Para famílias divididas das Colinas de Golã, sonhos de reunião

Anne Barnard e Sa'id Ghazali
em Majdal Shams, nas Colinas de Golã

Três anos atrás, Mai Abu Zeid , usando um vestido de casamento, caminhou pela terra de ninguém da Síria até as Colinas de Golã, ocupadas por Israel, de braços dados com o pai, Faris. Ela seguia para a sua terra nativa para se casar com um primo, e para morar em um local que só conhecia por meio das melancólicas histórias contadas pelo pai sobre casas de pedra e pomares repletos de macieiras.

Abu Zeid sabia que jamais poderia retornar a Damasco, a capital síria. Desde então, pai e filha só se encontraram uma vez, na Jordânia. Desde que Israel capturou as Colinas de Golã na guerra de 1967, cerca de 17 mil sírios moram no local em uma espécie de limbo. A maioria recusa uma oferta de cidadania israelense, mas eles são proibidos de visitar a Síria pelos dois países, já que estes continuam em estado de guerra.

"Foi como se o meu pai quisesse me mandar para cá porque parte dele desejasse retornar", disse na semana passada Abu Zeid, 29, sentada à soleira da sua casa, que fica de frente para os campos cultivados e os minaretes da planície síria. "Eu sou parte dele".

A guerra de um mês de duração entre Israel e o Hizbollah colocou as Colinas de Golã de volta na agenda política dos dois lados da fronteira, porque a Síria possui uma influência potencialmente poderosa sobre a duração do frágil cessar-fogo no sul do Líbano.

A Síria poderia ajudar o Hizbollah a se rearmar e a reconstruir as suas instalações, continuando a fornecer armamentos, e permitindo o fluxo de armas iranianas para a milícia através da sua fronteira. Ou o país poderia ainda reduzir o seu apoio ao Hizbollah, algo que dificilmente faria - a menos, talvez, que Israel e os Estados Unidos dessem a Damasco uma nova esperança de recuperar Golã.

Capitalizando uma onda de apoio árabe ao Hizbollah, o presidente sírio Bashar al-Assad declarou na semana passada que se Israel não quiser negociar, a "resistência" síria recuperará o território ocupado. O ministro da Segurança Interna de Israel, Avi Dichter, gerou um acalorado debate na última segunda-feira ao afirmar que a única fórmula para garantir uma estabilidade duradoura no Líbano é a devolução das colinas estratégicas.

O território de 1.165 quilômetros quadrados se eleva sobre a região de fronteira, o que lhe confere uma importância militar estratégica, sendo ainda uma fonte fundamental da água que flui para o Mar da Galiléia.

Há pouca indicação de que os Estados Unidos - um participante essencial em qualquer conversação - reavaliarão a sua política de isolar a Síria, oferecendo incentivos a Damasco para conter o Hizbollah. Vários colunistas israelenses esquerdistas esperam que haja uma mudança por parte de Washington: o colunista Ben Caspit escreveu na última terça-feira no jornal diário Ma'ariv que autoridades norte-americanas, vendo as "cinzas fumegantes" da sua política para o Oriente Médio, pediram informalmente ao embaixador dos Estados Unidos na Síria, Edward Djerejian, que fizesse um teste para a reabertura do diálogo com a Síria.

"Existe uma possibilidade de revisão dessa política", afirmou Djerejian em uma entrevista por telefone, enquanto viajava pela Europa. Mas ele se recusou a confirmar se lhe pediram que abrisse canais de negociação com a Síria, e um porta-voz do Departamento de Estado disse que não há planos para designar um enviado especial para o país.

Djerejian disse: "No longo prazo não haverá paz duradoura na fronteira libanesa-israelense, a menos que todas as partes façam parte da equação. Não creio que isso possa ser feito sem os sírios".

As conversações recentes não dão muita esperança aos Abu Zeid. Para eles, os mais barulhentos oponentes de Israel - Síria, Irã e Hizbollah - oferecem pouca ajuda no sentido de devolver Golã à Síria. E eles temem que o conflito recente tenha apenas feito com que os dois lados ficassem mais avessos a uma solução.

Faris Abu Zeid, atualmente sozinho no apartamento arrumado e ensolarado no qual Mai cresceu, se consola com o pensamento de que a filha está morando agora na vila que ele não vê desde 1967, quando saiu para estudar em Damasco alguns dias antes da guerra, tendo ficado preso no lado errado da fronteira.

"Ela está na sua terra", disse ele.

Sentado na sua sala de estar com o sobrinho, que é funcionário do departamento do governo sírio encarregado de lidar com a questão de Golã, Abu Zeid tomou o cuidado de elogiar o líder do Hizbollah, Hassan Nasrallah, que o governo sírio considera um herói por ter sobrevivido ao ataque militar israelense, e como um homem religioso que é bom na arte da "resistência".

Mas, segundo ele, a política é uma outra questão, e ele não acredita que o Hizbollah seja capaz de ajudar a Síria a recuperar as Colinas de Golã.

"Israel quer Golã para sempre, Se eles oferecerem as colinas de volta, vão impor condições políticas que serão impossíveis de se atender", disse ele.

Ele diz que enquanto isso o Irã aumentou a sua influência regional, mas que provavelmente não fará das Colinas de Golã uma prioridade.

Em Majdal Shams, a sua filha e o marido dela falam com mais liberdade.

"Não vejo qualquer esperança, mesmo após esta guerra no Líbano", diz Mai Abu Zeid. Segundo ela, a reunificação pela guerra é "improvável", e quando se trata de meios pacíficos, "a Síria não está pronta".

"Sem força, não há paz", acrescentou o seu marido, Riyadh, um trabalhador da construção civil. "Eu falo de força econômica, de boa administração, de um governo que sirva ao seu próprio povo. A Síria não conta com tal força. A Síria deveria dar liberdade ao seu próprio povo ante de liberar as Colinas de Golã".

O primeiro ministro de Israel, Ehud Olmert, disse na última segunda-feira que só dialogaria com a Síria caso Damasco deixasse de apoiar os grupos palestinos militantes Hamas e Jihad Islâmica, e parasse de fornecer ao Hizbollah armas como os mísseis antitanques que mataram vários soldados israelenses durante a guerra.

Reservadamente, autoridades e analistas sírios dizem que o país gostaria de reparar as suas relações com o Ocidente em troca de progressos nas negociações quanto a Golã.

Mas o porta-voz do Ministro das Relações Exteriores de Israel, Mark Regev, disse que a decisão de Assad de se aliar mais estreitamente ao Irã, que defendeu a destruição de Israel, desqualifica o líder sírio para conversações. Regev observou as diferenças entre o presidente sírio e o seu falecido pai, Hafez al-Assad, com quem os israelenses mantiveram por várias vezes negociações "duras", tentando sem sucesso chegar a um acordo até 2000. Em 2002, Bashar Assad se ofereceu para reiniciar as conversações, mas foi desprezado pelo primeiro-ministro Ariel Sharon.

"Ele era antes de tudo um sírio... não permitindo que os iranianos ditassem as regras", disse Regev, referindo-se ao velho Assad. "O mesmo ocorria com relação ao Hizbollah. O Hizbollah era como um cão preso com uma corrente - ele os soltava e prendia quando desejava".

Israel anexou as Colinas de Golã em 1981, mas a Organização das Nações Unidas (ONU) definem a região como território ocupado. Israel criou indústrias lucrativas de produção de vinho, de engarrafamento de água e de turismo nas suas encostas verdejantes, bem como um resort de esquiação no Monte Hermon e comunidades nas quais vivem 18 mil israelenses.

Segundo uma pesquisa divulgada na última quarta-feira pela Rádio Israel, 64% dos israelenses se opõem à proposta de Dichter de negociações com a Síria, enquanto 27% a aprovam.

Mas, em conversas privadas, muita gente expõe uma visão mais complexa.

Tai Amlani, 47, mora no norte de Israel, de onde se avistam as imponentes Colinas de Golã, em um kibbutz recentemente atingido por mísseis do Hizbollah. Mas ele estaria disposto a devolver as Colinas de Golã em troca de uma paz real que proporcionasse benefícios econômicos, um fim à retórica síria contra Israel e uma zona desmilitarizada na fronteira - coisas que ele acredita que demorariam anos para se alcançar.

"Os sírios não nos ameaçam nem um pouco. Fiquei muito mais amedrontado com o Hizbollah", disse ele.

Nas Colinas de Golã, os sírios, em sua maioria drusos, um grupo que muitos muçulmanos consideram herético, também têm sentimentos mistos quanto à questão. Os jovens absorveram parte da cultura israelense, trabalhando em cidades israelenses, falando hebraico e desprezando as vestimentas tradicionais.

Eles só podem ir à Síria para estudar ou se casar. Mai conheceu Riyadh quando este veio estudar na Universidade de Damasco. Ela se recorda de que ver Riyadh foi como enxergar a face da vila do seu pai.

O seu pai não queria deixá-la partir, mas os dois estavam apaixonados. "Foi uma questão humanitária!", brinca ele.

Eles receberam permissão para cruzar a fronteira com um aviso prévio de dois dias. Mai se apressou em comprar um vestido de casamento.

Apenas 16 pessoas tiveram permissão para cruzar a terra de ninguém para a cerimônia de casamento em um posto de fronteira.

Após o casamento, Faris teve que retornar quando Mai seguiu em frente.

Bernard contribuiu de Damasco; Ghazali das Colinas de Golã. O correspondente Matthew Kalman contribuiu de Jerusalém e Farah Stokman, da equipe do "Boston Globe", de Washington D.C. Danilo Fonseca

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