Hizbollah se mobiliza para ajudar rapidamente os libaneses desabrigados

Thanassis Cambanis, em Beirute

As grandes promessas do líder do Hizbollah, Hassan Nasrallah, no sentido de reconstruir o Líbano, começaram a se materializar na última sexta-feira na Escola de Segundo Grau Shahed, na forma de pacotes de US$ 12 mil, em notas de dólar norte-americano, oferecidos sem cerimônia às pessoas que tiveram que deixar as suas casas para trás.

"Cada vez gosto mais do Hizbollah", afirmou Riyadh Nasser, 53, enquanto aguardava em um subúrbio no sul de Beirute pelo dinheiro do movimento islamita xiita. O dinheiro fornecido a Nasser tem como objetivo possibilitar que ele pague o aluguel residencial por um ano, e também aquisição de uma nova mobília, até que a sua casa original possa ser reconstruída.

Pôsteres coloridos de Nasrallah e do fundador da República Islâmica do Irã, grande aiatolá Ruhollah Khomeini, podiam ser vistos em volta de Nasser na sala de aula transformada em escritório da Jihad da Construção, conforme o Hizbollah denomina o seu departamento de engenharia.

O governo do Líbano ainda está falando sobre o seu próprio plano de reconstrução, mas o Hizbollah já movimentou a sua estrutura organizacional para enviar máquinas pesadas, centenas de engenheiros e milhares de trabalhadores para todo o país, desembolsando centenas de milhares de dólares, e, ao proceder dessa forma, superou as iniciativas do governo.

Repleto de dinheiro que, segundo o movimento é proveniente do Irã, da Síria e de outros doadores, incluindo entidades filantrópicas islâmicas e grupos xiitas, o Hizbollah foi capaz de contratar empreiteiras e de fornecer dinheiro aos desabrigados, antes mesmo que as hostilidades cessassem. A generosidade dos doadores permitiu que o Hizbollah planejasse a reconstrução com um orçamento que as autoridades do partido descrevem como sendo "ilimitado". Enquanto isso, o endividado governo libanês tenta obter junto a doadores ocidentais e árabes verbas para financiar a reconstrução.

Quando um cessar-fogo interrompeu na última segunda-feira uma guerra de um mês, Nasrallah prometeu que o "Partido de Deus", que lançou o Líbano no conflito após realizar uma operação bélica em Israel, também lideraria os esforços de reconstrução.

No decorrer da primeira semana do cessar-fogo, o intenso esforço do Hizbollah revelou como a velocidade e o poder do grupo contrastam com a ineficiente burocracia governamental. Com as suas iniciativas urgentes, o grupo também indicou aos libaneses que está pronto a se afirmar na dinâmica política de pós-guerra no país.

"O Estado libanês demora três meses para fornecer ajuda. As Nações Unidas três anos. Já o Hizbollah presta auxílio no dia seguinte", afirma Timur Goksel, que trabalhou como oficial de ligação no Líbano entre o Hizbollah e a representação das Nações Unidas no país durante mais de uma década, e que conhece bastante o grupo.

Enquanto as bombas israelenses ainda caíam sobre o Líbano, os tratores do Hizbollah já estavam retirando os destroços das estradas e ruas em torno das crateras abertas pelo bombardeio. A seguir, horas após o cessar-fogo, os engenheiros do departamento de obras públicas do Hizbollah começaram a fazer uma avaliação das casas, escritórios, estradas e infraestrutura destruídos em Beirute e no sul do Líbano.

Ao final da semana passada, eles já tinham passado à próxima fase, demolindo edifícios semidestruídos, e transportando destroços para a periferia das cidades e bairros.

"Assim como vencemos a guerra contra os israelenses, também venceremos esta batalha", garantiu o arquiteto Khodor Baalbaky, 24, que na tarde da última quinta-feira circulava em meio a centenas de quarteirões com edifícios destruídos no sul de Beirute.

Baalbaky tomava nota de cada prédio ou loja danificados em um determinado quarteirão. À sua volta equipes de construção retiravam o entulho do caminho a fim de dar início a um trabalho acelerado que Baalbaky acredita que possibilitará a reconstrução da maioria das residências particulares dentro de alguns meses.

O Hizbollah se define como sendo um movimento militante de resistência. Os Estados Unidos e Israel o consideram uma organização terrorista que pretende destruir Israel. Mas o Hizbollah se diferenciou de grupos similares na região pela eficiência dos serviços públicos que oferece ao seu eleitorado xiita.

O esforço de reconstrução do grupo tem também um outro objetivo -- desacreditar o governo secular, cujos líderes criticaram Nasrallah por arrastar o país inteiro para uma guerra que apenas o Hizbollah desejava.

"Temos que tomar conta o mais rapidamente possível das pessoas que ficaram ao nosso lado nessa crise", explica Abou Ahmed, 45, o funcionário do Hizbollah encarregado da reconstrução dos subúrbios intensamente bombardeados no sul de Beirute, nos quais moram centenas de milhares de aliados xiitas do Hizbollah. Assim como vários militantes graduados do Hizbollah, ele preferiu se identificar apenas pelo apelido.

Na sexta-feira ele lidava com uma multidão de voluntários, empreiteiros e pessoas desabrigadas em um centro improvisado de auxílio montado pelo Hizbollah em instalações emprestadas de um instituto de treinamento em computação. Ao fundo, vários telefones tocavam. Os funcionários do Hizbollah processavam documentos, enquanto Abou Ahmed conversava com engenheiros e empreiteiros pelo telefone.

O Hizbollah começou a distribuir pacotes de auxílio financeiro -- geralmente de US$ 12 mil -- e pretende, até o final da próxima semana, fornecer tal ajuda a todos os milhares de famílias dos subúrbios do sul de Beirute, que segundo o grupo necessitam de moradia temporária. A organização também pretende concluir até o final da semana que vem uma avaliação minuciosa de cada residência danificada ou destruída no país.

A mesa de trabalho de Abou Ahmed está coberta por um mapa detalhado que mostra cada edifício no sul de Beirute. Os prédios destruídos trazem uma marca vermelha, e os parcialmente danificados uma marca verde.

Com um telefone celular em cada ouvido, ele gritava com um voluntário para que pressionasse os empreiteiros a apresentarem as suas propostas imediatamente. No outro telefone, ele dizia a um homem chamado Mohammed que este poderia fazer as suas próprias reformas e receber uma indenização do Hizbollah, ou então aguardar dois dias até que uma equipe do grupo visitasse a sua casa.

"O que queremos é que a vida volte ao normal", disse ele.

Enquanto isso, o governo do Líbano tem procurado apresentar o seu próprio plano de reconstrução, mas a sua resposta tem sido nitidamente mais vagarosa do que a do Hizbollah.

"Estamos avaliando a situação, e trabalhando no esboço de um projeto de moradia que ajudaria as pessoas a reconstruir as suas casas danificadas", afirma Nayla Mouawad, ministra das Questões Sociais do Líbano. "Estamos presentes."

O Hizbollah lançou o seu programa de reconstrução com uma grande dose de propaganda. Nas áreas próximas à mídia internacional, o grupo colocou cartazes em inglês, de um vermelho vivo, sobre as pilhas de destroços, com os dizeres: "Trademark: Made in USA" ("Marca Registrada: Feito nos Estados Unidos"). Em Beirute e nas cidades do sul do país, como Tiro, os ativistas do Hizbollah têm alegado que são os responsáveis pelos trabalhos das equipes de reconstrução que foram na verdade despachadas pelo serviço de defesa civil do governo libanês.

O xeque Nabil Kawouk, a autoridade do Hizbollah responsável pelo sul do Líbano, agradeceu ao Irã e à Síria ao discursar sobre as ruínas de um edifício destruído em um subúrbio de Tiro, cidade litorânea no sul do Líbano, a 19 quilômetros da fronteira israelense.

"Este triunfo é um triunfo de todo o Líbano", disse ele. "Nós reconstruiremos o nosso país, deixando-o ainda melhor do que era antes."

No sul de Beirute, cartazes afixados a blocos de concreto e casas demolidas orientavam as pessoas a se dirigirem aos escritórios do Hizbollah, nos quais poderiam reivindicar indenizações. Os cartazes traziam instruções detalhadas a respeito da documentação necessária. Um alto-falante tocava uma marcha marcial do Hizbollah, com uma passagem enérgica: "América, América, você é o grande Satã", entoava o coro.

O Hizbollah demora apenas três dias para processar os pedidos individuais de indenização.

Em um país no qual a renda per capita é de US$ 6.200, a indenização de US$ 12 mil fornecida pelo Hizbollah se constitui em uma quantidade expressiva de dinheiro.

Em uma outra sala de aula da Escola de Segundo Grau Shahed, dois irmãos -- um rapaz e uma moça -- sorriram quando o Hizbollah lhes entregou US$ 12 mil em notas de dólar norte-americano. Não havia nenhuma pompa ou cerimônia, apenas um recibo a assinar.

"Estou surpresa com o fato de eles terem sido capazes de agir com tanta rapidez", disse a irmã, Rima Oweidat, 26. "Sinto que o Hizbollah é o governo. Ele nos protege."

A correspondente do "Boston Globe", Rana Fil, contribuiu de Beirute para esta matéria. Danilo Fonseca

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