Presidente em dificuldades no Brasil emprega toque operário

Indira A.R. Lakshmanan
no Rio de Janeiro

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, está acostumado a superar adversidades - e parece que o fará novamente na dura campanha pela reeleição que também se tornou uma luta por sua vida política.

Nascido de pais analfabetos, Lula ascendeu de menino engraxate a metalúrgico, de líder sindical a presidente, vencendo em 2002 após quatro tentativas. Seus assessores estavam tão certos da vitória desta vez que ele não participou dos debates televisionados com três outros candidatos.

Mas após as autoridades terem pego membros do partido de Lula tentando comprar informações que poderiam comprometer seus oponentes, ele fracassou em atingir os 50% dos votos necessários para a vitória já no primeiro turno eleitoral, em 1º de outubro.

Desde o revés humilhante, Lula tem contra-atacado, negando conhecimento do escândalo e tratando o segundo turno no domingo, pela liderança do país mais populoso da América Latina, como uma virtual luta de classes.

Em discursos e propagandas, ele retrata a si mesmo como um garoto pobre que teve sucesso e que trabalha arduamente pelos humildes, ao mesmo tempo em que acusa interesses da elite endinheirada de tramar a privatização de ativos e negar à maioria pobre aquilo a que tem direito. Em um país que possui a maior desigualdade entre ricos e pobres na América Latina, a estratégia parece estar funcionando.

Em um comício na semana passada no centro do Rio, o candidato e seus simpatizantes faziam sinais de "L" com seus polegares e dedo indicador e dançavam a uma canção de campanha que acentua as origens humildes de Lula.

"Uma pequena elite de São Paulo tem ódio do Brasil e especialmente do Nordeste", Lula disse à multidão, acentuando a divisão histórica entre o rico sul do país e o nordeste pobre, de onde ele veio.

Prometendo abrir mais universidades e escolas e prometendo proteger ativos públicos como o petróleo, ele atacou a oposição: "Eles não sabem como construir, eles só sabem como vender as coisas e demolir!" ele gritou, ovacionado pela multidão.

A mais recente pesquisa independente mostra Lula com uma vantagem de 24 pontos sobre seu oponente centrista, Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira -uma recuperação notável para Lula, que terminou o primeiro turno apenas seis pontos à frente de Alckmin.

Por toda a América Latina, as recentes derrotas de candidatos esquerdistas no México e Peru, assim como o fracasso de esquerdistas favoritos em obter vitórias no primeiro turno no Chile e Equador, levaram observadores políticos a especularem sobre uma reversão da muito falada "maré rosa" que varreu a região nos últimos anos.

Sob Lula, o Brasil viu um baixo crescimento econômico e uma série de escândalos envolvendo seu partido, incluindo um suposto esquema para pagar legisladores da oposição a votarem a favor de projetos do governo. Mas a ligação do presidente com os pobres, que se beneficiaram com seus programas generosos, deve assegurar sua vitória no segundo turno.

Respondendo a uma forte crítica no debate com Alckmin na segunda-feira, Lula negou estar polarizando o país com um "discurso de luta de classes" e prometeu que não abandonaria a classe média.

Alckmin, um médico anestesiologista e ex-governador do Estado de São Paulo, a região mais rica do Brasil, está fazendo campanha como candidato amigo dos negócios, que conteria "uma máquina do governo fora do controle", encorajaria o investimento privado e consideraria o livre comércio com os Estados Unidos. Ele tem atraído os eleitores de classe média, oprimidos pelos altos impostos e elevado custo do crédito, e prometeu melhorar as baixas taxas de crescimento do país. O Brasil tem a maior economia da região, mas cresceu menos de 3% ao ano sob Lula.

"Eu acho que Lula precisa perder porque ele violou a confiança dos brasileiros", disse Rodrigo Nunes, um advogado de 34 anos que parecia revoltado com a reunião barulhenta dos simpatizantes de Lula no Rio. "Além da corrupção, seu governo foi amadorista, não investiu na infra-estrutura e nas reformas que o país necessita."

Mas para muitos eleitores, o aristocrático Alckmin carece do toque popular de operário de Lula, e sua conversa de investimento privado faz muitos temerem que ele tente privatizar a companhia estatal de petróleo ou um banco estatal, uma lembrança das privatizações impopulares dos anos 90. Alckmin lançou fortes ataques associando Lula aos negócios sujos de seu partido em três debates televisionado neste mês, mas a causticidade parece ter voltado alguns eleitores contra ele.

Lula aumentou o salário mínimo mensal em 17% neste ano, para R$ 350,00. O preços dos alimentos e materiais de construção básicos se mantiveram estáveis e até caíram desde que ele assumiu o governo.

"A maioria das pessoas está sentindo uma melhora de sua condição econômica do que há quatro anos", disse Christopher Garman, um especialista em Brasil dos analistas de risco do Eurasia Group.

Mas Lula fracassou em promover o investimento e o emprego. Dois terços dos brasileiros vivem com menos de US$ 500 por mês, enquanto os 10% mais ricos controlam 45% da riqueza do país.

Lula tentou tratar do desequilíbrio ampliando benefícios de bem-estar social vinculados à freqüência escolar para 11 milhões de famílias pobres -um quarto da população. A pesquisa DataFolha da semana passada apontou Lula com vantagem de 30 pontos entre os brasileiros mais pobres e recuperando uma ligeira vantagem entre os eleitores de classe média.

Jorge Araújo, um vendedor de cigarros de 29 anos, disse que muita pessoas conseguiram comprar aparelhos domésticos e eletrônicos pela primeira vez graças ao maior crédito disponível.

Durante seus quatro anos no poder, Lula desafiou aqueles que o pintavam como uma ameaça socialista ao manter políticas econômicas ortodoxas -pagando a dívida, alimentando um superávit orçamentário e domando a inflação- e estabelecendo boas relações com Washington. O governo Bush até mesmo se voltou para Lula como contrapeso moderador ao presidente populista e anti-Washington da Venezuela, Hugo Chávez.

Mas se conquistar um segundo mandato, Lula, enfraquecido pelo fracasso no primeiro turno e pela vitória dos partidos de oposição no Congresso, poderá ter dificuldades para governar, disseram analistas. Seus oponentes até mesmo já começaram a falar em forçar sua renúncia caso os investigadores encontrem uma ligação entre ele e os escândalos envolvendo seu partido.

"Eu acho que Lula estará mais fraco, mais preocupado com assuntos internos, e isto dará mais espaço para Chávez exercer sua influência na América Latina", disse Luciano Dias, um alto analista do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos, em Brasília.

Alguns eleitores dizem que apesar de sua decepção, eles consideram Lula uma melhor aposta do que alguém que pode repetir os erros do último presidente social-democrata, Fernando Henrique Cardoso, que deixou o Brasil correndo risco de dar o calote em sua dívida externa.

Marcos Teixeira, um taxista de 40 anos, votou em uma crítica esquerdista de Lula no primeiro turno, mas disse que votará em Lula no segundo. "Eu acho que Lula é o menos ruim dos dois, e ele já tem um programa em andamento que está avançando lentamente." George El Khouri Andolfato

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