Conflito no Sudão eliminou um modo de vida, conclui relatório

John Donnelly
Em Johanesburgo, África do Sul

O conflito de quase três anos na região de Darfur, no oeste do Sudão, que matou pelo menos 200 mil pessoas, também extinguiu o modo de vida de cerca de 2 milhões de pessoas, segundo um novo relatório dos Médicos pelos Direitos Humanos.

Em um dos estudos mais detalhados sobre o conflito de Darfur, pesquisadores do grupo baseado em Boston examinaram o destino de três aldeias, entrevistando dezenas de sobreviventes e coletando centenas de fotografias e mapas desenhados a mão. Eles concluíram que o governo do Sudão e a milícia árabe pró-governo destruíram sistematicamente o meio de vida dos moradores.

O relatório, divulgado nesta quarta-feira (11/01), afirma que ao fazê-lo os atacantes cometeram uma forma de genocídio pouco discutida. Uma cláusula da Convenção sobre Genocídio da ONU define o crime de genocídio como um grupo infligir a outro grupo "condições de vida calculadas para provocar sua destruição física total ou parcial".

"Não apenas os atacantes destruíram o meio de vida dessas pessoas como elas foram conduzidas para essa armadilha fatal no deserto, onde é virtualmente impossível sobreviver a menos que se receba assistência externa", disse John Heffernan, um investigador da Médicos pelos Direitos Humanos e autor do relatório, em entrevista por telefone de Washington na terça-feira. "Além disso, o governo do Sudão vem bloqueando a ajuda às pessoas."

Heffernan lembrou vividamente uma viagem ao leste do Chade ao longo da fronteira sudanesa, em que ele e uma colega, a doutora Jennifer Leaning, co-diretora da Iniciativa Humanitária da Universidade de Harvard, encontraram cerca de 20 mil refugiados de Darfur.

"Era quase bíblico em termos de catástrofe", ele disse. "Havia 18 mil ou 20 mil pessoas amontoadas embaixo de árvores minúsculas, tentando obter algum abrigo do sol e do vento. E havia montes de carcaças de animais sendo queimadas. ... Essas pessoas não tinham acesso a tratamento de saúde, água ou alimentos, e em conseqüência disso muitas morreram."

Em três viagens à região entre maio de 2004 e julho passado, os pesquisadores do grupo entrevistaram os sobreviventes das aldeias de Furawiya, Bendisi e Terbeba, que eram distantes entre si e foram atacadas em épocas diferentes.

Mas os pesquisadores descobriram que os ataques seguiram padrões semelhantes: investidas de manhã cedo por homens armados chamados Janjaweed, a cavalo ou em caminhonetes, que eram apoiados pela aviação militar do Sudão. Os atacantes mataram e estupraram dezenas de pessoas nas aldeias e depois queimaram oficinas e casas, roubaram o gado e envenenaram os poços, segundo relatos de testemunhas.

Os moradores, que fugiram para o ambiente desolado, nunca mais viram seus milhares de camelos, bois, burros, carneiros e cabras, nem virtualmente qualquer de suas posses pessoais.

Antes dos ataques, o tamanho médio de uma família nas três aldeias era de 12,1 pessoas; depois, a família média encolheu para 6,7 pessoas. Os entrevistados pertenciam a famílias que, combinadas, somavam 558 pessoas. Dessas, 141 foram confirmadas mortas e outras 110 estavam mortas ou desaparecidas, disse o relatório.

O conflito de Darfur começou no início de 2003, quando um grupo rebelde passou a atacar alvos do governo, dizendo que este há muito tempo abandonara a região de Darfur. O governo reagiu armando "milícias de autodefesa", mas nega que apóie os Janjaweed.

Depois de meses de forte pressão internacional para conter a violência, o governo do presidente Omar al-Bashir prometeu desarmar os Janjaweed. Mas mais de um ano depois as forças de paz da União Africana estacionadas em Darfur disseram que quase não viram o desarmamento das milícias.

A ONU pediu que uma Comissão de Indenização procure maneiras de ajudar as cerca de 2 milhões de pessoas deslocadas que vivem em acampamentos. O relatório dos Médicos pelos Direitos Humanos recomendou que se iniciem negociações com o governo do Sudão para reservar lucros do rentável setor petroleiro do país para indenizar e reabilitar as vítimas da violência em Darfur.

O relatório também pediu a estabilização dessa região volátil, onde as tensões cresceram recentemente por causa de choques violentos perto da fronteira do Chade entre tropas desse país e rebeldes que, segundo o governo, são apoiados pelo Sudão.

Entre as recomendações do relatório estão: enviar uma força multinacional para suplementar os 7 mil soldados da União Africana em Darfur; reforçar a autoridade das forças internacionais para proteger melhor os civis; e que o governo do Sudão e os rebeldes cessem os ataques contra civis. Milícia árabe cometeu uma forma de genocídio pouco discutida. Uma cláusula da Convenção sobre Genocídio da ONU define o crime de genocídio como um grupo infligir a outro grupo "condições de vida calculadas para provocar sua destruição física total ou parcial" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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