Após anos de sucesso, seriado "The West Wing" chega ao fim

Matthew Gilbert

"The West Wing" foi uma velha e grande confusão esplendorosa. A série conquistou fama generalizada devido à sua estrutura inteligente.

O drama político da NBC, que chega ao fim no domingo, após sete temporadas, transbordava de um excesso de idealistas cerebrais falando de forma muito rápida e usando várias frases latinas enquanto circulavam pelos diversos corredores do poder. O seriado contava com muitas alusões obscuras a Immanuel Kant, Tomás de Aquino e I.M.A. Highbrow.

Divulgação/NBC - jul.2003 
Foto dos principais personagens do elenco da série 'The West Wing' no ano de 2003

E tinha palavras demais.

Criada pelo escritor e produtor Aaron Sorkin, "The West Wing" foi um exemplo clássico de como o excesso e a grandeza podem andar de mãos dadas. Antes de Sorkin deixar o seriado em 2003, após atrasar demais um grande número de roteiros, cada episódio de "The West Wing" continha complexidade política suficiente para preencher alguns filmes de longa metragem. De fato, em casos como aquele momento da primeira temporada no qual o presidente Bartlet nomeia um juiz para a Suprema Corte, os episódios eram mais bem escritos do que a maior parte das peças teatrais. Entre o episódio no qual Bartlet lidou com a sugestão do surgeon general (o chefe da Saúde Pública dos Estados Unidos) de que a maconha deveria ser legalizada, e aquele no qual Leo usa uma metáfora para explicar um sistema de defesa antimísseis, o seriado estabeleceu um novo padrão para a inteligência na TV.

Quando o formidável talento por detrás da série "Commander in Chief" de Geena Davis, incluindo Steven Bochco, tentou a mesma peripécia protagonizada em Washington, o drama foi ofuscado por "The West Wing". Dez anos atrás, "Commander in Chief" da ABC teria certamente sido aclamado como uma das melhores séries da televisão. Mas agora, após uma temporada de queda de audiência, o seriado está rumando para o cancelamento.

E Sorkin não faz corpo mole quando se trata do conflito interpessoal e da política. Uma cena de "The West Wing" é capaz de chocar, com a sua mistura combustível de emocionalidade e ferocidade. De fato, poucas coisas podem ser mais eletrizantes do que dois indivíduos de alto QI falando mal um do outro. Quando C.J. descobre que Toby não lhe disse que a Índia estava atacando o Paquistão, os dois se estranharam de uma forma típica de "West Wing" - antecipando o próximo pensamento do outro e falando de forma codificada. Sorkin reduziu os embates ao essencial, nunca os comprometendo com as falas exibicionistas e exageradas que se tornaram a sua marca registrada. Os momentos de tensão entre Bartlet e a sua mulher, Abbey, ou entre C.J. e qualquer pessoa que entrasse em seu caminho prendiam a atenção do telespectador.

Mas houve os excessos. "The West Wing" alcançou o topo dos índices de audiência quase que semanalmente, especialmente nos seus momentos mais pueris. Poucos programas apelaram de forma tão desavergonhada para o nacionalismo.

Bartlet foi criado para ser um presidente norte-americano ideal. Uma espécie de tio que sabe de tudo e que nunca é pego de calças arriadas como um outro presidente democrata que conhecemos. Mas a sua bondade freqüentemente levava a uma cansativa fala trivial e a entonações de auto-importância, acentuadas pela atuação de Martin Sheen. Quando Bartlet ficou face a face com uma homófoba que gostava de citar a Bíblia, ele a superou nas suas citações religiosas, com um conhecimento de capítulos e versículos que estava à altura da sua grande familiaridade com parques nacionais e culturas mundiais. Sorkin e outros escritores chegaram a idealizar Bartlet a extremos.

E a seguir houve a cena do episódio final quando os principais assessores de Bartlet disseram, um de cada vez, "Deus salve a América". E ainda o embaraçoso episódio das orações relativas ao 11 de setembro. E as montagens líricas. E as discussões incansáveis e graciosas entre os personagens.

Depois que Sorkin deixou "The West Wing", o excesso se firmou, embora sem o mesmo nível raro de inteligência para apoiá-lo.

O produtor e escritor John Wells, de "ER" e "Third Watch", assumiu o programa e subitamente os personagens passaram a se comportar de forma incongruente. Toby, particularmente, passou de sombrio a mais sombrio.

As complicações políticas continuaram a tomar ocasionalmente um rumo interessante, mas as caracterizações perderam o encanto. Enquanto isso, a NBC transferiu o seriado das noites de quarta-feira para as de domingo, em uma tentativa mal sucedida de conter a queda do índice de audiência.

Com todos os fatores adversos, o recente renascimento criativo do seriado pareceu ter surgido do nada. Wells reabasteceu o elenco gradativamente com novas faces, incluindo Jimmy Smits e Alan Alda, como candidatos a presidente, e estes personagens finalmente assumiram vida própria. Tudo o que era cansativo e inconsistente quanto ao retrato da administração Bartlet desmoronou por trás dos personagens que Wells herdou de Sorkin.

Esta última temporada de "The West Wing" foi uma das melhores. Os escritores exploraram as farpas e esquivas na disputa tensa entre Smits e Alda, e eles lidaram com a morte de Leo (após a morte do ator John Spencer) de maneira elegante. As tensões românticas entre Donna e Josh, bem como entre C.J. e Danny tiveram um final feliz e verossímil. A mágica de Sorkin fez falta, mas, não obstante, Wells conseguiu fazer um dos dramas mais interessantes exibidos atualmente nas redes de televisão.

O produtor-executivo Lawrence O'Donnel disse recentemente que antes da morte de Spencer o plano era uma vitória republicana, mas o resultado final do seriado - a vitória democrata de Smits, fez com que o republicano Alda se tornasse secretário de Estado - se constituiu em um ótimo fecho bipartidário para a série. Com os partidos mais polarizados do que nunca na vida real, o programa ofereceu uma homenagem de despedida ao idealismo.

De fato, no decorrer do período em que esteve no ar, "The West Wing"
descartou a política do mundo real e apresentou modelos ideais. Em um período no qual os presidentes e os seus assessores possuem deficiências suficientes para minar a confiança da população, a série nos convida a esperar mais. Bartlet foi como Clinton, mas os seus "valores familiares" eram suficientemente fortes para que se descartassem as atividades extraconjugais. Ele, também, enfrentou um problema para a sua liderança ao deixar de revelar o seu caso, mas este não foi sórdido como o Monicagate. Ele foi o Clinton 2.0.

Depois que Bush assumiu a Casa Branca, Bartlet passou a ser menos um símbolo de caráter sólido, e mais um lembrete de que os presidentes podem de fato ser intelectuais. Eles podem ser suficientemente cultos para responder questões de forma substantiva, sem agredirem a gramática.

O seriado muitas vezes deu a impressão excessiva de ser um nicho de enaltecimento da liderança democrata, especialmente sob a direção de Sorkin. Mas "The West Wing" também pareceu enaltecer qualquer forma de democracia responsável. Quando assistirmos ao show daqui a dez anos, e ele estiver livre de associações políticas imediatas, pode ser que funcione como um estímulo para que os telespectadores esperem pelo melhor, apesar dos sinais em contrário. Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos