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03/05/2006 - 03h28

Metade de Cancun está de volta, totalmente otimista

The Boston Globe
Tom Haines
Um vendedor mostrava suas mercadorias na praia do Fiesta Americana Condesa Cancun e o Señor Frog recebia os estudantes nas férias de primavera, enquanto a região recuperava-se rapidamente do ataque brutal de ventos com força de furacão.

Na parte quente da tarde, enquanto braços bronzeados pavimentam, emboçam e pintam perto de pilhas de concreto destruído e piscinas plácidas, às vezes é difícil dizer o que é destruição e o que é progresso.

Ainda assim, seis meses depois do furacão Wilma enviar 40 horas de ventos e chuva devastadores, há tanto movimento em direção à ordem idílica que parece natural reconstruir, colocar de volta exatamente o que havia antes e mais, como se o furacão, e não o lugar, fossem a aberração.

A verdade é, porém, que ventos e águas quentes sempre conspiraram para enviar ciclones poderosos pelo Caribe na direção do leste da Península de Yucatan.

Cancun, o destino para as férias que nasceu das areias e estratégias há menos de três décadas, é um fenômeno, uma fera tropical de muitas cabeças que se alimenta de mangues e água pura. A faixa de hotéis de 20 km abriga mais de 60 resorts, centenas de restaurantes e boates que podem conter milhares de festeiros ao mesmo tempo. Três milhões de pessoas vêm aqui por ano dos EUA e Canadá, mas também de Londres Tóquio e Abu Dhabi.

Rajadas de vento de 220 km/h de um furacão talvez decepem uma ou duas cabeças do organismo mas crescem outras, maiores e mais fortes.

Em outubro do ano passado, Wilma fez milhares de turistas buscarem o abrigo ginásios escolares e cinemas na cidade baixa do oeste, depois destruíram o luxo seleto do Ritz-Carlton e o caos de bebedeira do Oásis Cancun. O furacão lavou a praia na frente do Le Blanc, maltratou lojas cheias de maracas baratas, inundou butiques ao lado do canal que vendiam Hugo Boss no La Isla Shopping Village, derrubou palmeiras do Boulevard Kukulcan e guarda-sóis de piscina atrás de piscina.

Pouco importa. No mês passado, mais da metade dos 27.000 quartos de Cancun estavam novamente disponíveis. Pais brincavam com crianças em uma piscina no Fiesta Americana Condesa Cancun. Casais queimados de sol curtiam uma conversa tranqüila e lagosta grelhada por US$ 75 (em torno de R$ 150) no Lorenzillo's, um restaurante com deque de madeira acima das águas calmas da lagoa de Nichupte. Universitários de Kansas, Wisconsin e Kentucky, apesar de em menor número que outros anos, vertiam litros de cerveja no Señor Frog e olhavam convidativamente para as dançarinas de roupas justas no bar fora de The City, uma boate de vários andares que reabrira dias antes.

Agentes de turismo estimam que, salvo por alguns hotéis mais atrasados, Cancun poderá chegar perto de sua plena capacidade até a temporada de furacões, no outono.

O Grande Aqua Hotel é um dos vários palácios ainda fechados ao longo da seção de 10 km mais destruída pelo furacão, um trecho chamado de "Ground Zero" (uma referência ao local das Torres Gêmeas). Mesmo com a fachada detonada pelos ventos, o hotel fazia uma promessa com um cartaz queproclamava: "Há apenas uma coisa melhor do que construir o hotel mais lindo.Fazê-lo novamente."

No início dos anos 70, havia pouco aqui exceto areia branca e alagados de mangue e floresta. Uma aldeia, Puerto Juarez, era o lar de milhares de pessoas que viviam do mar.

Autoridades mexicanas e incorporadores privados, pensando no sucesso de Acapulco, Puerto Vallarta e outros resorts da costa do Pacífico, voltaram-se para este posto avançado no Caribe, lar dos maias há milênios.

A ilha longa com o formato de um sete retorcido entre a lagoa de Nichupte e o mar tornou-se lar de resorts. Seu nome maia "Kan Kun", significa "ninho de cobras".

O primeiro hotel foi aberto em 1974; em 1988, havia 12.000 quartos. Naquele outono, chegou o furacão Gilbert. Não importa. Em 2005, o número de quartos já tinha mais do que dobrado e a ilha fora pavimentada até poucos quilômetros de seu ponto Sul, quando chegou o Wilma.

Em uma tarde de março, com o sol alto e uma brisa constante e gentil do Leste, alguns turistas se protegiam nas lojas de um shopping center de ar condicionado no coração do distrito hoteleiro. Em um longo corredor, havia uma loja tinha camisetas com lemas. Um exemplo: "Não é uma barriga de chope. É um tanque de combustível para uma máquina sexual."

Em cima, depois de um café com Internet, Rafael Del Rio, um executivo do Palace Resorts e veterano de 25 anos da experiência de Cancun, estava sentado em sua escrivaninha em um escritório sem janela. Del Rio lembrou-se de uma reunião de cúpula no início dos anos 80 que trouxe o presidente Reagan e a primeira-ministra Margaret Thatcher a Cancun, reforçando sua fama internacional.

Del Rio falou sobre o sucesso comercial de hotéis como Cancun Palace, com 800 quartos, e Moon Palace, com 2.100. Ele detalhou as previsões do ramo de lucros crescentes nos próximos três anos.

"Está melhor do que imaginávamos", disse Del rio.

O lazer alimenta a indústria aqui, e Del Rio e outros conhecem as previsões de grupos de pesquisa internacionais: na medida em que as economias se globalizam e especializam, mais pessoas em países ricos terão dinheiro e tempo para brincar com ele. Em 1959, quase 25 milhões de pessoas viajavam de um país a outro. Até 2020, esse número deve chegar a 1,6 bilhão.

Organizadores de convenções esperam usar esse tráfego global para ir além da sua base nos EUA. Eles estão atraindo empresas da Ásia, América do Sul, Europa e o Meio-Oeste, anunciando a área de Cancun como ponto de encontro central.

E os incorporadores aqui perseguem uma idéia audaciosa, ridicularizada por alguns, bancada por outros: estender o resort de Cancun ao longo de mais de 160 km do litoral para o Sul, atravessando a área já desenvolvida de Maya Riviera. Até 2025, segundo a vontade do capital, a costa será lar de mais de 240.000 quartos de hotel.

Não há necessidade de olhar tão longe para a besta insaciável: entre a cidade baixa e o início do Boulevard Kukulcan, tratores seguem por estradas de barro para uma área de mangues de 3,2 km quadrados. O local, chamado Puerto Cancun, em breve hospedará marinas, condomínios e hotéis. Segundo os panfletos promocionais é "a última região não desenvolvida de Cancun".

Pode ser difícil encontrar vozes pedindo que isso tudo pare. Mas existem, mesmo no centro dos bairros rapidamente construídos que hoje abrigam mais de 500.000 mexicanos, em lugares como El Rey del Caribe, um pequeno hotel ecológico. Araceli Dominguez, proprietária, descreveu a vida curta da área de hotéis e a cidade que a serve. Ela observou quatro períodos distintos: descoberta; desenvolvimento; superdesenvolvimento, às vezes fomentado por traficantes; e finalmente o caos, no qual drogas e prostituição são comuns.

Dominguez listou outros problemas da estratégia de expansão: o dinheiro para educação e saúde pública é curto. O lixo é excessivo. O esgoto flui para o mar.

No ano passado, Dominguez foi presa por cinco dias por protestar contra a transferência de golfinhos das ilhas Solomon para um parque nacional no Sul de Cancun. Como diretora do Grupo Ecologista del Mayab, ela luta contra o desenvolvimento dos mangues e da costa ao Norte e ao Sul.

"Como programa urbano, é loucura", disse Dominguez. "É um modelo autodestrutivo. Um ecossistema precisa respirar."

Mas a natureza tem poucas chances contra as forças sociais em jogo aqui.
Muitas pessoas pobres precisam do dinheiro de muitas pessoas ricas. O turismo é um dos motores da economia mexicana, atrás apenas do petróleo e do dinheiro enviado por mexicanos nos EUA. Então, muitos migrantes ainda vêm perseguir o "Sonho Caribenho". Chegam mais de 100 por dia de grandes cidades e locais remotos de Veracruz, Tabasco, Yucatan e Chiapas, em busca de trabalho.

A três quarteirões do hotel de Dominguez, na direção de Puerto Cancun, uma equipe de 13 homens quebra pedras com martelos seis dias por semana, para construir um muro em torno das estradas que levam aos mangues. À noite, eles dormem juntos em um barraco ali perto. Cada um ganha US$ 44 (em torno de R$ 88) por dia, mais que o dobro do salário em sua cidade de origem, Mérida, capital do Estado de Yucatan.

Seguindo a estrada de quatro pistas para o Norte, ao longo dos mangues, chega-se à cidade de quarteirões poeirentos. Em frente de um pequeno prédio que mede talvez 6m por 12m, sacas de cimento aguardam para reparar o dano do Wilma enquanto três gerações de uma família dormem em uma casa de um único cômodo. A matriarca, Alberta Rosado Herrera, diz que isso é melhor do que ela deixou em Veracruz, em 1985. Aqui, pelo menos sua família é dona da terra.

Em um canto ali perto, Emiliano Pech, 30, vestindo um uniforme branco de porteiro, espera um ônibus para começar sua viagem de 90 minutos para Puerto Madero, na Maya Riviera. Os US$ 10 (aproximadamente R$ 20) que faz por dia garantem uma vida confortável para seus filhos, diz ele.

A alguns blocos de distância, depois de um mercado e uma borracharia, uma jovem anda de casa em casa com um punhado de canetas vermelhas. Doris Barrios Moreno, 19, veio a Cancun de Tapachula, Chiapas -"problemas com meu pai", diz ela- um mês antes.

Moreno tem cabelos pretos e sorriso honesto. Ela explica que há formas de uma mulher fazer muito mais dinheiro em Cancun, mas quer uma vida melhor.

Então bate de porta em porta com suas canetas de US$ 2 (R$ 4), esperando ganhar a vida não com os turistas abastados, mas com os que os servem. Seus clientes têm pouco. Mas ela continua batendo e mostrando as canetas, pronta para fazer uma venda.

"Preciso convencê-los", diz ela, "porque preciso comer".

Informações:

Para informações sobre hotéis que ainda não reabriram, visite www.gocancun.com. Para informações sobre Cancun em geral, incluindo todos os hotéis, visite www.cancun.info. Muitos dos melhores pacotes para Cancun são fechados por agências operadores com base nos EUA. Aqui vão algumas sugestões para locais específicos, com os preços cobrados diretamente pelos hotéis.

Onde ficar

Fiesta Americana Condesa Cancun
Boulevard Kukulcan, quilômetro 16.5
011-52-998-881-4200
www.fiestaamericana.com

Um amplo resort, o Condesa agüentou bem o furacão, com restaurantes e bares, piscinas e quartos abertos aos clientes. Uma mudança significativa é a praia, que sofreu um problema no mês passado, quando a areia recolocada foi novamente levada pelo mar. Quarto de casal a partir de US$ 200 (em torno de R$ 400) a diária.

Presidente InterContinental Cancun Resort Boulevard Kukulcan, quilômetro 7.5
011-52-998-848-8700800-951-4667
www.ichotelsgroup.com
Apesar do hotel não ter sido severamente prejudicado pelo furacão, o InterContinental aproveitou a calmaria após a tempestade para renovar o hotel. Os quartos e instalações são de primeira, e a praia, na baía mais calma, é suave e branca. Quarto de casal a partir de US$ 168 (aproximadamente R$ 340).

El Rey del Caribe
Av. Uxmal y Nader
011-52-998-884-2008
www.reycaribe.com
Um eco-hotel no centro da cidade, um oásis de calma por traz de uma fachada colonial. Uma boa escolha para os que viajam com pouco ou procuram algo longe da elegância da faixa de hotéis. Quarto de casal entre US$53 e US$74 (entre R$ 110 e R$ 150).

Onde comer

Lorenzillo's
Boulevard Kukulcan, quilômetro 10.5
011-52-998-883-1254
www.lorenzillos.com.mx
Um clássico ao lado da lagoa, com jantar a céu aberto. Lagosta é a
especialidade: um animal de 1kg sai em torno de US$ 75.

Paloma Bonita
Boulevard Kukulcan, quilômetro 9.5
011-52-998-848-7000
Se você está buscando um sabor de México, ou ao menos de como é em Cancun, visite este complexo de três salões de jantar, um pátio e outro projetado como uma cozinha tradicional. A comida é uma aventura, mas familiar, com uma ampla seleção de carne, incluindo uma com molho de quatro pimentas. Refeição de três pratos, com uma margarita, cerca de US$60 (em torno de R$ 120).

Plaza de Toros
Av. Bonampak e Sayil Street
011-52-998-884-8372 (8248)
As touradas são às 15h30 nas quartas-feiras, mas uma série de restaurantes ao ar livre serve almoço diariamente. Um bom lugar para três tacos e uma cerveja Sol por US$ 10 (aproximadamente R$ 20).

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