Estamos no meio da renascença masculina

Johnny Diaz

Aaron Swan é um sujeito másculo. É treinador físico. Ele bebe cerveja com seus amigos no Whiskey's nos finais de semana e é grande fã do Red Sox.

Jack Bauer, que tortura terroristas no drama de televisão "24", é um de seus heróis.

Por quê?

"Ele não segue as regras. Não tem tempo para bobagens", diz Swan, 23, que estava lendo "Now I Can Die in Peace", livro sobre a vitória do Red Sox. "Jack Bauer faz o que tem que fazer para realizar o serviço."

Nos últimos anos, esse estilo de masculinidade era sobrepujado pela popularidade dos homens educados, engomados e arrumados, chamados metrossexuais. Mas nossa cultura está voltando sua atenção para os homens másculos, homens comuns que usam botas para trabalhar, trocam eles mesmos o óleo do carro, cortam o cabelo em barbeiros e não teriam a menor idéia de onde fazer as unhas dos pés ou uma máscara de argila.

Este aceno à macheza pode ser encontrado nos filmes -desde o mais recente da série "Missão Impossível" até o novo "Superman", e a introdução de "Nacho Libre", em que um cozinheiro corajoso transforma-se em lutador para salvar um orfanato mexicano. A mesma tendência pode ser vista em séries de TV como "Prison Break" e "House". A indústria literária observou o movimento. Novos títulos, que vão do trabalho acadêmico de um professor de Harvard até a reclamação de um estudante universitário ao "Real Men Dont Apologize", de Jim Beluschi, lidam com a idéia da masculinidade. O personagem de Vince Vaughn em "Separados Pelo Casamento" seria um porta-voz desses homens desajeitados.

O conceito também está sendo usado para vender outros produtos. No novo comercial da Burger King, homens fortes marcham pelas ruas declarando: "Coma feito homem, homem!" para promover o hambúrguer duplo Texas Double Whopper.

No novo comercial "Man Law", da Miller Lite, um grupo de homens, inclusive o antigo ator macho Burt Reynolds, senta-se em torno de uma mesa e discute questões masculinas como se ainda é uma coisa de macho bater na mão do amigo, no gesto chamado "high-five".

Nesta Semana da Moda em Nova York, modelos barbudos desceram as passarelas.

Ryan Seacrest assumiu um visual mais desgrenhado e reservado na atual temporada em "American Idol", e nossa obsessão com aqueles pescadores brutos do "The Deadliest Catch" da Discovery Channel explica parte do sucesso do docudrama. A série "Lost" é alimentada por um elenco amplo de homens másculos: pessoas como Locke e Sawyer, arquétipos de caçadores; Jack, líder da manada; Michael, que se preocupa apenas com o bem-estar do filho, e Sayid, ex-especialista em tortura da Guarda Republicana do Iraque. A banda de indie rock Man Man, cujos membros usam bigodes e tatuagens, é tão máscula que usa a palavra duas vezes.

Até a cultura gay deu uma embrutecida. Os personagens de "Brokeback Mountain" eram rudes. O mais másculo dos programas, "Os Sopranos", da HBO, inclui uma história de um mafioso gay chamado Vito, que costumava passear em uma cidade pequena de New Hampshire onde todos os gays são bombeiros ou atletas.

Estaremos passando pela era dos homens?

"Cresci em uma época em que mantínhamos o cabelo aparado. Não era questão de provar nada para ninguém. Se você não quisesse se barbear, não barbeava", diz Bernard Washington, 51, enquanto assistia a ESPN e esperava sua vez na Unique Cuts, em Lower Mills. Washington, carteiro que mora em Mattapan, diz que viu alguns caras deixarem o visual de estilo por um visual mais relaxado ultimamente -mas acrescenta que não foi um deles. "Sou um cara macho", diz ele.

O que exatamente constitui um macho depende de cada um. Pode ser o cara que não se preocupa muito com seu visual ou com o que veste. Pode ser o homem que trabalha duro e se exercita, compra suas roupas na Old Navy ou bebe cerveja e joga pôquer nas noites de sexta. Pode simplesmente ser um trabalhador que volta para casa toda noite, para sua mulher e filhos. Mas definitivamente não é do tipo que gasta US$ 60 (em torno de R$ 140) em um corte de cabelo, compra roupas na Banana Republic e assina a revista Details.

Não é nada de novo, não é que a masculinidade jamais desapareceu. O conceito estava "desempregado", disse Harvey Mansfield, professor de Harvard que trata do assunto em seu novo livro "Manliness" (cuja capa tem o título em letras grandes e másculas). Mansfield diz que a masculinidade tem sido ignorada em nossa "sociedade sexualmente neutra", em que o pronome impessoal masculino "homem" foi jogado fora para incluir as mulheres, em nome do que é politicamente correto.

"Estamos formando uma sociedade que se baseia o mínimo possível no sexo", disse ele. "(Atualmente) o homem tem que ficar um pouco envergonhado de ser homem. Estou tentando trazer de volta a palavra 'masculinidade'. Não é respeitada. Serve como um padrão útil. Você vê exemplos nos filmes ou em esportes extremos."

A masculinidade, diz ele, é personificada no sujeito que "lida bem com o drama e prefere tempos de guerra, conflito e risco". É o cara que mantém a estrutura em um momento de crise e lidera o caminho. Não necessariamente ele tem que ter um carro bom, mas certamente sabe consertar um.

Mansfield cita John Wayne, Humphrey Bogart e Ernest Hemingway como modelos de masculinidade. As versões modernas incluiriam o ator Russell Crowe e o secretário de defesa Donald Rumsfeld.

Ou alguém como o ator Tom Hanks, diz Ken Belony, 21, de Rever.

"Ele é realmente homem, é arrumado, mas não demais", diz Belony. "Ele é fácil de lidar e tranqüilo", alguém com quem você bateria um papo. Hanks acontece de estar na capa da edição atual da Esquire, cuidando do churrasco com uma cerveja na mão, sob a manchete "O cara mais normal de Hollywood".

Belony e seu amigo Peter Chen, 19, tiveram problemas quando tentaram pensar em um exemplo mais próximo de sua idade que se encaixasse nos moldes de homem macho de hoje. "Ninguém da nossa geração é assim. Nesta geração, você tem uma variedade de tipos de homens. É uma coisa de caras mais velhos", diz Chen.

A falta de jovens exemplos de homens másculos inspirou George Ouzounian, que usa o nome de Maddox, a escrever "The Alphabet of Manliness", que ele espera simbolizar a "morte do homem afeminado", disse brincando. Seu livro é um guia divertido de A-Z sobre o que os homens gostam. É uma leitura inflamatória, com um tom misógino. A capa mostra um sujeito fortão dando um soco em um gorila gigante.

"Acho que muitos caras estão olhando para os pais e pensando que não vêem mais pessoas assim atualmente", disse Ouzounian, 28, que mora em Salt Lake City e tem um site popular (e politicamente incorreto), que é modestamente chamado de "A Melhor Página do Universo". "Falo mais pela minha geração do que pela de meu pai."

Ouzounian considera seu pai o modelo tradicional de homem. Ele serviu o Exército, conserta carros e tem unhas sujas. Ouzounian também dá como exemplos atores como Kirk Douglas, Chuck Norris, Charles Bronson ou até Tim Allen, que fazia o papel de um faz-tudo na comédia "Home Improvement".

Para Jim Fahey, de Cambridge, a masculinidade se resume à substância acima do estilo -e estilo é algo que admite não ter.

"É o cara que vai trabalhar todos os dias e sustenta a família -ele cumpre suas responsabilidades. Você não tem que se enfeitar para ser homem", disse Fahey, que usa botas para trabalhar. "Minha principal preocupação é vestir as calças de manhã. Se eu tiver uma meia preta e outra branca, estou feliz. Esse o homem da renascença que eu sou." Deborah Weinberg

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