Duas mulheres, dois países, uma doença

Louise Kennedy
Em New Haven

Duas mulheres ocupam um mesmo palco, habitando mundos separados mas ligados por um laço trágico, invisível. Esta é a premissa simples e poderosa de "In the Continuum", uma resposta refletida e humana à Aids, escrita e interpretada por duas jovens mulheres notáveis, Danai Gurira e Nikkole Salter.

Gurira, que é do Zimbábue, e Salter, de Los Angeles, se conheceram como estudantes de teatro na Universidade de Nova York. Cada uma estava trabalhando em um monólogo sobre uma mulher com Aids quando, para sorte delas e nossa, um professor sugeriu que combinassem seus esforços. Elas o fizeram e, desde então, interpretam o resultado juntas em Nova York e em turnê, de Chicago a Harare.

Agora, "In the Continuum" chegou ao Teatro de Repertório de Yale, onde ocupa um palco despojado mas resplandecente com um mundo cheio de personagens elaborados de forma indelével. No centro estão Nia, uma adolescente de South Central Los Angeles, e Abigail, uma noticiarista no Zimbábue. Elas não se conhecem e tomam consciência uma da outra apenas em um momento de tirar o fôlego, perto do fim, quando ambas estão no mesmo local terrível: cada uma acabou de descobrir que está grávida e contraiu o HIV, o vírus da Aids, de um homem que achava que podia confiar.

"In the Continuum" surgiu da preocupação particular de suas criadoras com a Aids em mulheres negras, já que o grupo atualmente apresenta a maior taxa de novas infecções tanto na África quanto nos Estados Unidos. Tal fato dá ao texto delas urgência e revolta, mas o trabalho delas também contém um interesse caloroso nas vidas específicas de personagens específicos. O texto delas é político, mas o fazem criando histórias pessoais sobre pessoas plenamente imaginadas.

E que pessoas! Nia, interpretada por Salter, é atrevida e cheia de bravata, mas à medida que sua história se desenrola nós vemos quão impotente sua vida a deixou e quão assustador isto é. A Abigail de Gurira exibe uma fachada profissional durona, mas a descoberta de que seu marido a traiu e a infectou lentamente despedaça tal fachada cuidadosamente criada.

Nia e Abigail, apesar de estarem no centro da peça, freqüentemente cedem seu espaço no palco a uma série de outros personagens: profissionais de saúde, amigas, conhecidas e parentes que as mulheres encontram em meio à sua jornada da descoberta da doença até os homens que as infectaram. Tanto Gurira quanto Salter alternam sem esforço entre todos estes personagens, com um movimento de quadril ou o jogar de uma echarpe para transformar uma adolescente revoltada em uma mãe preocupada, uma paciente atônita em uma colega de escola louca por status.

As echarpes são os únicos figurinos reais, salvo algumas poucas perucas e um traje hilário de curandeira, que a personagem explica, para gargalhadas, que veste apenas para os turistas. O cenário também é mínimo mas eficiente: um par de bancos, um fundo simpático cor de cobre com uma porta pela qual a próxima personagem -uma prostituta ou enfermeira, assistente social ou empregada -pode entrar para apresentar sua parte.

É simples. Mas graças ao talento abundante de suas autoras e intérpretes, "In the Continuum" é tão complexa e relevante quanto precisa ser. George El Khouri Andolfato

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