Drogas para tratamento da Aids poderão ser usadas como pílulas preventivas

Stephen Smith
em Toronto

As mesmas drogas que fizeram com que a Aids deixasse de ser uma sentença de morte e se transformasse em uma doença tratável estão agora revelando um potencial promissor para a prevenção inicial contra a infecção pelo HIV.

Pesquisadores em quatro continentes estão avaliando se as drogas para o tratamento da Aids - quando tomadas diariamente ou antes de relações sexuais de risco - seriam suficientemente seguras e eficientes para serem utilizadas como instrumentos de prevenção. Nesta semana, os cientistas apresentaram a primeira evidência de que pessoas saudáveis podem tomar tais medicações sem sofrerem sérios efeitos colaterais.

Com a ausência de uma vacina no horizonte, os cientistas que participaram da 16ª Conferência Internacional da Aids previram que uma pílula de prevenção poderia ser útil para reduzir a velocidade de avanço de uma epidemia que a cada ano se alastra para um grupo adicional de quatro milhões de adultos e crianças em todo o mundo.

Isso se constituiria em um progresso fundamental na África e na Ásia, onde o vírus é mais comum. Os pesquisadores afirmaram que um medicamento preventivo poderia ser especialmente efetivo no mundo em desenvolvimento, onde permitiria que as mulheres se protegessem melhor, em vez de dependerem totalmente do uso da camisinha pelos homens.

"Existe uma enorme necessidade de métodos controlados pelas mulheres", explica Joep Lange, um holandês que é especialista em HIV. "E o que poderia conferir maior controle às mulheres do que a ingestão de uma pílula protetora pela manhã?".

Especialistas em prevenção visualizam uma droga que seja usada por pacientes diferentes de maneiras diferentes. Algumas pacientes, como as prostitutas, poderiam tomar o medicamento continuamente. Outras, que correm um risco mais episódico, tomariam a pílula antes de se engajarem em um comportamento sexual arriscado.

Mas sobre tais pesquisas pairam muitas controvérsias.

No Camboja, por exemplo, um estudo com prostitutas foi suspenso depois que ativistas acusaram os pesquisadores de sonegar informações sobre outros métodos preventivos, de forma que houvesse mais mulheres infectadas a serem estudadas.

Os pesquisadores disseram que forneceram amplo aconselhamento às mulheres a respeito de como se protegerem.

Houve também advertências de especialistas em Aids, que questionam a sensatez de se usar um remédio para tratamento da doença como medicação preventiva.

Eles temem que, caso alguém se torne HIV-positivo enquanto estiver tomando a pílula, o vírus acabe se tornando resistente à droga - o que poderia fazer com que o remédio se tornasse inútil como forma de tratamento.

De várias maneiras, a busca por uma pílula preventiva encarna as esperanças e a frustração no campo das pesquisas da Aids. Tal pílula precisa ser poderosa, dizem os especialistas, mas também segura; amplamente disponível, mas de forma que não seja utilizada incorretamente.

E ela precisa estar tão disponível no mundo em desenvolvimento quanto no Ocidente.

A busca por uma pílula preventiva e outros métodos de bloquear a exposição ao HIV também reflete o desencanto dos pesquisadores com a chamada "abordagem ABC" - abstinência, "ser fiel" (Be faithful, em inglês), e camisinhas - que é defendida pelo governo Bush.

"Eu gostaria de acreditar que a prevenção do HIV será algo mais do que o ABC", disse na conferência o pesquisador sul-africano Gita Ramjee, que foi fortemente aplaudido.

O entusiasmo por uma pílula preventiva se estende para além da comunidade científica, e figuras famosas como Bill Gates e Bill Clinton defendem esta causa.

"A prevenção oral não está caminhando tão depressa como deveria", afirma Gates, cuja fundação financia alguns dos experimentos. "Nós nos culpamos por não termos exercido mais pressões para acelerar esse processo".

Nesta semana, pesquisadores apresentaram os resultados de um estudo que mostra que a pílula de prevenção contra o HIV é segura.

Cientistas da Family Health International, uma organização de saúde pública sem fins lucrativos, recrutaram 936 mulheres em Gana, Camarões e Nigéria para participarem de um estudo de uma droga para o tratamento da Aids chamada tenofovir.

Eles descobriram que as mulheres que tomaram uma pílula de tenofovir diariamente, e que foram acompanhadas, em média, durante seis meses, não corriam um risco maior de sofrer complicações de saúde do que aquelas que ingeriram placebos.

Tanto para a prevenção quanto para o tratamento, a pílula atua impedindo que o vírus se estabeleça no organismo após penetrar em uma célula humana. A droga foi escolhida para as experiências sobre a prevenção porque ela mostrou ser potente e segura nos pacientes aidéticos, e também porque estudos anteriores com macacos revelaram que ela prevenia a infecção pelo vírus.

Mas o estudo com humanos não conseguiu determinar se a droga realmente impede que as mulheres sejam infectadas pelo HIV.

Houve um número tão reduzido de infecções em cada um dos grupos envolvidos no estudo que os pesquisadores foram incapazes de chegar a qualquer conclusão quanto à sua eficiência, afirma Leigh Peterson, a cientista que coordenou o estudo.

Apenas oito mulheres foram infectadas. Seis delas receberam placebos, e duas tomaram a droga.

Peterson diz que esperava que cerca de 30 das mulheres contraíssem a Aids, mas conta que após o aconselhamento, elas tiveram uma tendência de adotar práticas sexuais mais seguras e, portanto, reduziu-se a probabilidade de que contraíssem o vírus.

E, embora encorajador, o relatório inicial para determinar se o medicamento lançado há cinco anos é seguro para as pessoas saudáveis não informa se a pílula preventiva continuará sem provocar efeitos colaterais caso seja usada durante anos.

"Não sabemos o que acontecerá com uma pessoa que tome tenofovir durante dez anos", diz Lange, o pesquisador holandês. "Simplesmente não sabemos".

Mais testes estão sendo realizados para determinar se - nas duas mulheres que foram infectadas enquanto tomavam tenofovir - o vírus apresentou qualquer sinal de desenvolver resistência à droga.

Uma especialista do Hospital Geral de Massachusetts, a médica Rochelle P.Walensky, afirma que a questão da resistência diz respeito em grande parte ao desenvolvimento de uma pílula preventiva, porque os pacientes resistentes ao vírus poderiam deixar de contar com o tenofovir como uma potencial opção para o tratamento.

Existem atualmente cerca de 25 medicamentos contra a Aids, e os pacientes geralmente tomam um coquetel de três deles.

"Isso se torna uma questão de troca", explica Walensky. "Que nível de resistência o paciente estaria disposto a aceitar caso a droga fosse capaz de prevenir a transmissão?".

Pelo menos US$ 54 milhões estão sendo investidos globalmente em experiências com pílulas preventivas.

Mas em nove testes que se encontram em estágios variados, somente uma droga além do tenofovir está sendo usada. Os pesquisadores dizem que é preciso que se usem mais drogas para que se descubra a melhor pílula preventiva.

Lange e outros pesquisadores dizem que historicamente as companhias farmacêuticas se mostram cautelosas quando se trata de disponibilizar as suas pílulas para os estudos sobre a prevenção.

Elas alegam que uma coisa é fornecer uma medicação poderosa a alguém que esteja doente e disposto a aceitar os efeitos colaterais, e que outra bem diferente é administrar a droga a uma pessoa saudável.

O maior dos estudos envolve 1.600 usuários de drogas intravenosas na Tailândia.

Mas um proeminente ativista tailandês diz que mesmo se esse estudo e outros revelarem que o remédio é seguro e efetivo, não existe nenhuma garantia de que ele irá parar nas mãos daquelas pessoas que correm o maior risco de serem expostas ao vírus.

Nimit Tienudom, um líder da fundação tailandesa que ajuda a fornecer medicamentos aos pacientes com Aids, quer saber quem financiará as pílulas preventivas.

"Quando estamos conversando em Toronto ou nos Estados Unidos, uma pílula de 57 centavos de dólar é muito barata", argumenta o ativista. "Mas para o povo tailandês isso é muito dinheiro". Danilo Fonseca

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