"O Código da Vinci" decepciona nas telas

Ty Burr

E agora o cinema ficou silencioso. No silêncio, sob a luz dos projetores, depois de 40 dias e 40 noites de excitação fabricada e controvérsia apaixonada (ou seria o contrário?), surge um filme pequeno e surpreendentemente comum. Como filme derivado de um livro, "O Código da Vinci" não é um fiasco da magnitude de "A Fogueira das Vaidades" ("The Bonfire of the Vanities", EUA, 1990), e tampouco um triunfo como "O Senhor dos Anéis" ("The Lord of the Rings", EUA/Nova Zelândia, 2001). Em vez disso, trata-se de um simulacro aceitável mas destituído de inspiração: uma tradução cinematográfica extremamente fiel de um romance de aeroporto muito, muito popular.

Os alquimistas de Hollywood não transformaram ouro em chumbo, e sim cobre em zinco.

Divulgação/Columbia Pictures 
Sophie Neveu (Audret Tautou) e Robert Langdon (Tom Hanks) em cena no museu do Louvre

Ficou evidenciado que Ron Howard era precisamente a pessoa errada para transpor o best-seller de Dan Brown para as telas. Este projeto necessitava de um indivíduo disposto a assumir riscos e de um estilista. Alguém capaz de transmutar um livro que alterna cenas rotineiras de ação com discursos sobre história da arte em obra de cinema interessante. No entanto, Howard é um bom operário dos estúdios, e com o seu roteirista Akiva Goldsman ele criou um "O Código da Vinci" que está timidamente vinculado à sua fonte. Se você leu o livro, o filme parecerá ser uma obediente peregrinação pelos pontos mais importantes da trama. Em um momento estamos no Louvre, depois no Banco de Zurique. Opa! Jesus tinha uma vida doméstica. E se você não leu o livro, poderá ficar sem entender por que tanto alarido.

Como está o cabelo de Tom Hanks? Bem, bem; é uma afetação de figurino, mas dá para superar isto após as primeiras cenas. O verdadeiro problema referente ao nosso Tom é o fato de ele não possuir um personagem para interpretar. Robert Langdon, professor de simbologia da Universidade Harvard e duvidando bastante de São Tomé, funciona como arauto das teorias conspiratórias pesadas e leves de Brown a respeito do cristianismo. E, nas passagens nas quais é fácil para um leitor projetar tridimensionalidade sobre o personagem das páginas, Hanks fica sem ter o que fazer na tela.

Como o substituto da platéia de "Um Americano em Paris", Langdon precisa declamar falas tolas, tais como, "Este é o Bois de Boulogne?", ou dar explicações longas sobre os segredos de Leonardo da Vinci e do nebuloso Priorado de Sião para Sophie Neveu (Audrei Tautou), a atraente criptóloga francesa que acaba envolvida no mistério. Hanks jamais rompe a trama espessa do roteiro para criar um ser humano viável. Esta pode ser a sua performance mais constipada e menos Hanksiana.

E Tautou, aquele instável espírito livre de "O Fabuloso Destino de Amelie Poulain" ("Le fabuleux destin d'Amélíe Poulain", França, 2001), também não se sai melhor. Sophie fica fazendo perguntas sem parar, de forma que Langdon possa fazer seus discursos. Ocasionalmente ela também aumenta o suspense ao sussurrar, "Precisamos encontra outra forma!". Não espere também nenhum romance entre esses dois. A frase cheia de admiração de Langdon, "Nunca conheci uma garota que soubesse tanto a respeito de um criptex", é o mais próximo que ele chega das doces nulidades.

Resumindo para os não iniciados: Jacques Sauniere (Jean-Pierre Marielle), um velho curador do Louvre, é encontrado assassinado em uma das galerias do museu, com o corpo nu em uma posição grotesca e tendo mensagens secretas escritas à sua volta com caneta ultravioleta. O detetive encarregado do caso, Bezu Fache (quem mais, a não ser Jean Reno?), traz Langdon até o local do crime para consultá-lo e interrogá-lo, já que todas as pistas apontam para o professor. Com a ajuda de Neveu, a neta de Sauniere, Langdon escapa, e os dois se engajam em uma alegre perseguição através da França e de séculos de segredos da Igreja Católica.

Sauniere, ao que parece, era o grande-mestre de uma ordem secreta chamada Priorado de Sião, que detém o verdadeiro segredo sobre o Santo Cálice. Da Vinci estava a caminho de resolver o mistério, e também Isaac Newton, assim como aparentemente todo o elenco coadjuvante de "De Olhos Bem Fechados" ("Eyes Wide Shut", EUA, 1999). Sem contar a história para os que ainda não a conhecem, ela diz respeito ao relacionamento de Jesus Cristo e Maria Madalena, a Deusa Divina, e vários flashbacks históricos que parecem fragmentos coloridos dos velhos épicos de Cecil B. DeMille.

E a Igreja gosta disso? Nem um pouco, e é por isso que um bispo renegado (Alfred Molina) da conservadora facção católica Opus Dei envia o monge albino Silas (Paul Bettany), que é o seu braço direito, para assassinar os membros do priorado e descobrir onde está o Cálice. Por sua vez, tanto o bispo como o seu discípulo estão sendo usados por um enigmático Professor.

É claro que mais da metade do romance está nos enigmas: anagramas, charadas e palavras-chave, pistas escondidas em pinturas famosas que divulgam o próximo passo da caça ao tesouro, permitindo, ao mesmo tempo, que Dan Brown se entregue ao prazer de ministrar cursos rápidos do tipo "Leonardo para Estúpidos". O livro é literatura como jogo de computador, mas o filme o trata como escritura, e quase põe tudo a perder.

Quando os fugitivos chegam à mansão de Sir Leigh Teabing (Ian McKellen), um britânico que é um especialista ligeiro no Cálice, "O Código da Vinci" ganha momentaneamente a aceleração da qual necessita. Somente McKellen entende a tolice inerente do material, e quando anuncia a existência do Evangelho de Felipe, ele poderia muito bem estar falando sobre o Evangelho de Bob.

Porém, ele acaba sendo engolido pela mecânica do roteiro. Como no livro, tão logo o Grande Segredo é divulgado, não há nada a fazer a não ser recorrer a arrastados clichês de filmes de suspense, incluindo mordomos sorrateiros. O filme ganha ímpeto depois que McKellen sai de cena, e nos 15 minutos finais dá para perceber que Howard se preocupa com o resultado final. A música de suspense funcional de Hans Zimmer se torna lírica, as imagens se enevoam, e o roteiro expressa sentimentos em frases como, "Por que ele tem que ser humano e divino? Talvez o humano seja divino". O devoto pode ver nisso a mais recente afirmação do secularismo de Hollywood, enquanto outros podem descartar tais passagens como budismo aguado de Beverly Hills. Mas pelo menos se sente alguma coisa.

Aliás, há passagens suficientes para deixar os religiosos furiosos, se eles assim desejarem. Porém, o motivo pelo qual "O Código da Vinci" foi um fenômeno editorial está apenas parcialmente vinculado às heresias percebidas. "Isso tudo é possível?", pergunta Sophie em determinado trecho. E Robert responde: "Não é impossível". E nesta lacuna mora o nosso amor obsessivo pelas teorias conspiratórias - a sensação de que nos contaram mentiras, mas que a Verdade está oculta nos padrões, se formos suficientemente inteligentes para enxergá-la. Brown meramente acrescentou o Filho de Deus ao assassinato de John Kennedy e à Área 51 como temas para uma criptografia popular interminável.

Tudo bem. Os católicos conservadores não aparecem bem no filme, mas, a bem da verdade, tampouco os ateus equivocados. As cenas nas quais Silas se entrega ao seu hobby gentil de mortificação ritual são feitas para provocar sentimentos asquerosos associados a filmes de terror. Mas talvez os cineastas possam ser desculpados por acreditarem que este tipo de coisa ficou banal após o sucesso de "A Paixão de Cristo" ("The Passion of the Christ", EUA, 2004).

O grande pecado de "O Código da Vinci" é cometido contra a narração da
história: o filme é belo, travado e sério como um clérigo. Em sua defesa, pode-se dizer que ele torna manifestos os prazeres de um bom livro. No diálogo mais tolo do filme, Hanks se volta para Tautou e exclama, "Tenho que correr até a biblioteca - rápido".

Meu Deus! Todos nós não temos que fazer o mesmo?

Heresia!

Os leitores mais observadores poderão notar algumas passagens nas quais a versão cinematográfica de "O Código da Vinci" diverge da ortodoxia do romance de Dan Brown. Sem estragar o prazer para quem ainda não conhece a obra, apresentamos abaixo as cinco principais diferenças entre a fonte e o filme:

1. Andre Vernet: O gerente do Banco de Zurique não é mais um amigo do
falecido, o que torna os motivos para as suas ações ainda mais inescrutáveis. Mas é bom saber que atualmente uma conta em um cofre nos fornece uma cláusula de "trânsito livre" assim como uma caneta gratuita.

2. Bezu Fache: Ele recebe a denúncia da suposta culpa de Langdon de um
informante inesperado. No livro, as suas motivações são mais turvas.

3. Silas "o bom Irmão" Hitman tem a sua história, que ocupa cinco
páginas, comprimida em cerca de 30 segundos de flashbacks brutalmente editados, o que torna a passagem estilosa, mas totalmente incompreensível para quem não leu o livro.

4. Biblioteca do King's College: A cena na qual Langdon e Sophie se
debruçam sobre o enigma do criptex desapareceu. Agora eles fazem uma pesquisa no ciberespaço por meio de um útil telefone celular de um passageiro de ônibus. Um local a menos com o qual se preocupar. Mais uma propaganda de um equipamento de alta tecnologia.

5. Capela Rosslyn: A família descobriu que agora existe um clã inteiro,
embora não se explique quem é parente de quem. E também: Jacques Sauniere? Talvez ele não seja o avô de Sophie. Ou talvez seja. Não ficou claro.

Ficha técnica

"O Código da Vinci" ("The Da Vinci Code", EUA/França, 2006)

Dirigido por Ron Howard.

Roteiro de Akiva Goldsman, baseado no livro de Dan Brown.

Estrelando Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno e Paul Bettany.

Duração: 148 minutos.

Classificação: PG-13 (não é recomendado para menores de 13 anos; imagens perturbadoras, violência, alguma nudez, material temático, referências a drogas, conteúdo sexual). Danilo Fonseca

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