Conheça a mãe

Joseph P. Kahn

No verão de 1992, o vice-presidente Dan Quayle criticou a série cômica "Murphy Brown" por "ridicularizar a importância do pai" na vida familiar. A personagem título do programa, interpretada por Candice Bergen, era um modelo feminista de mãe solteira. Como os tempos mudaram. Nancy Botwin, personagem central da série cômica premiada "Weeds", deveria ser outro alvo predileto para os guerreiros culturais. Mary-Louise Parker, é uma mãe solteira que vende maconha para sustentar a família. Ainda assim, Parker recebeu o Golden Globe neste inverno, e ninguém fez dela exemplo da erosão dos valores da família.

Será porque "Weeds" é um sucesso no canal Showtime e não um marco da cultura pop, como foi "Murphy Brown" da CBS? Talvez. Ou talvez porque Botwin é divorciada, enquanto Brown era mãe solteira por escolha. É mais provável, porém, que seja porque a imagem da mãe solteira -ou divorciada- passou por uma transformação dramática.

Os números ajudam a explicar a mudança. Estima-se que hoje existam 10 milhões de mães solteiras nos EUA, 25% a mais que em 1990 e três vezes o total de 1970. Hoje existem mais crianças que moram apenas com a mãe do que com os dois pais, de acordo com o estudo. Enquanto isso, um número crescente de mulheres mais velhas e profissionalmente estabelecidas (nada diferentes de Brown) se aventuram em ter filhos, casadas ou não. Entre elas, celebridades como as atrizes Luciana Barroso (que está noiva de Matt Damon) e Angelina Jolie (possivelmente a futura Sra. Brad Pitt). Jodie Foster, Madonna, Demi Moore, Rosei O'Donnell, Nicole Kidman, Heidi Klum, Melissa Etheridge e a falecida Wendy Wasserstein são ou foram mães solteiras mais glorificadas do que castigadas pela cultura em geral.

"Em grande parte, o estigma acabou", diz a socióloga Barbara Dafoe Whitehead, autora do artigo de 1993, "Dan Quayle Estava Certo", no The Atlantic Monthly. "Há uma simpatia social genuína que não existia antes."

E "Weeds" está longe de ser o único exemplo de programa de televisão ou filme de recente que reflete, ou até fomenta a mudança nas atitudes em relação às mães solteiras. Há poucos anos, quando "Friends" reinava supremo, a gravidez de Rachel antes do casamento entrou no roteiro sem escândalo ou culpa. Outros programas de televisão com mães solteiras fortes incluem "Desperate Housewives", "Gilmore Girls", "Judging Amy", "Surface", "Living With Fran" e "The Suite Life of Zack and Cody".

Nesta semana, a CBS introduz outra, "The New Adventures of Old Christine", estrelando Julia Louis Dreyfus, de "Seinfeld", como a mãe divorciada e proprietária de uma academia de ginástica Christine Campbell. Nos primeiros episódios, Campbell se vê lidando com mães esnobes que a desaprovam na nova escola do filho; reagindo à nova e jovem namorada do ex-marido (que também se chama Christine - por isso o título); e lidando com uma vida amorosa tão deserta que sai procurando por amantes nos corredores de um supermercado elegante.

Diferentemente de Murphy Brown, Campbell não está sozinha na criação do filho, salienta a criadora de "Christine", Kari Lizer, que também é mãe solteira. O ex-marido da personagem tem papel proeminente na vida familiar, até demais. Entretanto, diz Lizer, que baseou Campbell em muitas de suas próprias experiências, a série reflete a divisão cultural que persiste desde que "Murphy Brown" saiu do ar: entre as mães solteiras que ficam em casa e as que trabalham fora.

"Acreditamos que muito mudou desde 'Murphy Brown' e estamos fazendo uma série cômica", disse Lizer por telefone de Los Angeles. "Mas parece que há uma guerra entre quem é a melhor mãe, o tipo que fica em casa ou o tipo que trabalha, e acho isso muito destrutivo."

E a CBS? Teria levantado preocupações com o fato de Campbell ser independente, mãe solteira sexualmente ativa? Não, diz Lizer, acrescentando que a proliferação de programas com mães solteiras "deu certa liberdade. Há muitas versões por aí, e o que estamos fazendo realmente não é novo".

A controvérsia de "Murphy Brown" marcou um verdadeiro ponto de virada, de acordo com a professora de comunicação da Universidade de Michigan Susan J. Douglas, autora de "Where the Girls Are: Growing Up Female With the Mass Media" (Onde estão as meninas: mulheres crescendo com a mídia).

"Um, Quayle pareceu tolo por atacar um personagem de ficção", diz Douglas, "ou seja, estava simbolicamente atacando mulheres de classe média alta, não as mães com salário desemprego. E dois, o clima mudou quando muitas mulheres mais velhas começaram a querer filhos. O glamour aumentou quando mulheres como Jodie Foster começaram a ter filhos." Foster, que nunca se casou, tem dois filhos.

Jessica Denay é uma mãe da vida real que está usando sua própria experiência para atingir outras como ela. Denay, 31, que mora na região de Los Angeles com o filho, lançou o Hot Moms Club no dia das Mães de 2005. A combinação de site da Web e revista atraiu mais de 30.000 membros. Com um livro a ser lançado em abril ("The Hot Moms Handbook"), a inauguração de um programa de rádio e outros projetos, certamente haverá maior exposição.

"A atitude mudou dramaticamente desde que me tornei mãe, há cinco anos", diz Denay. "Eu nunca tinha pensado que seria mãe solteira. Era educada, vinha de ótima família, trabalhava como professora e estava cursando o mestrado. Mas quando engravidei aos 24, vi-me em uma situação totalmente inesperada."

A reação em geral foi: "Bem, agora sua vida acabou." Mas como mãe aos 25, "isso não serviu para mim", diz ela. "Então passei a ouvir: 'Você não aparenta ser mãe.' E pensei: como é a aparência de uma mãe? Então passei a redefinir a maternidade em meus próprios termos."

Superando a culpa e a vergonha, Denay decidiu que as mães solteiras podiam ser atraentes. Seu site na Web oferece testemunhos, perfis, conselhos e sugestões de compras, entre outras coisas. Conta também com um fundo especial de ajuda a mães solteiras em desvantagem econômica ou maltratadas. Denay insiste que não está promovendo que as mulheres tenham filhos solteiras -sua sócia no Hot Moms Club é casada- mas diz que nunca houve melhor época para se estar nesta situação.

"A princípio, fiquei com medo de dizer para qualquer homem com quem eu saísse que eu tinha um filho", diz Denay. "Agora é a primeira coisa que eu digo." O fato de celebridades como Jolie estarem constantemente nos noticiários ajuda, diz ela.

"Em Hollywood, os bebês são como a nova bolsa da Gucci, o novo acessório da moda", diz Denay. "Agora é uma coisa festejada. A mensagem é: você pode ser uma grande mãe e sexy e ter uma carreira também."

Uma mensagem que Murphy Brown tentou transmitir, com resultados decididamente heterogêneos. Deborah Weinberg

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