Iranianos buscam liberdades, mas evitam influência dos EUA

Anne Barnard
em Teerã

Emad Baghi é um ativista de direitos humanos que passou três anos na prisão por seus escritos. Shadi Vatanparast é uma promotora de bandas de rock underground iranianas que, não usa o lenço obrigatório na cabeça em seu escritório. E Fazel Mehbadi é um mulá que prega uma mensagem perigosamente dissidente na República Teocrática do Irã: a religião deve ser separada do governo.

Esses iranianos, de uma forma ou de outra, querem maior democracia e pluralismo em seu país, e assumiram riscos para mudar a sociedade. Eles são o tipo de pessoa que as autoridades americanas querem apoiar. Ainda assim, concordam que a última coisa que precisam é da ajuda dos EUA.

"A melhor coisa que os americanos podem fazer pela democracia no Irã é não apoiá-la", disse recentemente Baghi, o ativista, em seu escritório, ao lado de uma pilha de livros politicamente arriscados. Entre eles: "Tragédia da Democracia no Irã", "Clérigos e Poder" e um estudo que critica o governo em seus próprios termos, usando ensinamentos islâmicos para indiciar o sistema de justiça do Irã e suas prisões e execuções arbitrárias.

Receber ajuda americana -em dinheiro ou simplesmente em declarações de
apoio- pode destruir a credibilidade interna dos defensores de democracia, diz Baghi e muitos outros iranianos críticos do governo. Eles preferem traçar seu próprio curso, promovendo mudança gradual traçando um caminho entre a acomodação e o conflito com os clérigos muçulmanos que governam o país.

Seus objetivos são variados, mas todos poderiam entrar em uma lista de desejos americana: Baghi promove o Estado de direito; Mehbadi, o clérigo, quer mais poder para autoridades eleitas; Vatanparast, a promotora musical, quer dar vazão ao desejo dos iranianos de liberdade social e cultural, uma força que já levou o governo a aceitar tacitamente um código de vestimenta mais flexível para as mulheres.

Mas todos concordam que a opinião dos iranianos sobre os EUA foi obscurecida pelo caos e a violência que vieram com a democracia importada dos EUA no Iraque e com a política americana para o Oriente Médio, que os iranianos vêem como apoio indiscriminado a Israel -especialmente durante a guerra no Líbano. Depois de décadas de desconfiança e incompreensão entre os dois países, as novas tensões fizeram os iranianos duvidarem que a democracia ao estilo americano melhorará suas vidas.

A opinião é a mesma entre ativistas de democracia em torno do Oriente Médio, do Cairo a Damasco. Mas é particularmente impressionante no Irã, um país com população sofisticada e uma enorme diáspora nos EUA, que pareceria território fértil para os esforços americanos de promoveram questionamentos ao governo, como fez a Voz da América na União Soviética.

O governo Bush planeja gastar US$ 85 milhões (em torno de R$ 187 milhões) até o final de 2007 para promover a democracia no Irã -muito mais que os atuais US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 22 milhões). O novo plano inclui US$ 50 milhões para expandir as transmissões em persa via satélite e torná-las fortes o suficiente para superarem as interferências iranianas. O resto da verba seria dedicado a apoiar organizações cívicas e políticas e ativistas de direitos humanos dentro e fora do Irã.

O governo iraniano entrou com uma queixa diplomática formal denunciando o plano como interferência americana. A retórica oficial associa a "democracia liberal" americana às mortes de colegas muçulmanos no Iraque e Líbano.

Mais digna de nota foi a reação do povo contra o plano -e contra os EUA. No entanto, mesmo não aprovando a política americana em geral, os iranianos ainda gostam dos americanos e da cultura americana, atraídos pela tecnologia, moda e música.

Décadas de desconfiança

Vatanparast, 26, promotora de música, usa jeans e tênis sob sua jaqueta obrigatória até as coxas e lenço na cabeça. Ela é bem versada em música americana, desde o jazz ao rap, e tem até um CD de música klezmer em sua escrivaninha, uma pequena rebelião contra um governo que freqüentemente vilipendia os judeus. No entanto, ela não mais considera os EUA como modelo.

"O que os EUA estiverem vendendo, não estou comprando", disse ela em manhã recente, no escritório do centro de Teerã onde ela e outros jovens iranianos dirigem um festival de música virtual. Eles promovem bandas que operam fora da indústria musical aprovada pelo governo, disponibilizando suas faixas em um site onde os fãs votam nos favoritos. O primeiro festival em 2003 atraiu
21 bandas; neste ano, havia 87.

"Não se pode mudar um país atacando-o. Você mata as pessoas para criar mudança?" disse ela. "O preço para esta mudança é alto demais."

A ira iraniana contra o governo americano vem desde a Guerra Fria, em 1953, quando a CIA ajudou a formular a derrubada do primeiro-ministro iraniano democraticamente eleito, Mohammed Mossadegh, para dar mais poder ao xá. Os iranianos derrubaram a monarquia do xá em 1979, liderados por clérigos que lançaram o primeiro governo islâmico do mundo moderno e mantiveram os americanos reféns na embaixada dos EUA por 444 dias. As relações diplomáticas com Washington nunca foram restauradas.

Milhares de residentes em Teerã acenderam velas em uma praça pública para mostrar simpatia pelos americanos depois dos ataques de 11 de setembro. Mas desde então, a desconfiança cresceu. O presidente Bush rotulou o Irã como parte de um "eixo do mal", e os iranianos temem um ataque militar americano.

As tensões cresceram em torno de um possível programa iraniano de armas nucleares e do patrocínio da milícia libanesa Hezbollah. E os iranianos viram as invasões americanas dos países vizinhos Afeganistão e Iraque, que prometiam liberdade e democracia, trazerem anos de violência em suas fronteiras leste e oeste.

Em um país que se vangloria de 2.500 anos de história e identidade persa e de um sistema político com muito mais flexibilidade do que o Iraque de Saddam Hussein, encontrar uma solução doméstica é uma questão de orgulho, explicou Vatanparast.

De algumas formas, essa abordagem está funcionando. Com os anos, as restrições do governo impostas em nome da pureza islâmica têm sido flexibilizadas, sob pressão popular que Vatanparast compara a um pinto saindo da casca: "As pessoas estão fazendo pressão de dentro. (A casca) está ficando cada vez mais fina."

A polícia atualmente faz vista grossa para a bebida alcoólica em situações privadas, apesar do álcool ser proibido, e não costuma impedir os casais de se socializarem em parques e restaurantes. Vatanparast lembra-se de não poder vestir meias coloridas na escola fundamental, enquanto agora muitas mulheres trocaram as longas capas pretas, ou chadors, que eram obrigatórias, por jaquetas menores e lenços coloridos que expõem parte do cabelo.

Ao mesmo tempo, muitos iranianos dizem que a tolerância diante das novas liberdades sociais é em parte uma estratégia do governo para esfriar o descontentamento enquanto ataca a dissensão política.

Uma dissensão limitada

O parlamento iraniano e o presidente são eleitos em uma verdadeira competição -os eleitores algumas vezes dão vitórias surpreendentes- mas por fim o poder descansa com um corpo não eleito de clérigos que nomeia o supremo líder todo poderoso e aprova os candidatos aos cargos eleitos, rotineiramente desqualificando a maior parte dos concorrentes.

O Estado ainda mantém prisioneiros políticos, como Ramin Jahanbegloo, filósofo proeminente preso em abril por acusações vagas de associação com estrangeiros. Outro prisioneiro, Akbar Mohammedi, preso depois de liderar protestos estudantis em 1999, morreu durante uma greve de fome no último mês. E neste mês o governo proibiu o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da vencedora do prêmio Nobel Shirin Ebadi, grupo que expõem abusos do regime.

Vatanparast não tem ilusões e insta os músicos a estabelecerem limites pragmáticos.

"Não há democracia ou liberdade de expressão, então aconselhamos o uso de temas apolíticos", disse ela.

Mas ela também sabe expandir os limites. Se uma canção elogia Ali, a figura mais reverenciada na religião estatal xiita, pode ter um ritmo de rock moderno, disse ela. Por outro lado, algumas músicas tradicionais iranianas podem se tornar expressão de dissensão -como "Morg e Sahar", ou "Pássaro do Amanhecer", canção que lamenta a "crueldade dos tiranos" e pede que um rouxinol saia de sua gaiola e "componha a canção de liberdade para a humanidade".

O escritório de Vatanparast é um santuário onde não é preciso cumprir as regras impostas em outros locais de trabalho; mulheres conversam com os colegas sem vestir seus lenços de cabelo. Mas apesar de toda sua abertura cultural, ela não gosta do que vê nos EUA, via CNN e Oprah: consumismo, obsessão com celebridades e apatia política.

Talvez não haja melhor evidência da abertura dos iranianos a pontos de vista alternativos do que o ramo crescente de antenas parabólicas, que desafia a proibição do governo. Apesar de serem proibidas, tantas casas têm as antenas que o governo lançou seus próprios programas via satélite -a maior parte novelas e outros entretenimentos- para competir com a programação enviada da Europa, Turquia e EUA, inclusive canais em persa com base em Los Angeles, onde moram muitos iranianos expatriados.

Um homem de 41 anos que instala 20 antenas parabólicas por semana disse que os programas americanos são os mais populares. Ele prefere "Animal Planet".

Mas o técnico, que pediu para não ter seu nome revelado pois poderia ser preso ou multado por seu trabalho, disse que a programação não vai conquistar amigos para os EUA porque os canais de notícias mostram as conseqüências das políticas americanas que quase todos os iranianos acham preocupantes: caos no Iraque, bombardeios israelenses no Líbano e ocupação israelense de territórios palestinos.

Enquanto grande parte do país limita sua rebeldia às roupas, filmes e música, alguns acadêmicos religiosos tentaram reformar o sistema político de dentro, pedindo maior poder aos políticos eleitos.

Mas o movimento reformista -liderado pelo ex-presidente Mohammed Khatami, que permitiu nova abertura social e intelectual -vacilou no ano passado quando Mahmoud Ahmadinejad, populista e linha dura da política externa, venceu a presidência em uma revolução eleitoral. Reformistas desanimados agora dizem que a ênfase de Khatami em maior liberdade intelectual não conseguiu conquistar as massas que queriam melhorias econômicas.

Então Fazel Mehbadi, 53, tem um caminho diferente, insiste em uma reforma da própria religião que, ele disse, importa mais do que a política à pessoa comum. Mehbadi, clérigo e pesquisador da Universidade Mofid, na cidade sagrada de Qom, não tem permissão para dar aulas ou chefiar uma mesquita porque argumenta abertamente que o poder do Estado corrompe a religião e que os clérigos não devem ser governantes.

Mehbadi execra as leis que forçam as mulheres a cobrirem o cabelo e quer que os iranianos tenham mais a dizer sobre seu governo.

Mas ele também diz que qualquer ajuda americana direta seria prejudicial a sua causa. "Toda nação deve aprender por si só como ser democrática", disse ele. "Nenhuma nação aceitará a democracia se houver uma força cultural estrangeira por trás dela." Deborah Weinberg

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos