Porta-voz de Ruanda, uma terra que acredita estar esquecida

Bella English

"Papa!"

"Comment vas-tu?"

Pai e filho se abraçam fortemente, se separam e se abraçam novamente, falando poucas palavras em francês e depois Kinayarwanda, antes de mudarem para o inglês.

Para o mundo todo, Paul Rusesabagina é o homem que salvou 1.268 vidas em "Hotel Ruanda", durante o genocídio de 1994. Ele recebeu diversos prêmios humanitários, inclusive a Medalha da Liberdade Presidencial, faz centenas de discursos por ano e recentemente escreveu suas memórias, "An Ordinary Man"
(Um homem comum).

Para seu filho de 13 anos, Tresor, que estuda no internato de Fay School em Southborough, Massachusetts, Rusesabagina é apenas "papa".

"Foi uma coisa incrível que ele fez. Ele é um herói para mim, mas como pai", disse Tresor. "Está sempre calmo. Nunca o ouvi gritar."

A calma externa durante o caos foi um fator chave na capacidade de Rusesabagina de evitar a milícia assassina e o exército de Ruanda. O genocídio levou 800.000 vidas em 100 dias. Durante o banho de sangue, o Hotel Mille Colines que Rusesabagina passou a administrar depois que o diretor belga fugiu, tornou-se um porto seguro para tutsis perseguidos e hutus moderados. Como era hutu casado com uma tutsi, Rusesabagina também era um homem marcado, mas como tinha amizades com pessoas no poder foi capaz de barganhar, implorar e comprar as vidas que finalmente conseguiu salvar.

Apesar de agora morar em Bruxelas, ele viaja extensivamente e diz que considera Boston seu "segundo lar". Tresor está em Southborough, é claro, e a agência de discursos, American Program Bureau, tem sede em Newton. Sua agente literária, Jill Kneerim, está em Boston, assim como sua firma de advocacia, Burns & Levinson. Sua obra de caridade, a Fundação Hotel Ruanda Rusesabagina, também fica ali.

A conexão com Boston começou quando Perry Steinberg, diretor do escritório de palestrantes, viu o trailer de "Hotel Ruanda" e pediu que um estagiário procurasse Rusesabagina mesmo antes do lançamento do filme. O relacionamento empresarial logo se tornou um relacionamento pessoal entre os funcionários da APB e Rusesabagina. A agência ajudou a montar sua fundação, selecionar uma escola para seu filho e a contatar Kneering para ajudar a lançar o livro.

"Ele fez um número incrível de amigos aqui", disse Bob Davis, vice-presidente da APB. "Não me surpreenderia se, algum dia, se mudasse para cá, se as crianças decidissem ficar aqui. Ele é bostonense." Em junho, Rusesabagina voltará a Boston para colocar seus sobrinhos em um programa de inglês nas férias na Fay.

Amber Bobin, agente de palestras da APB ajuda a orientar Tresor. Ela o acompanha na escola, apresentou-o a uma família que fala francês e o leva para os jogos dos Celtics e Red Sox. "O Sr. Rusesabagina rapidamente se tornou família para nós", diz ela. "Demos amor e apoio em todas as áreas para ele."

De sua parte, o ex-gerente de hotel diz que adora Boston e seu povo. "As pessoas são melhores que o tempo", diz, rindo.

A Fundação Hotel Ruanda Rusesabagina levanta dinheiro para os órfãos do genocídio, quase meio milhão de crianças, inclusive as chamadas "enfants du mauvais souvenir" - "crianças das más lembranças": suas mães foram estupradas e engravidaram do inimigo e não conseguiram ou não quiseram cuidar dos filhos, muitos dos quais nascidos com o vírus HIV. A fundação é dirigida pelo escritório dos advogados de Rusesabagina em Boston; não tem empregados e simplesmente envia o dinheiro para os programas. Ela também oferece tratamento médico e educação para as crianças "para que tenham alguma esperança e não se tornem parte de uma onda futura de mal em Ruanda", diz ele.

Aprendendo duras verdades

Tresor tinha 18 meses de idade durante o genocídio; é o filho mais moço de Rusesabagina e o único de seu casamento com Tatiana. Há três outras crianças do primeiro casamento e duas sobrinhas que ele e Tatiana adotaram depois que seus pais foram assassinados. No filme aclamado de seus atos heróicos, as sobrinhas eram mais velhas, talvez com 4 e 6 anos -quando foram encontradas em um campo de refugiados. Na vida real, uma tinha 2 anos e a outra apenas 9 meses, e estavam "quase mortas", diz ele. Elas foram criadas como filhas de Rusesabagina -há poucos anos o casal revelou a verdade a elas e a Tresor.

A notícia foi um choque para os três, que pensavam ser irmãos. Mas quando o filme estava para ser lançado, era hora de contar. "Eles não queriam aceitar", diz Rusesabagina, que tem 51 anos.

"Eu fiquei zangado", acrescenta Tresor, que diz não ter pensado muito sobre o fato de uma "irmã" ser apenas sete meses mais velha que ele. Seu pai sorri. "Como alguém pode ter três filhos em dois anos?" As meninas hoje têm 12 e 14 anos e moram em Bruxelas com os Rusesabagina.

Os pais de Tresor também tentaram prepará-lo para a estréia do filme. "Sabia sobre meu pai e aquilo tudo. Sabia que o genocídio fora ainda pior do que o filme mostraria", diz ele. O menino magricelo recentemente ultrapassou a altura do pai, que sorri com óbvio orgulho de seu filho trilíngüe, que, como ele, veste boas calças e jaqueta com uma camisa de gola alta, enquanto seus colegas estão de moletom.

No último verão, Tresor veio fazer o curso de férias em Fay e inscreveu-se na escola em setembro. Ele chegou sem saber uma palavra de inglês, que hoje fala perfeitamente. Ele aprecia o fato de Fay ter grande número de alunos internacionais -seu colega de quarto é mexicano, seu melhor amigo, da África do Sul -e ele adora esportes. Futebol e beisebol são novos para ele; ele joga o primeiro, mas acha beisebol meio devagar. Em cima de sua cama, tem um boné dos Yankees, que ele rapidamente remove quando chegam as visitas de Boston. "Ganhei de uma pessoa", diz envergonhadamente.

Enquanto pai e filho descem o corredor do dormitório, um aluno de olhos arregalados faz questão de apertar a mão de Rusesabagina. "É uma honra conhecê-lo", diz ele. Um dos professores faz uma pausa para dizer ao pai de Tresor que o vira no noticiário, discursando recentemente na manifestação para Darfur em Washington, D.C.

Rusesabagina está acostumado com essas abordagens, e lida da forma apropriada a um gerente de hotel de cinco estrelas: com elegância e cortesia. Ele está impecavelmente vestido e usa um broche do Rotary Club na lapela; é membro. E apesar de dizer que não está com fome, fica preocupado querendo que seu filho coma. Uma preocupação de pai ou mania de ex-gerente de hotel?

Uma voz para a África

Quando ele se mudou para Bruxelas, em 1996, depois do atentado contra sua vida, Rusesabagina teve que deixar seu hotel amado; sua mulher desistiu de sua farmácia. "Deixamos tudo para trás", diz ele. Quando ele começou a dirigir um táxi, os amigos se preocuparam que ia ficar em dívida. No ano seguinte, ele comprou um segundo táxi e, no terceiro, começou uma empresa de caminhões, que ainda possui.

Apesar de silencioso e discreto, ele se tornou um palestrante apaixonado por sua causa: o futuro de seu país e o genocídio de Darfur. Durante um almoço recente em Herietta's Table em Cambridge, ele falou longamente sobre a história amarga entre tutsis e hutus. Apesar de o genocídio ter sido executado pela maioria hutu contra a minoria tutsi, está claro que Rusesabagina, filho de um pai hutu e mãe tutsi, continua profundamente revoltado com os rebeldes tutsi -que efetivamente terminaram com o genocídio, mas, diz ele, mataram muitos hutus como retaliação- e a comunidade internacional que ignorou o massacre.

Nos últimos seis meses, ele tem dado palestras nos EUA, algumas vezes seis por dia. Muitos de seus discursos giram em torno do genocídio na região de Darfur no Sudão, onde membros de uma milícia patrocinada pelo governo estão matando civis. Apesar de a comunidade internacional ter intervindo na matança étnica na ex-Iugoslávia, diz ele, ninguém ajuda a África. "Acho que é um continente esquecido."

Mas Rusesabagina não esqueceu os morros onde cresceu e espera algum dia voltar para sempre. Ele não se vê envelhecendo em Bruxelas, "passeando com um cachorrinho". Não, ele se vê sentado em cima dos morros, vendo o sol nascer e se por e os vulcões que dizem tornar Ruanda o mais belo país da África.

Tresor Rusesabagina, como o pai, é filho de pai hutu e mãe tutsi. Ele diz que não quer morar em Ruanda, apesar de desejar ajudar seu país de nascença de alguma forma. Ele quer terminar o colégio e fazer faculdade nos EUA. Se ele for uma indicação do futuro do país, é encorajadora. Quando perguntamos se ele se considerava tutsi ou hutu, simplesmente respondeu: "ruandês." Deborah Weinberg

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