Adolescentes de Boston narram seu dia-a-dia, dominado pela violência das ruas

Irene Sege
Em Boston

Elijah Williams, de calças largas e cabelo trançado, parece natural quando entra no ônibus do MBTA no bairro de Boston Fields Corner, em direção ao seu trabalho, no Centro Comunitário de Bird Street. Ele sobe os degraus da frente do ônibus e se senta em um assento no corredor. Ele dá as costas para uma janela vazia ao seu lado, planta os pés na beira do corredor e continua conversando com um colega sentado no banco a sua frente.

Dominic Chavez/The Boston Globe 
Sempre que pega o ônibus, Elijah Williams, 18, pensa numa estratégia de fuga caso a condução seja atacada
Ainda assim, nada sobre onde ou como Williams, de 18 anos, se senta é tão casual quanto parece. Williams está pensando na segurança. Ele e seu amigo conversam sobre os assassinatos do final de semana, e duas mulheres do ônibus estão usando broches de "Dion Taylor/Stop Killing" (Dion Taylor/Pare a Matança).

Ele está em posição para empurrar um agressor pelas escadas e depois escapar pela porta de trás. Toda vez que algum jovem sobe no ônibus, Williams estuda-o com um rápido olhar. Toda vez que o ônibus passa por grupo de rapazes em uma esquina, Williams lança o mesmo olhar avaliador sutil. Ele se sentiria menos vulnerável se estivesse em um ônibus velho, com janelas altas e pequenas, em vez do novo, de vidros amplos.

"Assim que subo no ônibus, penso em uma estratégia para escapar", disse Williams. "As janelonas. Se houver um tiroteio, qualquer inocente pode se ferir. Qualquer um pode entrar e atirar dentro do ônibus. Não dá para se esconder."

Assim começa uma tarde típica de Williams, vice-presidente de turma na Academia de Carreira em Negócios e Serviços de Brook Farm, no Complexo Educacional de West Roxbury, jogador de futebol e membro do conselho jovem de Bird Street.

Como outros adolescentes que convergem para o centro de Bird Street todo após a escola, ele trafega pela cidade confrontando um número crescente de assassinatos cujas vítimas em geral são jovens negros do sexo masculino.

De fato, poucos adolescentes de Bird Street estão alheios à violência entre jovens que a comissária de polícia Kathleen O'Toole chamou de "maior desafio" de seu departamento. Dos 28 jovens entre 16 e 21 anos assassinados em Boston no ano passado, um deles, Brandon Summers, jogava basquete no ginásio de Bird Street e outros 17 tinham amigos, parentes, colegas ou vizinhos no centro.

Larry Singleton, de 16 anos, pregou três fotografias de Yorki Lipscomb, morto em 2 de abril, e uma de Taylor, morto em 29 de novembro, na parede de seu quarto.

"Algumas vezes, você fica deprimido de olhar os retratos", disse Singleton. "Aí você espera que nunca aconteça com você. E porque tinha que acontecer com eles? Nenhum deles tinha mais de 18."

União

Bird Street ocupa os dois últimos andares de um prédio de tijolos de 100 anos, que também abriga a Biblioteca e o Centro de Saúde de Uphams Corner. Com programas de desenvolvimento juvenil e cuidado infantil, o centro atende 650 menores por ano, 500 deles adolescentes.

Todas as tardes, há cerca de 130 adolescentes no centro --jogando basquete, fazendo dever de casa, nos grupos de meninas ou meninos ou no centro do adolescente, equipado com mesa de bilhar e futebol de mesa. Dezoito jovens recebem bolsas de assistentes e 18 participam do conselho de jovens, que está ajudando a planejar uma reunião de jovens e organizando atividades comunitárias.

Mesmo quando estão de folga de suas tarefas como mediador e ajudante de dever de casa, Aaron Dykes e Nathan Simms gostam de ficar no centro. Simms, 18 e Dykes, da Boston Latin School, se esticam nas cadeiras. Simms quer ser advogado, e Dykes, que pintou pegadas em sua camisa e estrelas em suas calças, quer ser estilista de moda. Eles decididamente têm opiniões divergentes sobre a violência em seus bairros.

"Eu, pessoalmente, sinto que cada vez que ando pela rua há uma possibilidade de ser atacado, esfaqueado ou morto. Sou muito cuidadoso", disse Simms. "Sigo andando. Vou direto para onde tenho que ir. Não gosto de ficar na rua, porque não tem muita coisa boa lá fora. Não me sinto confortável na maior parte do tempo, porque moro em Roxbury."

Simms toma cuidado para não fazer contato visual. "Se passo por um grupo de caras na rua, olho uma vez. Talvez reconheça alguém", diz ele. "Se você olhar rápido não pode fazer cara feia. Se você não olha, parece que está com medo." Ele disse que tenta ficar longe do território problemático. "Eu não represento nenhuma área", diz ele. "Se alguém me pergunta de onde sou, digo: 'lugar nenhum'." Ele não gosta de ser confundido com os outros. "Eles perguntam: 'E aí cara? Depois olham de novo", diz ele. "Se as pessoas acham que sou amigo, podem pensar que sou inimigo."

Dykes tem menos medo.

"Minha mãe quer que eu esconda minha corrente, que vista roupas menos chamativas", diz Dykes. "Não tenho medo. Minha mãe vê as notícias e pensa: 'Isso poderia ter acontecido com o meu bebê.' Mas eu estou lá fora, e não parece tão ruim."

Certo dia, estava no carro com sua mãe: "Minha mãe disse: 'feche as janelas. Tem dois negros'", diz ele. "Ela disse que teria medo de mim se não fosse seu filho."

Lidando com limites

O ginásio no piso superior de Bird Street pulsa com as batidas da bola de basquete e o cheiro de suor que fica no ar da sala que recebe 200 jovens jogadores a cada semana. Há planos para pintar um mural em memória dos jovens assassinados pelas violências das ruas.

Julio Gamboa, 16, trabalha na equipe do centro. Ele pega um rebote e corre com a bola pela quadra. Desde que foi preso, depois de uma briga em novembro, sua mãe quer que ele chegue ao centro às 15h. "Eu voltaria atrás e mudaria tudo", diz Gamboa.

"Fui levado. Rapazes de bairros diferentes começam a confusão. Você tenta não perder a cabeça, mas não vai se rebaixar por nada. As pessoas julgam onde você pode ir por onde você mora", diz ele. "Se você tiver um drama com uma pessoa na rua, basicamente você tem um drama com todo mundo dali."

Então ele passa as tardes aqui, em vez de na esquina. "Se sinto falta? Sim, não estou matando tempo com meus amigos", diz ele. "Só penso no que vai acontecer se eu sair." Se tem medo? "O tempo todo. Qualquer coisa pode acontecer quando você está lá fora. Alguém pode sacar uma arma, por exemplo", diz ele. "Se eu fizer as decisões erradas, posso voltar para a prisão ou levar um tiro."

Cansada, mas alerta

Algumas vezes, Stephani Pires, 16, sente como se morasse em dois bairros: Roxbury de dia, que ela adora --"Como quando as crianças estão lá fora jogando bola e quando correm atrás do caminhão de sorvete"-- e Roxbury da noite, onde os tiros atingem sua casa.

"Quando acordo de manhã, detesto quando meus pais brigam sobre quem matou quem", diz ela. No início do verão, um vizinho, Esmael Canuto, foi assassinado.

"Nem consigo ficar mais no portão de casa", diz Pires. "Estou cansada. Estou cansada de fugir dos tiros."

Na academia, Pires marca os pontos do jogo, enquanto Terrell Baker e Williams são juizes. Baker, que tem 19 anos, diz que já viu pessoas puxarem armas, serem esfaqueadas e mortas. "Fiquei com medo", diz ele. Primos de Williams foram esfaqueados, surrados ou levaram tiros. "Todos os lugares rotulados de ruins são onde mora minha família", diz ele.

Kiara Woodson-Wynn, 13, passa seu tempo livre em Bird Street, onde sua mãe é diretora atlética. Às vezes fica ensaiando na Escola Runkle, em Brookline. Ela não tem permissão para andar de trem ou de ônibus sem um adulto. Há poucos lugares em seu bairro de Roxbury onde pode ir sozinha.

"Muitas coisas podem acontecer onde eu moro. Você não quer se acostumar com isso, mas acostuma", disse Woodson-Wynn.

"Em Brookline você pode andar livremente. Você tem que estar alerta, mas não como em Boston", diz ela. "Eu quero mudar para Brookline, mas aí vou sentir falta dos meus amigos em Boston. Minha tia mora na minha rua. Minha bisavó mora no primeiro andar da nossa casa. No segundo andar está minha avó e meu avô. A família está tão próxima. Eu tenho uma amiga desde os cinco anos em Copeland Street. Nós somos muito unidas."

Ela também era próxima de Yorki Lipscomb, que jogava basquete para sua mãe. Desde menina, ele era como um irmão mais velho que implicava com ela afetuosamente. Agora está morto, assassinado aos 18 anos, poucos meses antes de sua filha nascer.

"Penso muito nele. Muito. Todo dia", diz ela. "Tento não pensar nas coisas tristes, porque vou chorar, e as pessoas vão dizer: 'Por que você está chorando por nada?' então penso nas coisas boas. Como em nossas brincadeiras diárias."

Tomando medidas

Enquanto dezenas de adolescentes e jovens trabalhadores entram no Salão Nobre de Grove Hall para um fórum sobre violência, Elijah Williams encontra amigos do Projeto Ecológico de Roxbury. Seu interesse em conhecer pessoas na cidade não é apenas social. "É uma questão de segurança", diz ele. "Se você estiver no bairro de outro, não vai ser atacado."

De volta em Bird Street, Williams trabalha no comitê jovem que organiza uma reunião do movimento jovem sobre a violência em junho.

"Como posso ter orgulho de onde eu moro se as pessoas estão roubando seus amigos? Quero que o bairro seja apresentável para que, quando eu for a algum lugar e perguntarem de onde eu sou, eu possa dizer orgulhosamente "Sou de Dorchester, Massachusetts", diz Williams.

"Estou cansado de ter que ficar o olhando para trás toda vez que desço uma rua. Estou cansado de manter meu CD no mínimo para poder ouvir as coisas. Dava para entender seu eu tivesse feito alguma coisa para ter que ficar vigilante, mas assim não. Se alguém andar atrás de mim, ouço as passadas. Posso saber se estão justo atrás de mim ou a alguns passos. Tenho que olhar constantemente para trás para ver quem é", diz ele.

"A violência está fugindo ao controle. Quero perguntar a alguém no poder: 'Como isso pode acontecer?'" "Estou cansado de andar com medo" é o pensamento comum deles Deborah Weinberg

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