Bush sai de órbita em momento Sputnik

Derrick Z. Jackson

É o momento Sputnik do presidente Bush. Ele não é como Ike.

Cinco dias depois dos soviéticos colocarem o primeiro satélite em órbita da Terra, em 4 de outubro de 1957, o presidente Eisenhower fez pouco do fato, dizendo se tratar de "uma pequena bola no ar" que "não aumenta minha preocupação, nem uma iota". Ele disse que "o simples fato desta coisa orbitar não envolve nenhuma nova descoberta para a ciência". Seus altos oficiais militares minimizaram esta humilhação na Guerra Fria chamando o Sputnik de "pedaço inútil de ferro" e uma "bugiganga idiota no céu".

Seis dias depois daquela coletiva de imprensa, um Eisenhower muito diferente estava trabalhando secretamente. Ele reuniu as maiores autoridades científicas do país, incluindo o presidente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, James Killian, e o fundador da Polaroid, Edwin Land. Segundo memorandos confidenciais já liberados daquela reunião, escritos pelo secretário de gabinete de Eisenhower, o general Andrew Goodpaster do Exército, Land falou "com grande eloqüência sobre o grande problema diante de nós. Ele disse que o país precisava muito da ciência. Mas ele sentia que a ciência, para fornecer isto, precisava ainda mais do presidente".

Goodpaster escreveu que Land perguntou se "há alguma forma do presidente inspirar o país - lançando particularmente nossa juventude em toda uma variedade de aventuras científicas. Se ele fosse capaz de fazer isto, haveria retornos tremendos. No momento, os cientistas se sentem isolados e sozinhos".

Eisenhower, segundo a narrativa de Goodpaster, respondeu que ele "gostaria de criar um espírito - uma atitude em relação à ciência semelhante àquela nutrida em relação a vários esportes em sua juventude - uma atitude que no momento lhe parecia ter empalidecido um pouco". Eisenhower tornou Killian o primeiro assessor científico do presidente. Killian guiou Eisenhower na criação da Nasa (a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço) e em uma enorme expansão da Fundação Nacional de Ciência.

A atitude em relação à ciência na atual Casa Branca regrediu ao estado mais apático desde Eisenhower. Os cientistas se sentem tão isolados que mal ficou registrado que Bush disse que enfrentaria "o sério desafio da mudança climática global" em seu discurso do Estado da União.

Um motivo é óbvio. Bush respondeu à mudança climática com uma mudança estúpida na ciência climática. Eisenhower respondeu ao satélite soviético com a Nasa. Sob Bush, os satélites da Nasa estão se transformando em pedaços inúteis de ferro.

"Desde 2000, a coisa despencou de um penhasco", disse Berrien Moore, co-presidente da comissão da Academia Nacional de Ciências para estudo da Terra do espaço e diretor do Instituto para o Estudo da Terra, Oceanos e Espaço da Universidade de New Hampshire. Moore disse que o governo Bush criou uma "tempestade perfeita" com o "colapso do orçamento de ciência da Terra, uma queda de 30% na Nasa" e o desenvolvimento inepto do sistema de satélite ambiental de órbita polar pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica e pelo Pentágono. O sistema está três anos atrasado e já estourou em US$ 3 bilhões o orçamento, e muitos instrumentos de detecção do clima foram descartados para cortar custos.

"Eles simplesmente descarrilaram o trem", disse Moore. "Os efeitos estão prestes a se tornar bem aparentes. Os ativos que temos para coisas como medição de gelo e geleiras estão ficando velhos, com muito pouco previsto para substituí-los. Nós estamos comprando dados da Índia e dos franceses."

Moore disse que o mínimo que o governo Bush poderia fazer é restaurar o orçamento de ciência da Terra aos níveis do governo Clinton. Igualmente frustrante para ele é que mesmo enquanto a evidência se acumula de que os seres humanos estão causando o aquecimento global -o Painel Intergovernamental de Mudança Climática divulga novos dados nesta semana- não há proposta da Casa Branca para limitar as emissões de combustíveis fósseis. Moore disse que é "quase irresponsável" os executivos-chefes das 10 maiores corporações terem pedido por um teto para as emissões de dióxido de carbono, mas Bush ainda não.

"Os executivos-chefes lhe deram uma abertura para mudança de curso em relação a Kyoto e o aquecimento global", disse Moore. "A General Electric e a Duke Energy não são um grupo de cientistas tolos. Mas ele só fala em explorar mais petróleo no Ártico (...) sua declaração sobre aquecimento global foi quase um folheto de propaganda."

Isto não causa surpresa para um presidente que ignorou quase todo relatório sobre mudança climática como tolice. Bush nos disse que estava aguardando por "ciência sólida". Eisenhower ouviu o som da ciência soviética -o bipe doSputnik- e preparou os Estados Unidos para um lançamento de foguete. Parece que Bush não entenderá a necessidade de ciência até que satélites mortos comecem a cair no gramado da Casa Branca. George El Khouri Andolfato

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