Para certos homens, morar com os pais não é motivo de vergonha

Johnny Diaz

Peter Lopes não se importa em telefonar para os pais quando pretende ficar fora de casa até tarde. E não liga para o fato de ter que dormir no seu sofá caso a namorada queira passar a noite na casa dele (ela dorme na sua cama de casal de Lopes, onde fica a sua bola de futebol gigante feita com retalhos). E não dá importância ao fato de ser alvo de gozações por morar com os pais aos 32 anos de idade.

"Ocasionalmente, sou alvo de um sorriso ou de uma piada", diz Lopes, que é caixa de um banco em Fall River, e que nasceu em Portugal, onde é comum que homens adultos morem com os pais. Ele diz que pretende "ficar no ninho" até se casar. "Pessoalmente, não vejo nada de errado nisso. Muita gente me estigmatizaria, e me chamaria de derrotado. Mas, para mim, trata-se de uma experiência que me será útil no futuro".

Vários adultos jovens aprenderam que subir na vida significa às vezes
permanecer mais tempo na casa dos pais. Embora algumas mulheres morem com os pais, a prática é mais comum entre os homens, e, quando o fazem, as mulheres não são tão ridicularizadas quanto os homens. Por algum motivo, morar na casa dos pais implica em um estigma social mais pesado para os homens, especialmente se eles nunca moraram sozinhos.

Mas muitos homens dizem que não há problema algum em morar com o pai e a
mãe, apesar dos olhares e comentários dos quais podem ser alvos em bares e festas. Esta atitude é especialmente comum entre os homens de famílias
latinas, européias e caribenhas, tanto nos Estados Unidos quanto no
exterior. Algumas famílias norte-americanas colocam os filhos para fora de casa aos 18 ou 21 anos, mas nas outras culturas citadas, os filhos são encorajados a morar com os pais até que se casem.

"Eu costumo dar risadas ao dizer que moro com meus pais - por ora", diz Manuel Bueno, 26, que mora com os pais em Peabody. "O meu plano é poupar dinheiro para ser capaz de me mudar em determinado momento. Me acomodei nesta posição. Os anos passaram rapidamente, e eu ainda estou aqui".

Os solteiros moram com os pais porque poupam dinheiro, comem refeições
caseiras, e têm a roupa lavada de graça. Eles às vezes têm que fazer planos com antecipação para que as paqueras ou namoradas possam dormir em seus quartos. Mas também apreciam o calor e o amor de suas famílias.

Os italianos têm uma palavra para descrever esses caras: "mammoni", ou
"garotos da mamãe". Na Alemanha, eles são conhecidos como "nesthockers". Nos Estados Unidos, chamam-nos de "adultescents".

Eles se constituem em um grupo em crescimento no país. Em 2000, 12,9% dos homens de 25 a 34 anos de idade moravam com os pais, contra 10,5% em 1980. No que se refere às mulheres, estes números eram, respectivamente, de 8,3% e 7% (na Itália, um terço dos homens entre 30 e 34 anos ainda moravam com os seus padres e madres, segundo um estudo feito pelo governo italiano em 2005).

O número de rapazes solteiros que moram com os pais cresce à medida que os preços dos imóveis e as mensalidades das faculdades prolongam a necessidade dos adultos de contarem com a rede de segurança proporcionada pela casa dos pais. Tal estilo de vida se tornou tão comum que serve de tema para uma nova comédia romântica na televisão. "Vai ser necessária uma banana de dinamite para me tirar de casa", declara Tripp, o personagem interpretado por Matthew McConaughey em "Failure to Launch", que estreou na sexta-feira (10/03). O filme gira em torno de um preguiçoso de 35 anos que mora com os pais. Estes querem que o filho se mude. Na comédia da Fox, "Free Ride", que estreou em 1º de março, um jovem recém-formado de pouco mais de 20 anos se muda de volta para a casa dos pais em Missouri, enquanto pensa no que fazer a respeito da vida.

Os autores dos textos de "Failure to Launch" descobriram esta tendência há dois anos no seu próprio bairro em Sherman Oaks, Califórnia. "No meu bairro havia quatro ou cinco jovens adultos morando com os pais", conta Matt Ember, que foi co-autor do roteiro com Tom Astle. "Sentimos ter descoberto algo. Queríamos uma produção que falasse de uma tendência atual".

Eles acrescentaram o seu próprio traço cômico à situação adultescente. "E se alguém conseguir um emprego como consultor para determinar como tirar essas pessoas das casas dos pais?", diz Ember, que é formado pela Universidade Wesleyana. No programa, os pais de Tripp contratam uma mulher, interpretada por Sarah Jessica Parker, para atrair o seu filho solteiro de forma que este se mude e siga a sua vida.

Tripp tem um motivo para morar na casa dos pais (não vamos contar, para não estragar a surpresa), e outros homens têm vários outros motivos. Alguns ficam em casa para conseguirem apoio financeiro até que consigam uma situação econômica mais estável. Outros para ajudar os pais idosos. Para muitos, isto é algo que faz parte de suas culturas.

"Sou um italiano da escola muito antiga", afirma Anthony Siniscalco, 25. No seu quarto em Dedham há um modelo de Ferrari Enzo vermelha de 24 centímetros e os seus violões. Uma estatueta da Virgem Maria segurando o bebê Jesus está colocada sobre a sua cama de casal.

"Fico com a minha família e a ajudo", diz Siniscalco. Ele nasceu e foi
criado em Dedham, rodeado pela sua grande família composta de tios, tias, primos e irmãos. Os primos e a irmã mais velha moraram nas casas dos pais
até se casarem.

Aspirante a ator, ele apareceu recentemente no reality show "Cowboy U". Ele também está fazendo um curso para ser cabeleireiro no negócio da família, o Philip Ciampa Salon and Day Spa, em Winchester, onde lava e ajuda a cortar cabelos. Assim, quando não está em casa, ele trabalha junto com o pai e o tio. "Somos um grupo muito unido", explica. "Estamos aqui para nos ajudarmos mutuamente".

Ele não paga aluguel na casa dos pais, mas contribui de outras maneiras.
Siniscalco faz o jantar, misturando molhos e fritando bifes. Ele corta a
grama e cuida do jardim. "Pago a minha conta com o trabalho manual", afirma.

Ele não se inibe em dizer às pessoas que ainda mora com a sua irmã mais nova e os pais. "Faz parte do negócio", opina. "Eles me concedem privacidade. São muito compreensivos quanto a isso. Mesmo assim, em algum momento terei que sair da casa deles".

Manuel Bueno sabe disso muito bem, mas ainda não foi capaz de sair. Ele se mudou para a casa dos pais em Peabody após se graduar pela Universidade de New Hampshire em 2001. Bueno arranjou um emprego na Raytheon, na vizinha Andover, e acreditou que a estada seria temporária.

"A minha teoria era a de que eu não deveria gastar dinheiro morando em
Boston, já que a casa dos meus pais ficava perto do meu trabalho. Isso sem levar em consideração a necessidade de sair à noite e a situação gerada pelos namoros", explica Bueno.

Antes que ele se mudasse de volta para casa, os pais haviam saído de uma
grande casa alugada para morarem em um apartamento próprio de dois quartos. Um dos quartos era dos pais, e o outro da sua irmã de 19 anos. Assim, os dois irmãos agora dividem o quarto.

Mas como levar as namoradas para casa?

"Sei que estou prejudicando um pouco os meus namoros", diz Bueno. Ele se
lembra de ter recebido a permissão dos pais para deixar uma namorada recente passar a noite na casa, quando ela veio da Califórnia para visitá-lo.

"Nós chegamos a uma espécie de consenso", explica.

Agora ele vem e vai quando quer, e embora esteja tentando juntar dinheiro
para um dia se mudar, não está com pressa.

Peter Lopes está mais ansioso para sair da casa dos pais. Assim que tiver
dinheiro suficiente, terá uma casa só sua. Enquanto isso, Lopes desfruta do seu quarto no segundo andar. Ele conta com privacidade e espaço, mas ainda compartilha a porta da frente com os pais, que moram no primeiro andar da casa.

Ele diz aos amigos para não ligarem após as 23h, para não perturbarem os
seus pais. Mas quando vai ficar fora até tarde, liga avisando.

"Faço isso por uma questão de respeito, ainda que tenha 32 anos", explica. "Não quero que minha mãe fique preocupada". Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos