Viciados em entretenimento estão ligados em tudo e sobrecarregados

Se existe algo como uma Geração Gizmo (aparelho), considere Nicholas Cifuentes entre seus fundadores. Um formando em jornalismo da Faculdade Emerson, Cifuentes, 25 anos, é dono de uma HDTV (TV de alta definição) de 34 polegadas com som surround e capacidade de gravação digital, um iPod Nano, dois computadores Apple e um Xbox 360, o que há de mais novo em tecnologia de videogame.

Cifuentes comprou seu aparelho de televisão de alta definição no ano passado por US$ 3 mil. Quanto tempo ele passa assistindo? "Não muito, talvez 15 horas por semana", ele disse com um toque de vergonha. "Parece que tenho que ter tudo o que é mais recente, mas não sei por quê."

Ter tantas opções ao alcance é "provavelmente mais frustrante do que liberador", reconheceu Cifuentes quando perguntado sobre como divide sua atenção entre entretenimento e as fontes de informação.

"Há algum sentimento de culpa aqui? Um pouco, talvez", disse ele.

David Provost de South Dennis adquiriu igualmente um arsenal impressionante de aparelhos de alta tecnologia, incluindo video iPod, um PlayStation 2, uma grande coleção pessoal de DVDs e uma TV equipada com DVR (gravador de vídeo digital). Com tanto equipamento à sua disposição, além de uma filha de 5 anos em casa, ele e sua esposa não saem mais com freqüência ao cinema, disse um supervisor de banco de 29 anos. Todavia, Provost sente os efeitos da sobrecarga de entretenimento.

"Eu tenho esta idéia de que há muita coisa lá fora que nunca conhecerei -e eu estou na vanguarda", disse Provost. "Mas não me interesso por rádio por satélite. Nem podcasting. Você precisa traçar uma linha em algum ponto."

Você está sobrecarregado?

De que produto você abriria mão primeiro? Discuta no endereço www.boston.com/yourlife.

Traçar tal linha tem se tornado mais difícil, segundo muitos consumidores ávidos por novos aparelhos, à medida que recursos como conexões rápidas de Internet e banda larga se expandem e sistemas de entrega (TiVo, rádio por satélite, celulares de múltiplo uso, etc.) correm para explorar a revolução digital. A certa altura, o mundo da possibilidade infinita se torna um incômodo. Com apenas um número limitado de horas no dia e de sentidos para serem bombardeados, plugar aqui significa desligar lá. Ou você perde "Lost" ou outra série. Jack Bauer tem reservados 1.440 minutos para salvar o mundo em "24 Horas", mas para a maioria das pessoas lavar a roupa enquanto acompanha "American Idol" é um desafio de gerenciamento de tempo que
deixaria Bauer de joelhos.

Agora tente 300 canais de rádio, mais uma dúzia de ofertas premium de TV a cabo, mais uma série infindável de sucessos de bilheteria em DVD entregues à sua porta, com postagem para devolução inclusa. A mente cambaleia, além de qualquer capacidade racional de processar tudo. Excesso de mídia foi um dos fatores citados na recente fusão de duas redes de TV em dificuldades, UPN e WB. Conflito, alguém se perguntaria, ou por que mais?

"O que estes aparelhos permitem é experimentar uma variedade quase infinita de eventos culturais", notou Barry Schwartz, um professor de psicologia da Faculdade Swarthmore e autor de "The Paradox of Choice: Why More Is Less" (o paradoxo da escolha: por que mais é menos). Mas, ele argumentou, ter mais opções do que nunca "significa ter menos satisfação com aquilo que você escolher".

A diminuição da atenção somada ao aumento dos menus contribuem para psiques fragmentadas, segundo Schwartz. "Você pode sentir o cheiro de tudo, provar tudo, sentir tudo, mas não experimentar tudo", ele notou. Logo, os especialistas em cultura se vêem olhando por cima dos seus
ombros -metaforicamente, quando não literalmente- à procura do próximo show badalado, da próxima canção da moda, do próximo blog digno de atenção a apenas um clique de mouse de distância.

O que pode provar ser totalmente satisfatório. Ou não.

"Eu cheguei à saturação da tecnologia", postou recentemente uma pessoa no site www.tivocommunity.com. Outro se queixou: "Eu estou começando a sentir uma sobrecarga de entretenimento. Às vezes não consigo decidir o que quero fazer".

"Tem sido estranhamente liberador", escreveu Iannucci ao optar por deixar de assistir uma série de sucesso da HBO. "A Terra não parou de girar, nem as fundações centrais da minha sanidade ruíram." Em vez de sucumbir a "um senso de fracasso cada vez maior", ele prosseguiu", os adultos precisam perceber que seu "paraíso completista não acontecerá".

Em outras palavras, você pode assistir e escutar tudo -e nunca conseguir se manter atualizado. Então supere isto.

Ainda assim, o chamado "ensopado digital" apenas promete ficar cada vez mais grosso e rico à medida que tecnologias de ponta se tornarem mais baratas e mais disponíveis ao mercado de massa. Isto deixa consumidores ligados como Craig Coulomber (iPod Mini, rádio Sirius, computador laptop) diante de algumas duras escolhas. No caso de Coulomber, seu PlayStation 2 está agora "juntando poeira", disse o estudante de 34 anos da Escola de Direito da Universidade de Suffolk, enquanto sua TV a cabo e rádio Sirius estão sendo cada vez menos usadas do que quando eram a novidade do momento.

"Eu tenho muitas distrações e esta é uma que não preciso", disse Coulomber sobre a diminuição de seu apetite por videogames. Atualmente ele também está escutando menos o seu iPod, ele disse, temendo ficar "desconectado demais" do que está ao seu arredor. "Eu parei de ir ao cinema e assinei ao Netflix (serviço de aluguel de DVD por correio)", disse Coulomber. "Mas mesmo em casa, eu começo a assistir a um DVD e entro no site do Internet Movie Database (banco de dados de cinema) para checar algo -e perco parte do filme."

Mark Carney, 55 anos, pode pertencer à Geração Gizmo mais em espírito do que em idade. Mas o engenheiro ambiental da Universidade de
Massachusetts-Dartmouth concebeu um método incomum de multitarefas
eletrônicas. À noite, Carney pluga seu iPod na base de carga e o deixa em modo "shuffle" enquanto está dormindo. Com 4.003 faixas carregadas em seu iPod, "seriam necessários 573 dias para tocar todas", disse Carney.

Mas longe de sofrer uma sobrecarga, Carney se considera feliz. "Quando
crescia eu tinha dificuldade em me concentrar na escola", ele lembrou.
"Agora descobri que posso mudar de modos constantemente. Eu gosto de ter todas estas opções."

Ra Un, 22 anos, concordou que estar ligada é mais liberador do que
frustrante, em grande parte do tempo.

"Eu me sinto no controle", disse Un, que mora em um apartamento em Boston com três colegas de quarto e trabalha em uma agência de publicidade local. O apartamento tem TV a cabo digital com DVR, mas suas escolhas não terminam aí. Ela também assiste filmes Video on Demand (vídeo por demanda) com seu namorado, troca mensagens instantâneas com amigos, escuta música em seu iPod na academia de ginástica.

Paga por serviços que não usa o suficiente? "Não", disse Un. "Eu me sinto bem por tirar proveito do que tenho. E não sinto que estou perdendo muito."

Quando dá aula aos estudantes de Swarthmore sobre atenção fragmentada, disse Schwartz, eles freqüentemente reagem como se ele tivesse vindo da era pré-industrial.

"Eu lhes digo: 'Vocês podem dominar seus iTunes, mas não está claro que
estão lidando bem com estas opções", disse Schwartz. "Os jovens acham que conseguem fazer três coisas ao mesmo tempo sem perder nada, mas isto é falso. Eles tentam fazer muitas tarefas simultaneamente, mas a longo prazo eles pagarão por isto."

Talvez, mas enquanto isso Un disse que encontrou formas de descarregar parte da sobrecarga.

"Minha família tem uma casa em Vermont sem TV e sem serviço de celular", ela disse. "Nós nos sentamos diante da lareira e jogamos baralho. É o paraíso." Joseph P. Kahn George El Khouri Andolfato

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