Documentário "Jesus Camp" vai a extremos

Wesley Morris

Estimula-se fortemente os jovens evangélicos que vão ao acampamento de verão de Becky Fischer, Kids on Fire, a trazer sua certeza religiosa (quanto mais melhor). Mas eles têm que deixar seus livros e DVDs de "Harry Potter" em casa.

"Não se deve fazer de bruxos heróis!" grita Fischer, mulher rotunda com cabelos espetados pintados de louro, durante um dos sermões capturados pelo documentário assustador de Heidi Ewing e Rachel Grady chamado "Jesus Camp". No Velho Testamento, diz ela, o adorável Harry seria condenado à morte.

Em 2001, Ewing e Grady foram aos subúrbios da Cidade de Kansas e acompanharam três jovens ao acampamento de Fischer que, com curioso simbolismo, ocorre a todo ano no Lago do Diabo, em Dakota do Norte. O que elas encontram e apresentam, com um desdém pouco velado, é um fundamentalismo cristão, intransigente e estranho.

Uma de suas táticas para transmitir essa estranheza é tocar música eletrônica assustadora em muitas cenas. O truque faz "Jesus Camp" parecer um filme de terror e é um toque desnecessariamente incriminador.

É verdade, entretanto, que o acampamento tem seus momentos estranhos, até mórbidos. Fischer, por exemplo, digita um sermão com uma fonte com gotas de sangue saídas de um filme de segunda. Ela e sua equipe andam em torno da igreja e dizem ao diabo para manter distância. Bichos de pelúcia são usados como acessórios em uma palestra sobre as conseqüências do pecado. Eventualmente, Fischer implora aos hipócritas em seu rebanho de pré-adolescentes a se apresentarem, arrependerem-se e receberem a cura da água da palavra de Deus.

Kids on Fire parece um campo militar religioso, e as diretoras estruturam o documentário em torno do fato de esses meninos estarem sendo treinados para a guerra. Fischer é o sargento. Seus exercícios de treinamento incluem estimular os participantes a falarem línguas, como ela. Os inimigos podem ser liberais ou fundamentalistas muçulmanos. Eles treinam seus filhos para a guerra santa. Por que ela não deveria fazer o mesmo?

Ewing e Grady, cujo filme anterior foi "The Boys of Baraka", encontram três crianças totalmente dedicadas para acompanhar. Levi, de 12 anos é um potencial pregador. Seu corte de cabelo curto termina em um rabo de rato, e ele passa seus dias assistindo a série "Creation Adventure" sobre o Projeto Inteligente. Ele verdadeiramente quer disseminar a palavra de Deus.

O mesmo acontece com a extrovertida Rachael, de 9 anos. Sem medo, ela aborda estranhos e distribui material fundamentalista. Segurando um bicho de pelúcia bonitinho, ela também dá uma explicação da fé que acaba na certeza de que não vai para o inferno. (Talvez você sim.)

E há Victoria, a filha gêmea de um soldado da ativa. Não se deixe enganar por aquele quarto de dormir cor de rosa. A menina adora heavy metal cristão. Seu principal temor, porém, é o que os outros vão pensar de sua paixão pela dança. "As pessoas vão achar que estou dançando para a carne", preocupa-se. Em vez disso, ela dança para Deus.

Pode ser exagero pedir um pouco mais de diversidade dos objetos do filme. Não há meninos inocentes, sem graça e convencionais marchando no exército de Deus? O filme levanta discretamente algumas questões sobre o desenvolvimento dos prodígios, se nascem assim ou são confeccionados.

Earl Woods colocou um taco de 9 nas mãos do filho Tiger, que apesar de muito jovem extraordinariamente soube o que fazer com ele. Seria uma analogia razoável para o que Fischer está fazendo com Kids on Fire? Será que ela e sua equipe estão nutrindo a fé inata das crianças ou explorando-a?

Como o filme não tem narrador, Ewing e Grady usam o radialista cristão de esquerda Mike Papantonio para gerar preocupação, com trechos de suas apresentações. Ele teme que não haja um limite entre a religião e a política nos EUA e sua determinação em manter os dois separados é admirável. Mas seus argumentos parecem aborrecidos perto do cristianismo politizado de Fischer. Quando ela liga para a rádio, no final do filme, parece muito mais belicosa do que o filme mostrava.

Se estamos no meio de uma cultura de guerra, como muitas pessoas proclamam no "Jesus Camp", então a esquerda deve se preocupar. Os soldados cristãos de direita parecem extremamente bem treinados. Deborah Weinberg

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