O penetra

Joseph P. Kahn

Em uma foto, ele aparece em particular com Barbra Streisand, em uma noite de gala. Em outra, está abraçando Tom Cruise e Ben Stiller, em uma estréia em Hollywood. Ali está ele de novo -está mesmo segurando um Grammy?- no camarim com André 3000. Agora o vemos com Jon Stewart na festa após o Oscar de Vanity Fair, só para convidados muito especiais.

Steven Spielberg, Elizabeth Taylor, Bruce Springsteen, Will Smith, Jack Nicholson, Meryl Streep, Dustin Hoffman, Chris Rock, Elton John, Hillary Rodham Clinton, Harrison Ford, Brad e Jennifer. A lista de astros com quem se relacionou e tem fotos para provar parece o "Quem é Quem" do entretenimento e da política.

Mas se alguém perguntar a qualquer um desses astros quem é aquele na foto, obterá um olhar vazio.

Talvez um representante de William Morris? Parte da equipe de segurança do chefe? Treinador de Dustin? Espere, não é o careca branco que estava atrás do OutKast quando os músicos receberam o Grammy de melhor álbum do ano? Ih, legal eles terem convidado seu contador para o palco.

De fato, o trabalho diurno de Michael Minutoli é cortar frios em uma delicatessen em San Juan Capistrano, Califórnia. Ele não tem casa, carro ou cartão da Liga de Atores, muito menos uma casa de praia, uma limusine, ou lugar reservado na noite do Oscar. Ele dorme na praia de Laguna ou em uma van emprestada estacionada no supermercado e recebe seu correio na casa de um amigo. Ele mora na Califórnia do Sul, mas nunca namorou Paris Hilton ou Lindsay Lohan, o que é chocante por si só.

Examinar sua pilha de fotografias -centenas delas, empilhadas como cartões de outra galáxia- é ligeiramente surreal, como estar em uma piada que só Woody Allen saberia contar.

Katie Couric, Jim Carrey, Cher, Sean Penn, Paul McCartney, Luciano Pavarotti, Henry Kissinger, Tom Hanks, Bruce e Demi. Foi de fato este homem que apresentou Keith Richards para Russell Crowe no Golden Globes? Sim. Pulou no piano de Elton John e apertou as mãos do astro durante um show de Elton com Billy Joel? Meu Deus. Bob Dylan estava na primeira fila e também não acreditou no que seus olhos viam.

Em uma cultura fixada no tapete vermelho, Minutoli é nossa fantasia coletiva vestida em um smoking de segunda mão, em pé no bar, tentando se passar por Alguém que Pertence ao Lugar. Um penetra de estatura quase mítica, que conseguiu entrar em eventos de gala sem convite ou ao menos uma história. Um homem de 46 anos, que se descreve como um camaleão e não tem nada para ostentar em sua vida -não da forma convencional- além de tropeçar em Madonnas e De Niros enquanto o resto da população fica fora das cordas, imaginando como e por que ele faz isso.

"Gosto do glamour, do brilho, da ação", disse Minutoli quando perguntado por que alguém se arriscaria como ele para obter alguns momentos Kodak. "É inebriante. Acho que se pode dizer que sou viciado."

Nasce um hobby

Estamos comendo pizza em um dos bistrôs favoritos de Minutoli, em North End, durante sua recente passagem por Boston. Minutoli foi criado em Attleboro, e está visitando seus velhos fantasmas para um documentário que está sendo feito sobre sua vida de penetra. Sentados à mesa estão dois produtores de Los Angeles, David Keith e Chris Allen, que acompanham Minutoli desde fevereiro compilando material para o projeto que esperam terminar neste ano.

Keith encontrou Minutoli oito anos atrás e descreve-o como um cara muito legal, com um hobby muito estranho.

"Ele não faz para irritar ninguém e certamente nós não justificamos furadores de festa", diz Keith, que está financiando o filme. "Só achamos um personagem fascinante que as pessoas vão querer conhecer."

Allen diz que nem todos acham Minutoli heróico, mas sim patético.

"'Vai fazer alguma coisa com a sua vida!' Ouço muito isso", diz Allen. "Mas a maior parte das pessoas ficam intrigadas com Michael. E ele tem os retratos."

Ah, as fotos. Se cada uma conta uma história, então que elas falem aos nossos corações que gostariam de ter acesso irrestrito às celebridades.
Porque Minutoli enfrentou muitos obstáculos para consegui-las.

Há a fase de gênese desse épico peculiar, o show de Madonna de 1989. Foi então que ocorreu pela primeira vez a Minutoli que um pouco de cara de pau poderia levá-lo longe.

"Vi que estava se formando uma fila para entrar atrás do palco; entrei nela e passei direto pela segurança", lembra-se Minutoli. "Subitamente, estava ao lado de Warren Beatty. Eu nunca tinha passado por algo assim na minha vida."

Abordado por um segurança, foi liberado com uma advertência e decidiu que tinha encontrado sua vocação. Ou ao menos, uma forma de passar a noite. Mais tarde, falou para sua esposa que ia à noite de entrega do Oscar. "Ela me olhou e disse: 'Como?'" lembra-se Minutoli sorrindo. "Não tinha a menor idéia, mas entrei."

Sua fixação com a fama começou em Attleboro, onde cresceu freqüentando shows de rock no Garden e Orpheum e "sonhava em ser Billy Joel". Depois que sua mãe morreu, quando tinha 18 anos, ele partiu para a Califórnia para começar uma vida nova. Essa vida pode não ser muito, mas as fotos são outra coisa.

"Suas histórias são realmente inacreditáveis", diz Joanna Gonzáles, produtora do programa da Kabc "Eye on L.A.", que apresentou a história de Minutoli recentemente. "Não sei quantos outros como ele, mas sua capacidade de entrar em toda parte é definitivamente impressionante."

Minutoli costumava carregar um livro de autógrafos, até que ficou grande demais e passou para uma câmera descartável. Nenhuma das centenas de fotos que tirou tem datas ou explicações. "Tenho todos os dados aqui", diz, batendo na cabeça.

Além de uma postura otimista, seu maior trunfo talvez seja a paciência. Ele estuda metodicamente cada local procurando uma entrada lateral que não esteja vigiada ou um convidado que esteja partindo e não se incomode em dar seu convite. Algumas vezes, só o que precisa é passar por uma porta externa.

Uma vez dentro, não tem vergonha em roubar os holofotes, como fez no Grammy de 2004 quando simplesmente levantou-se de seu assento e andou para o palco com o OutKast. Em casa, a filha de Minutoli estava assistindo televisão e gritou: "Olha, lá está o papai!"

O preço de se aproximar do estrelato

Até agora, Minutoli só foi preso uma vez.

"Foi no Oscar, depois de 11 de setembro", disse ele. "Eu estava sentado ao lado de Robert Redford quando um detetive pediu para ver minhas credenciais e me algemou." Preso junto com meia dúzia de outros penetras, ele recebeu ordem do juiz para ficar longe do Teatro Kodak por um ano. Neste inverno, Minutoli recebeu uma carta da Academia advertindo-o para manter a distância. Ainda assim, ele ainda conseguiu furar a festa de Vanity Fair que todo mundo queria entrar.

"Fico mais chateado quando não consigo levar um amigo comigo", confessa. Ele estima que existam em torno de 50 arrombadores de festas sérios trabalhando em Hollywood, e talvez cinco a 10 do seu nível. Alguns o fazem pela boca-livre, outros para tirar fotos ou ver as estrelas. "Você não terá sucesso sem auto-estima, porém, e eu não sou tímido", diz ele. "Para tirar uma foto com Barbra Streisand, você tem que ser agressivo. Outros penetras já tentaram me despejar. Em Hollywood, todo mundo é egoísta e invejoso."

Uma das ações mais audaciosas de Minutoli foi em fevereiro de 2005, quando invadiu o show em tributo a Brian Wilson. Minutoli estava na coxia quando um dos músicos saiu do palco. Imaginando que Minutoli era um músico convidado, o tecladista convidou-o a sentar-se com ele. Minutoli acabou cantando a harmonia de "Fun Fun Fun".

"Os penetras me olharam com respeito", disse Minutoli. "Peguei minha sacola de lembranças e saí."

Sua escolha de estilo de vida tem seu preço. Seu casamento de 21 anos está abalado, sua mulher e filha se mudaram para Montana. Ele ainda vê seu filho Anthony, 19, que freqüenta a faculdade do Sul da Califórnia, mas esse relacionamento também tem um uma história complicada. Anthony, que aparece em uma dúzia de fotos de seu pai, sofre de alopecia areata, uma doença de pele que freqüentemente resulta em perda de cabelo. Minutoli alega que nunca usou a condição do filho como desculpa para entrar em eventos VIP -apesar de Rosie O'Donnell uma vez uma vez ter acusado Minutoli de fingir que seu filho era vítima de câncer.

"Eu nunca o usaria dessa forma, nem nunca falei dele assim", disse Minutoli. "O fato é que quanto mais pessoas eu trago comigo, mais difícil é de entrar."

Ainda assim, Minutoli admite, muitos amigos o desertaram desde que se transformou nessa espécie curiosa de festeiro.

"Mesmo que as contas não estivessem pagas, minha prioridade sempre foi ir aos shows", diz ele. "Eu não queria que me custasse meu casamento. Ainda acredito que posso salvá-lo, mas não vai acontecer da noite para o dia. Minha mulher costumava dizer: 'Billy Joel não vai pagar meu aluguel.' Ela está certa."

Minutoli promete que vai mudar suas prioridades durante o verão e recuperar sua vida. Talvez sim, mas tem mais uma foto que antes gostaria de acrescentar a sua coleção.

"Mick Jagger", diz Minutoli. "Por quê? Porque na minha próxima vida quero ser Mick." Deborah Weinberg

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