Nova crise de confiança em Israel

Thanassis Cambanis
em Herzliya, Israel

O apoio popular ao primeiro-ministro de Israel atingiu uma baixa histórica. Tanto aliados quanto inimigos acreditam que o Estado judeu perdeu sua recente guerra no Líbano. O mais alto oficial militar renunciou sob críticas. E os dois políticos mais importantes no país estão sendo repudiados por seus próprios partidos.

Para os políticos de Israel, isto é rotina. Mas para a população de Israel, as crises entrelaçadas, incluindo alegações de corrupção, levaram a uma crise de confiança e revolta palpável em relação ao governo.

"Eles atualmente estão dançando no convés do Titanic", disse Gidi Greenstein, um cientista político cujo grupo de estudos pede ao governo israelense para que se prepare para ameaças estratégicas de longo prazo, como o Irã e militantes islâmicos.

Nesta semana, o establishment de segurança do país esteve emaranhado em um forte debate sobre o futuro da nação na Conferência de Herzliya, um encontro anual nacional que atrai as pessoas mais importantes do Estado judeu.

Analistas estão debatendo a reputação militar de Israel após a guerra no Líbano e tentando traçar uma abordagem eficaz em relação ao Irã.

Mas segundo os políticos, os israelenses precisam deixar de ser morosos. "Esta guerra conseguiu muitos feitos", declarou o ministro da Defesa, Amir Peretz, em seu discurso na segunda-feira, após dezenas de oradores terem catalogado o que descreveram como os muitos fracassos políticos e militares do ano passado, o principal entre eles a guerra de um mês contra o Hizbollah.

Peretz, chefe do Partido Trabalhista, está sob fogo de seu próprio partido, cujos membros querem afastá-lo. O primeiro-ministro Ehud Olmert também deseja demiti-lo como ministro da Defesa. E espera-se que Peretz seja um dos grandes apontados quando uma série de comissões divulgarem relatórios no próximo mês sobre os fracassos de Israel durante a guerra no Líbano.

O ministro da Defesa deu o primeiro passo para tentar salvar seu cargo na segunda-feira, ao nomear Gabi Ashkenazi como chefe do Estado-Maior das forças armadas israelenses. Ashkenazi não ocupava posição de comando ativo durante a guerra como o Hizbollah. Há uma semana, Dan Halutz renunciou ao cargo, deixando Peretz encarregado de preencher a vaga antes da conclusão das investigações oficiais do esforço de guerra, incluindo a Comissão Winograd, um painel investigativo liderada por um respeitado ex-juiz da suprema corte.

Muitos israelenses se queixam de que Peretz presidiu forças armadas que fracassaram em transmitir inteligência sobre o Hizbollah para os soldados na linha de frente e enviaram reservistas mal treinados para batalha, sem meias e equipamento apropriado, entre muitas falhas documentadas no esforço de guerra.

O primeiro-ministro é quase tão impopular quanto Peretz, cujo índice de aprovação está em 10%. O índice de Olmert caiu para 14% na mais recente pesquisa, em 10 de janeiro, feita pelo jornal israelense "Ha'aretz". Em outra pesquisa, em 18 de janeiro, feita pela "Rádio Israel", metade dos entrevistados disse que Olmert deve renunciar.

Olmert está sob investigação em vários casos de corrupção, um dos quais já encaminhado a um promotor que está considerando se o indiciará criminalmente. O primeiro-ministro, um advogado veterano, assumiu o cargo há quase um ano, quando o carismático general aposentado Ariel Sharon sofreu um forte derrame.

Nunca popular, Olmert tem governado como chefe do Kadima, a nova coalizão centrista formada por Sharon pouco antes de entrar em coma. As pesquisas mostram que aos olhos da população israelense, o Kadima fracassou em estabelecer uma plataforma coerente que possa distingui-lo dos demais partidos grandes, o Trabalhista e o Likud.

Mas devido à queda de popularidade destes dois partidos grandes, Olmert conduziu seu governo a uma posição incomumente sólida: apesar de sua popularidade ter atingido baixas sem precedentes, a coalizão de governo está mais estável porque inclui o Trabalhista de esquerda, o Istael Beitenu de extrema direita e o bloco religioso ultraortodoxo.

"Não há crise. Uma crise é quando o governo está prestes a cair", disse Eyal Arad, um alto estrategista do Kadima que escreveu a Constituição do partido.

Declarações públicas do primeiro-ministro e de membros de seu Gabinete demonstram tal atitude. Nenhuma autoridade do governo reconhece as falhas na prontidão e resposta de Israel ao ataque do Hizbollah em julho de 2006.

De fato, Olmert e Peretz se esquivaram das preocupações com a guerra, respondendo ao mal-estar popular com uma campanha de relações públicas para dizer aos eleitores que Israel é forte e que a guerra com o Hizbollah não foi um fiasco.

Um general aposentado e ex-chefe do Estado-Maior, Moshe Ya'alon, quebrou um tabu entre a elite política na segunda-feira, em uma entrevista para o Canal 2 de Israel, quando pediu pela renúncia imediata de Olmert e Peretz, em vez de seguirem mancando até a divulgação do relatório Winograd.

"Nós precisamos de uma liderança que prefira a verdade" em vez de a distorcerem, disse Ya'alon na segunda-feira, em um ataque frontal ao que descreveu como fraca tomada de decisão da cúpula do governo israelense.

Com a liderança política e militar de Israel sob fogo em casa, líderes árabes hostis na Síria e no Líbano intensificaram sua retórica, até mesmo insinuando que outra guerra com Israel pode estar próxima.

Em uma entrevista na sexta-feira para a TV "Al Manar", o principal veículo de mídia do Hizbollah, o líder do grupo, Hassan Nasrallah, previu que Olmert e Peretz renunciarão em breve. "A população israelense não confia no exército e não confia na liderança", disse Nasrallah. "Há uma crise de confiança sem precedente desde 1948."

Aumentando o senso disseminado de descontentamento com o governo, o presidente Moshe Katsav também está sendo investigado por estupro.

Uma piada popular que circula descreve Sharon despertando e perguntando a um assessor sobre o estado do país e do governo. Ele fica sabendo com desespero dos eventos do ano passado: a vitória eleitoral do Hamas na Autoridade Palestina, a guerra no Líbano, a onda de escândalos de corrupção. "Eu prefiro ficar em coma", suspira Sharon, voltando à inconsciência. George El Khouri Andolfato

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