Irã busca fonte de orgulho nas ciências

Anne Barnard
em Teerã

Cientistas de jaleco branco do Instituto Royan de Teerã trabalham diante de um quadro do líder supremo de barba e turbante da República Islâmica do Irã, chefe de um Estado que adota regras religiosas estritas que governam tudo, desde como as mulheres se vestem até que tipo de festas as pessoas podem dar.

Mas no campo de pesquisa de células-tronco embriônicas humanas, os cientistas trabalham com uma liberdade que pesquisadores americanos apenas sonham: ampla aprovação governamental, incluindo fundos federais para trabalhar com potentes células de embriões em estágios iniciais, que pesquisadores acreditam deter a promessa de curar muitas doenças.

Em 2002, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, deu sua bênção à pesquisa com os embriões excedentes gerados para tratamentos de fertilidade -trabalho fortemente restringido nos EUA, sob pressão de conservadores religiosos. O aiatolá chamou o esforço de "nobre", que reforça seu objetivo de tornar o Irã um líder científico do mundo muçulmano.

As ambições científicas que levaram o Irã a adotar uma das políticas mais abertas do mundo em relação à pesquisa com células-tronco também ajudam a explicar porque muitos iranianos apóiam o programa de pesquisa nuclear que levou seu país a um confronto internacional perigoso.

Os líderes do Irã declararam que o programa nuclear vai restaurar a glória científica do Irã, tocando em um orgulho nacional profundo em ciências e educação, que vem desde o Império Persa, quando foi centro de aprendizado mundial na Idade Média.

Teerã insiste que o programa tem como objetivo a energia nuclear para fins pacíficos, enquanto os EUA, Europa e ONU dizem que o país quer montar um arsenal nuclear para ameaçar Israel ou o Ocidente.

A dedicação iraniana à ciência é ao mesmo tempo um desafio e uma oportunidade à comunidade internacional: muitos iranianos acreditam no argumento do governo que a pesquisa nuclear é central para o desenvolvimento tecnológico. Mas aqueles com maior formação também desejam fazer parte do mundo acadêmico e tecnológico e temem que confronto gere maior isolamento.

Presos nessa discussão estão os cientistas iranianos. Com patrocínio do governo, eles puderam lançar iniciativas na área da saúde -desde planejamento familiar até terapia contra vício em drogas e prevenção de doenças cardíacas -que conquistaram a admiração de importantes pesquisadores americanos.

No entanto, eles também enfrentam restrições -do Ocidente e de seu próprio governo- que dificultam sua participação no intercâmbio científico internacional. Pesquisadores iranianos que viajam ao exterior podem ser acusados de contato excessivo com estrangeiros. E freqüentemente não conseguem vistos para países ocidentais ou árabes que não confiam no Irã.

A ciência está no centro da retórica nuclear iraniana. Em um discurso de 3 de janeiro, antes de o Irã voltar a enriquecer o urânio- um passo importante no desenvolvimento de energia nuclear e bombas atômicas- Khamenei exortou os estudantes iranianos a trabalharem duro para restaurarem a posição histórica do Irã como "mãe da ciência".

E quando a comunidade internacional foi contra o retorno ao programa de enriquecimento, que iniciou a atual crise, o presidente Mahmoud Ahmadinejad acusou o Ocidente de tentar impor um "apartheid científico", negando a um Estado muçulmano o direito à energia nuclear que outros países usufruem.

Na segunda-feira (21/8), Khamenei disse que o Irã ia continuar "com paciência e força" a buscar "os doces frutos" da pesquisa nuclear, assinalando que o governo rejeitaria o acordo internacional para suspender o programa em troca de incentivos econômicos e ajuda tecnológica para energia nuclear pacífica. O Conselho de Segurança da ONU deu ao Irã até o dia 31 de agosto para interromper o programa ou enfrentar possíveis sanções.

Quando perguntados recentemente sobre a controvérsia, iranianos -desde trabalhadores pintando uma cerca até jovens mulheres nas preces de
sexta-feira- recitaram: "A energia nuclear é nosso direito indiscutível". Freqüentemente riram ao dizer a frase, pois o mantra do governo tornou-se clichê.

Mesmo assim, muitos iranianos dizem que o a energia nuclear é símbolo de prestígio e desenvolvimento. Mas não está claro se esse apoio se estende ao desenvolvimento de armas nucleares.

Uma pesquisa conduzida em janeiro, pela Agência de Pesquisa de Estudantes Iranianos, mostrou que 85% dos iranianos apóiam a pesquisa nuclear. Mas esse número caiu para 64% quando os entrevistados souberam que o programa ia levar a sanções econômicas internacionais e 56% se fosse gerar ataque militar -números altos, mas talvez não tão altos quanto se esperaria depois de meses de exortação por um governo que aceita pouca dissensão.

No Instituto Royan, afiliado à Universidade de Teerã, pesquisadores falaram cautelosamente sobre a controvérsia nuclear. Reza Samani, porta-voz do instituto, disse que, no espírito de abertura científica, o governo deve permitir a inspeção das instalações nucleares -e que o Ocidente não deve aplicar padrões mais estritos no Irã do que em outros países.

"A ciência e a política devem ser separadas", disse ele. "Precisamos purificar a ciência."

Limitações internas e externas impostas aos pesquisadores iranianos ajudaram a promover um dos mais altos índices de "fuga de cérebros". Em 1990, de acordo com um estudo do Fundo Monetário Internacional, 15% dos iranianos graduados ou pós-graduados tinham emigrado para os EUA.

Em algumas áreas, os pesquisadores reclamaram da pressão oficial de inserir perspectivas religiosas em seu trabalho, mas em outras, a República Islâmica é notavelmente pragmática. Com a ampla disponibilidade de preservativos e informações sobre controle de natalidade, o índice de fertilidade do Irã caiu de 5,2 crianças por mulher em 1986 para 1,9 em 2002.

Membros da Faculdade de Saúde Pública de Harvard, que abrigou pesquisadores iranianos em um programa de intercâmbio de uma semana em 2003, ficaram impressionados que, nos 16 anos anteriores, o Irã tinha cortado seu índice de mortalidade infantil ao meio e aumentado a expectativa de vida de 60 para 70 anos.

O Irã cita o Instituto Royan como uma jóia em sua coroa científica.

Sua clínica de fertilidade, lotada de casais em uma recente manhã, diz ter um índice de sucesso de 40% e 20.000 pacientes por ano.

No corredor, entra a política: um aviso repete o chamado do governo para "apagar Israel do mapa". Mas em uma área mais reservada, de laboratório, os únicos slogans são citações de Khamenei exortando os pesquisadores a atingirem um nível de excelência científica.

Apertados em minúsculos laboratórios enquanto operam em camundongos geneticamente alterados ou estudam microscópios, os pesquisadores ganham cerca de US$ 500 (em torno de R$ 1.100) por mês.

Ainda assim são motivados pela promoção da ciência do país, particularmente com células-tronco embriônicas, cuja capacidade de desenvolverem-se em qualquer tipo de célula adulta gerou esperanças de poderem ser usadas para reparar órgãos danificados.

Samani, 38, o porta-voz, orgulhosamente tirou de seus arquivos uma carta de Khamenei, na qual o líder supremo elogiou os "objetivos nobres" dos pesquisadores, e predisse que iam trazer ao Irã "enorme riqueza humanitária".

"Mas", advertiu Khamenei, "tenham cuidado em não gerar um ser humano ao produzir partes idênticas de seres humanos" -ecoando amplo consenso científico contra a clonagem humana.

A luz verde para a pesquisa com células-tronco embriônicas foi possível porque os acadêmicos xiitas há muito determinaram que um feto em desenvolvimento só ganha uma alma aos 120 dias. Isso permite que a pesquisa de células-tronco no Irã evite o debate sobre aborto que a tornou controversa nos EUA.

Seis meses antes de Khamenei aprovar a pesquisa, o presidente Bush restringiu duramente o patrocínio federal para esse tipo de trabalho, porque requer a destruição de embriões humanos. A medida foi promovida por conservadores religiosos que comparam a pesquisa com assassinato.

A decisão de Bush significa que os fundos federais vitais estão disponíveis apenas para trabalhos com linhagens de células-tronco embriônicas estabelecidas antes de agosto de 2001, regra que os cientistas dizem restringir fortemente a pesquisa.

Mas os pesquisadores de Royan desenvolveram várias linhagens novas. Eles publicaram um artigo sobre a estrutura protéica de uma linhagem na revista respeitada Proteomics em junho, e divulgaram os dados em seu site.

Em um projeto com células-tronco adultas, menos controversas, células de medula óssea de um paciente serão transformadas em células de córnea para corrigir a visão. O instituto também está trabalhando para clonar um carneiro, um projeto que os clérigos iranianos elogiaram nas preces de sexta-feira.

O Instituto Royan trouxe alguns importantes médicos para o Irã. Sarah Berga, diretora de obstetrícia e ginecologia da Universidade Emory, participou de uma conferência em Royan em 2004.

Ela se lembra de seu espanto quando -coberta pelo estranho véu e longa capa que a lei iraniana exige das mulheres- ela assistiu um vídeo explicando que a pesquisa com células-tronco embriônicas era 'halal', permissível no islamismo.

"A ironia foi incrível", disse ela recentemente. "Era assim que gostaria que fosse nossa atitude em relação à pesquisa com células-tronco." Deborah Weinberg

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