vêem o mundo. Em 2006 haverá filmes que irão além desses limites, e com um pouco de sorte, não suplicarão para mostrar que são bons. Mas talvez nós nem sempre devêssemos exigir que eles não fizessem tal coisa. Danilo Fonseca

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