O argumento 'histórico' de Hillary

Joan Vennochi

Hillary Clinton está contando com as mulheres - especialmente as liberais - para ajudá-la a fazer história como a primeira mulher presidente. Mas ela não contará com todas elas na disputa para se tornar a candidata presidencial democrata.

Veja o caso de Kate Michelman, uma proeminente líder feminista, que recentemente deixou o cargo após quase 20 anos como presidente do grupo de direitos pró-aborto, conhecido como Naral Pro-Choice America. Michelman recentemente deu seu apoio a John Edwards, o ex-senador da Carolina do Norte, e está trabalhando como consultora de campanha na organização das mulheres em seu apoio.

Jessica Rinaldi/Reuters  
Hillary não poderá contar com o apoio de importante líder feminista, que preferiu Edwards

Seu apoio a Edwards seria menos interessante se todos os candidatos democratas fossem do sexo masculino. Mas, com Hillary Clinton na lista, disse Michelman, "estão sempre me perguntando: Por quê? Por que John Edwards no contexto desta disputa histórica pela presidência?" A resposta dela: "Eu acredito que as mulheres devem considerar não apenas gênero, por mais empolgante que isto seja (...) mas também qual candidatura significará mais para as mulheres".

Michelman definiu sua decisão como "pró-John" e não "anti-Hillary". Ela disse acreditar fortemente no compromisso de Edwards com os direitos das mulheres e a eliminação da pobreza.

Mas Michelman também expressou frustração com os candidatos democratas que buscam apoio de grupos como o Naral e então "defendem apenas da boca para fora as questões femininas" assim que são eleitos. Sobre Edwards, ela disse: "Ele nunca recuou de seu compromisso com a liberdade reprodutiva e de escolha das mulheres. Ele entende que se trata de dignidade, autodeterminação, responsabilidade pessoal e privacidade".

Hillary Clinton tentou se estabelecer em um meio termo no debate sobre os direitos de aborto em um discurso em janeiro de 2005, no qual disse que o direito deve ser protegido, mas exercido o mínimo possível. Michelman disse que interpretou o discurso não como "um recuo" -ela já ouviu Hillary Clinton expressar posições semelhantes antes- mas como uma posição calculada: "Ela estava se posicionando politicamente para ir além da questão do aborto e atingir a questão da prevenção".

Bill Clinton fez escola com o "posicionamento" - o sacrifício da ideologia liberal em prol de uma posição centrista. Desde seu esforço fracassado de reforma do sistema de saúde durante o primeiro governo Clinton, Hillary se tornou uma parceira na busca de tal meio termo seguro.

Às vezes o meio termo muda: a posição linha-dura de Hillary na guerra no Iraque, da qual se afastou apenas recentemente, é outro motivo para o desinteresse dos liberais em sua candidatura. Primeiro, ela seguiu o argumento do governo Bush para a invasão. Agora ela está seguindo as pesquisas que mostram que a opinião pública está rejeitando fortemente a política de guerra de Bush.

Seu voto em 2002 autorizando o presidente a invadir o Iraque é tão problemático quanto foi para John Kerry. Em ambos os casos, os votos pareciam calculados para distanciar os políticos do rótulo de liberais, antiguerra. No caso de Hillary Clinton, o voto também parecia calculado para afastar a noção de que uma mulher não é durona o suficiente para ir à guerra. Isto também pode explicar por que ela se agarrou à posição linha-dura por mais tempo que Kerry, que agora está fora da disputa de 2008, ou que Edwards e o senador Joseph Biden, que estão disputando.

Sua posição pode não ser fatal para sua pré-candidatura presidencial. Barbara Lee, uma grande simpatizante de Hillary em Massachusetts, disse: "O Iraque será um desafio para todos os candidatos. Ela está fortemente posicionada contra a forma como Bush está lidando com a guerra. Ela está adotando uma abordagem comedida, refletida".

Lee dirige a Barbara Lee Family Foundation, que apóia as questões das mulheres e mulheres candidatas. Ela disse que nunca houve dúvida de que quando "uma mulher forte e qualificada se candidatasse à presidência, seria ela quem eu apoiaria". Agora, ela disse, "o argumento que faço é que Hillary é a pessoa mais qualificada para concorrer e vencer. (...) Realmente, em meu coração, ela é a candidata mais forte". Lee cita a presença de Hillary Clinton no cenário mundial, a experiência no Senado americano e a capacidade de dialogar com a oposição.

Este é o argumento correto. Mas, independente do que as pesquisas digam agora, a candidatura de Hillary Clinton é mais difícil de vender do que ela ou seus assessores reconhecem, especialmente para os eleitores das eleições primárias democratas. Eles buscaram um centrista em Kerry em 2004, e isto não teve um final feliz. Com Hillary Clinton, o gênero diz algo sobre quem a candidata é. Mas, no final os eleitores vão querer saber quais são as posições da candidata - ou ao menos deveriam.

Fazer história é bom, mas a eleição do próximo presidente não se resume a isto. George El Khouri Andolfato

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