Professores iraquianos se tornam alvos, dizem grupos de direitos humanos

Bryan Bender e Farah Stockman
em Washington

Dezenas de acadêmicos iraquianos e suas famílias foram atacados e mortos por extremistas nas últimas semanas, no que grupos de direitos humanos dizem ser um esforço para eliminar os intelectuais e profissionais especializados remanescentes - destruindo assim qualquer perspectiva que possa existir de estabelecimento de uma sociedade democrática funcional.

Até 250 educadores e outros importantes profissionais iraquianos foram assassinados desde a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, e outros milhares fugiram do país, segundo pesquisadores e grupos de direitos humanos.

No início deste mês, as autoridades encontraram o corpo do dr. Najdat Al Salihi, um professor de psicologia por 35 anos na Universidade Mustansiriya, em Bagdá. Salihi, que desapareceu três semanas antes, foi morto a tiros.

Dias depois, o dr. Mohammed Jassim Al Thahbi, reitor de administração e economia da Universidade de Bagdá, sua esposa e filho pequeno foram atacados e mortos enquanto entravam no campus.

Entre muitos outros, Issan Al Rawi, um ativista político sunita que comandava o Sindicato dos Professores Universitários e que mantinha registro do crescente número de colegas assassinados, foi ele mesmo morto a tiros em 1º de novembro, enquanto deixava sua casa em Bagdá.

Enquanto os necrotérios de Bagdá ficam lotados de vítimas civis da crescente guerra iraquiana, os assassinatos de membros da elite intelectual do país está provocando uma "drenagem cerebral" que terá conseqüências a longo prazo para a capacidade do país de manter uma classe média, a base para uma sociedade estável e bem-sucedida, disseram líderes iraquianos e especialistas privados.

Professores, médicos, advogados e engenheiros estão entre os profissionais que fornecem o capital humano necessário para administração das instituições básicas em qualquer sociedade saudável e para forjar uma nova geração de líderes. Ao remover estes blocos de construção, disseram os líderes e especialistas, os rebeldes estão visando a eliminação de todo o apoio a uma sociedade democrática, a tornando mais propensa a uma volta de um homem forte como Saddam Hussein, ou à transformação do Iraque em uma teocracia como o Irã.

"Eu acho que está ficando pior a cada dia", disse Abdul Sattar Jawad, um acadêmico visitante e professor de literatura da Universidade Duke, que deixou o Iraque após ameaças à sua vida no ano passado. "Nós precisamos de profissionais liberais -advogados, engenheiros- para construção do país", disse Jawad em uma entrevista. "A intelligentsia foi surrada, assassinada ou fugiu."

A recente onda de assassinatos - incluindo a de pelo menos seis professores de medicina mortos em Bagdá durante agosto e setembro - não parece ser obra de um único grupo, segundo autoridades americanas, iraquianas e especialistas. Em vez disso, os assassinatos são vistos como um esforço orquestrado por extremistas de todos os lados da divisão étnica do Iraque para eliminar as classes educadas e eliminar as chances de um governo pluralista, moderado.

"Os assassinatos se tornaram sistemáticos", disse Nimrod Raphaeli, um iraquiano que atualmente é analista sênior do Instituto de Pesquisa de Mídia do Oriente Médio, em Washington, que acompanha os relatos diários do governo iraquiano e da imprensa. "Claramente está ocorrendo mortes visadas de professores e médicos. Eles estão pegando médicos em hospitais e os matando. Provavelmente são milícias xiitas, mas os sunitas também estão matando os intelectuais para manter o Iraque mal administrado e mal governado."

Algumas estimativas colocam o número total de mortos nos últimos 3 anos e meio em cerca de 250, mas não há números oficiais. Um grupo antiguerra europeu, brusselstribunal.org, mantém uma lista de 272 acadêmicos iraquianos mortos até 21 de novembro. Tal grupo pede uma investigação da ONU do que chama de "liquidação sistemática" da classe instruída iraquiana.

Tahir Albakaa, que atuou como ministro do Ensino Superior do Iraque de 2004 a 2005, disse que mais de 200 acadêmicos foram mortos -muitos dos quais ele conhecia pessoalmente- e que outros 2 mil pesquisadores fugiram do país.

"Quando você elimina os cientistas do país, você está visando o próprio Iraque", disse Albakaa, que sobreviveu a quatro tentativas de assassinato antes de se mudar para Boston, no ano passado, como acadêmico visitante na Escola de Doutorado em Educação de Harvard e na Universidade de Suffolk.

A recente onda de assassinatos se soma ao imenso êxodo de profissionais aterrorizados desde a invasão em 2003. O Índice Iraque, compilado pela Instituição Brookings em Washington, estimou que até 40% dos profissionais do Iraque fugiram do país nos últimos 3 anos e meio.

A profissão médica foi duramente atingida, segundo estatísticas independentes. Em um relatório no início deste ano, a Medact, uma caridade de saúde global com sede no Reino Unido, estimou que um quarto dos 18 mil médicos do Iraque fugiu do país desde 2003, e médicos e outros funcionários de saúde "estão sendo atacados, ameaçados ou seqüestrados diariamente".

"Eles não querem pessoas educadas", disse Jawad, o ex-reitor que fugiu para os Estados Unidos no ano passado, sobre aqueles que perpetram os assassinatos. "Eles consideram pessoas educadas e de mentalidade aberta como pró-Ocidente."

Enquanto isso, aqueles que permaneceram no Iraque se vêem tomados pelo medo.

Merry Fitzgerald, uma belga ativista da paz que é casada com um iraquiano e mantém registro dos assassinatos, disse em uma entrevista por e-mail para o "Globe": "Eu vivo em medo constante pela segurança dos meus parentes e amigos que estão no Iraque. Nossa família sofreu muitas perdas - um juiz investigador e um professor universitário aposentado foram assassinados por 'homens armados desconhecidos'".

Raphaeli disse: "Aqueles que estão perpetrando estas mortes estão tentando minar a estabilidade do país e qualquer chance que o Iraque tenha". George El Khouri Andolfato

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