Polaroid preservada

Robert Weisman

Foi duas semanas após o ataque a Pearl Harbor. O cientista chefe americano Vannevar Bush rabiscou um bilhete para o fundador da Polaroid Corporation, Edwin H. Land. Na missiva de 24 de dezembro de 1941, Bush assegurou a Land que o trabalho pioneiro da Polaroid em produtos como óculos para aviadores e tecnologia de reconhecimento aéreo faria definitivamente "parte do esforço de guerra deste país".

Sete anos depois, no início do boom americano do pós-guerra, um relatório da equipe de pesquisa da Polaroid exibia o título inauspicioso "Idéias Impetuosas para Promoção das Câmeras Land em Postos de Gasolina". Ele propunha que postos de gasolina em "áreas repletas de turistas", como a Nova Inglaterra, oferecessem "uma foto instantânea gratuita para cada carro e ocupantes que parassem para abastecer, desde que a venda fosse de mais de US$ 3".

Pat Greenhouse/The Boston Globe 
Milhares de documentos que retratam história dos produtos Polaroid à disposição em Harvard

Eles estão entre os mais de 1.200 metros lineares de documentos, fotos de teste, rolos de filme e outras memorabilias da empresa doados recentemente para a Escola de Administração de Harvard pelo grupo que comprou a Polaroid no ano passado. A coleção foi acumulada ao longo de seis décadas por Land, o cientista de Cambridge e inventor mais conhecido como pai da câmera instantânea.

A coleção de Land está sendo catalogada por bibliotecários em enormes novos arquivos de pesquisa abaixo da reformada Biblioteca Baker da escola. As caixas de papéis, que se estenderiam por 1,2 quilômetro colocadas lado a lado, são a maior coleção individual dos arquivos, ocupando um oitavo de seu espaço. Harvard as abrirá aos pesquisadores acadêmicos e outros estudiosos no próximo ano.

"A Polaroid se tornou um símbolo daquela era de inovação", disse Laura Linard, a diretora de coleções históricas da Escola de Administração de Harvard. "Nosso corpo docente está muito interessado no material."

Abrigada em prateleiras com clima controlado perto de livros raros de filosofia econômica da Inglaterra do século 15 e mais de 1.400 outras coleções que remontam os moinhos têxteis Slater que pontilhavam o sul da Nova Inglaterra nos anos 1800, a coleção Land ilustra a natureza fugaz da liderança empresarial e a vulnerabilidade até mesmo das empresas mais bem-sucedidas às mudanças tecnológicas.

Em seu auge na metade do século, a Polaroid era um ícone cultural, renomada por sua pesquisa de vanguarda, suas câmeras inspirando admiração em uma geração de consumidores. A empresa também era uma empregadora modelo. Em uma carta de 26 de abril de 1968 aos funcionários da Polaroid, preservada na coleção, Land -o Bill Gates de sua época e, como Gates, um estudante que abandonou Harvard- afirmava que "nossa primeira responsabilidade é aumentar o senso de segurança e oportunidades para progresso de cada indivíduo atualmente na empresa".

Mas em um prazo de cinco anos após a morte de Land, em 1991, a tecnologia digital começou a tomar o espaço dos negócios de foto instantânea da Polaroid. Em 2001, a empresa pediu concordata. Ela já foi vendida duas vezes para investidores que cortaram as pesquisas e demitiram milhares.

"A Polaroid desenvolveu uma tecnologia imensa, uma força de trabalho altamente capacitada e uma clientela maravilhosa, mas perdeu tudo", disse Adrian J. Slywotzky, um diretor da Mercer Management Consulting em Boston, que lembra que queria trabalhar para a empresa quando se formou na Escola de Administração de Harvard, em 1980. "Sua história tem muita relevância. Ela levanta a questão: se sou grande em um ciclo tecnológico, por que há 80% de chance de deixar de existir dois ciclos depois?"

De fato, a saga da Polaroid tem ressonância em um Estado que gerou outros titãs tecnológicos que ascenderam e caíram, da Digital Equipment Corp. ao Wang Laboratories Inc., e em um setor onde o ritmo da inovação está se acelerando. O destino da Polaroid pode servir de alerta para tecnólogos modernos como Gates, que está lutando para adaptar a Microsoft Corporation para enfrentar o desafio da Google Inc. e outras novas empresas de Internet.

A boa fortuna de Harvard na obtenção da coleção Land foi conseqüência do aperto de cinto da Polaroid. Há cinco anos, enquanto a empresa cortava gastos e consolidava seus imóveis na área de Boston, seus administradores começaram a conversar sobre a doação da coleção. Eles realizaram conversas preliminares com o Instituto Smithsoniano e com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts antes de decidirem por Harvard. Em 2002, a coleção foi transferida temporariamente da sede histórica da Polaroid, em Cambridge, para o porão de seus escritórios em Waltham, na Rota 128.

"Ela estava em fichários, no topo de fichários, estava espalhada", lembrou Bradford J. Kullberg, vice-presidente da Polaroid para estratégia corporativa e desenvolvimento de negócios.

Apesar de muitos documentos pessoais de Land terem sido destruídos por ordem dele após sua morte, a coleção doada a Harvard contém centenas de milhares de documentos que retratam a história da pesquisa dos produtos Polaroid, a contribuição da empresa para os esforços militares americanos na Segunda Guerra Mundial, campanhas de publicidade impressas e de televisão, contendo celebridades como Louis Armstrong e sir Laurence Olivier, a correspondência de Land com seu advogado de patente -ele obteve mais de 500 patentes, atrás apenas de Thomas Edison- e outros marcos da Polaroid.

Também há registros e protótipos da SX-70 e outras câmeras instantâneas da Polaroid, incluindo a original -a câmera Land- que foi colocada inicialmente a venda na Jordan Marsh, no centro de Boston, pouco antes do Natal de 1948. Também estão na coleção as primeiras versões dos óculos escuros com lentes polarizadas, uma luminária sem luz forte e outros produtos que foram revolucionários na sua época.

E há depoimentos dos primeiros a adotarem a fotografia instantânea de Land. "Quando tiro uma foto, eu preciso saber imediatamente se está boa e também preciso delas imediatamente para relatórios, etc." escreveu C.E. Winn, um geólogo de Carterville, Illinois. "A câmera é excelente."

Para Slywotzky, que presta consultoria para empresas sobre mudanças no mercado, a lição da Polaroid é a necessidade de administrar a transição "apostando dobrado" em tecnologias atuais e emergentes. "O momento de transição é o momento de máximo perigo para as empresas", ele disse. George El Khouri Andolfato

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