Violência das drogas aumenta o medo no México

Jo Tuckman
na Cidade do México

Ataques mortais contra dois postos policiais por criminosos usando uniformes militares aumentaram a pressão sobre o novo presidente do México, Felipe Calderón, para demonstrar que sua muito falada repressão ao crime organizado liderada pelas forças armadas será capaz de lidar com os poderosos cartéis do narcotráfico do país.

Alfredo Guerrero/EFE 
O presidente Felipe Calderón iniciou duro combate aos cartéis de tráfico de cocaína

Os ataques na 'cidade resort' de Acapulco, na terça-feira (6/2), mataram cinco investigadores da polícia e duas secretárias, também provocaram o temor de que a violência ligada às drogas afugentará os turistas, cuja contribuição é importante para a economia mexicana.

Desde que assumiu a presidência em 1º de dezembro, Calderón enviou cerca de 25 mil soldados para pontos estratégicos no México, incluindo Acapulco, prometendo "recuperar a autoridade nos territórios disputados pelo crime". Os cartéis nestas áreas mataram mais de 2 mil pessoas no ano passado em sua disputa pelo controle das rotas de tráfico de cocaína, pela produção doméstica de maconha, heroína e drogas sintéticas, assim como pelo mercado consumidor local.

Calderón convocou uma reunião de emergência com seu gabinete de segurança imediatamente após os eventos em Acapulco, que tanto desafiaram quanto zombaram de seus esforços para mostrar às gangues que não estão no controle. Uma breve declaração insistiu que "o governo não recuará ou desistirá diante dos ataques do crime organizado", e descreveu os ataques como uma reação à repressão que está começando a parecer uma questão definidora do governo do novo presidente.

"Calderón tinha que fazer algo", disse Bruce Bagley, um especialista em narcotráfico na América Latina e professor da Universidade de Miami. "A percepção da população é que saiu de controle."

A primeira etapa da operação teve início em 12 de dezembro, no Estado central de Michoacán, cenário de parte da violência recente mais chocante, incluindo cinco cabeças decepadas que rolaram em uma pista de dança.

Em seguida veio a cidade desordeira de Tijuana, próxima da fronteira americana e de San Diego, e depois dela o Estado de Guerrero, no sul, onde fica Acapulco. Então a atenção do governo se voltou para o chamado Triângulo Dourado, onde os Estados do norte de Durango, Chihuahua e Sinaloa se encontram e onde, acredita-se, Joaquín "El Chapo" Guzmán, o líder de um dos dois cartéis das drogas, esteja escondido.

No mês passado, as autoridades levaram jornalistas até a lendária baía de Acapulco, ignorando as praias e navios de cruzeiro, mas sim para circularem e verem de perto os bloqueios de estrada.

A indústria local do turismo se preocupava com a reputação de Acapulco de centro do narcotráfico antes mesmo dos eventos da semana passada, entre eles um incidente no qual dois turistas canadenses ficaram levemente feridos por disparos no saguão de um hotel.

Falando na quarta-feira sobre os ataques de terça contra a polícia, o prefeito Felix Salgado disse aos líderes empresariais: "Eu espero que isto não afete a imagem do turismo". Soou mais como um desejo para uma autoridade que já recebeu dezenas de ameaças de morte das gangues que disputam o controle da cidade. Ele é protegido por uma dúzia de guarda-costas.

Enquanto isso, as forças federais estavam ocupadas seguindo a trilha dos comandos. Uma batida contra um esconderijo e a recuperação de carros supostamente usados pelos assassinos resultaram na apreensão de um pequeno arsenal de rifles de assalto, pistolas e granadas, assim como uniformes militares e da polícia federal.

A ofensiva de Calderón contra os cartéis é menos significativa por seu tamanho e sim por ter reduzido a participação da polícia totalmente civil apenas a "simbólica", segundo Bagley, o analista de Miami. A grande maioria dos agentes envolvidos é composta de soldados ou veio da polícia federal treinada pelo Exército. A estratégia está sendo elaborada pelo Ministério da Defesa.

Analistas concordam que Calderón foi levado aos braços dos generais por causa da reputação relativamente limpa das forças armadas e melhor treinamento. A corrupção e a falta de profissionalismo há muito tomaram as polícias locais e estaduais, o que as tornam mais propensas a ajudarem em uma fuga de prisão ou a protegerem a festa de casamento de um chefão do que levar um traficante à Justiça.

Como parte da ação do governo, os soldados estão investigando as forças policiais locais à procura de ligações com os cartéis. Em Tijuana, o exército mal tinha chegado à cidade quando confiscou todas as armas dos policiais locais.

Nos ataques em Acapulco na terça-feira, os comandos primeiro desarmaram suas vítimas alegando que estavam executando uma inspeção de armas. Então abriram fogo - e gravaram em vídeo os massacres. Os investigadores federais que trabalham no caso revelaram posteriormente que dois dos investigadores da polícia mortos eram suspeitos de corrupção.

Bagley disse que apesar de reconhecer que Calderón tinha pouca escolha na elaboração de sua ofensiva, o Exército "também é corruptível". Alguns analistas vão mais longe e alertam sobre um desastre sem precedentes, caso soldados mal pagos, descontentes ou simplesmente gananciosos decidam passar para o lado dos traficantes.

Um importante especialista em drogas do México, Luís Astorga, aponta para o precedente criado pelos Zetas - um grupo de matadores formado por desertores militares no final dos anos 90 e que são protagonistas na atual violência. "Nós poderemos ter o fenômeno Zetas multiplicado", disse Astorga, da Universidade Autônoma Nacional do México. "Isso levaria a guerra a outro nível."

Em um reconhecimento de que os traficantes não são necessariamente neutralizados mesmo quando são capturados e mantidos em prisões federais de segurança máxima, o governo Calderón começou a extraditar os chefões do crime para serem julgados nos Estados Unidos.

Osiel Cárdenas, o principal rival de Chapo Guzmán, estava entre os primeiros enviados para o outro lado da fronteira em 19 de janeiro. Ele supostamente comandava seus negócios e sua guerra territorial de sua cela de prisão no México.

Até o momento, a repressão desfruta de um raro grau de consenso político. As extradições provocaram preocupação por parte de alguns especialistas sobre sua legalidade, mas o debate se concentrou em discutir se levarão a uma resposta comparável à guerra travada contra o Estado colombiano pelos "extraditáveis" no início dos anos 90, sob o slogan "melhor uma tumba na Colômbia do que uma cela nos Estados Unidos".

Calderón é cada vez mais comparado ao presidente linha-dura colombiano Álvaro Uribe. De forma válida ou não, o governo americano não tem economizado elogios à forma como as coisas estão prosseguindo, e o presidente Bush disse isso ao seu par mexicano em um telefonema pessoal no mês passado.

Ainda assim, disse Astorga, todos os três líderes deveriam prestar atenção no mais recente relatório do Centro Nacional de Inteligência sobre Drogas dos Estados Unidos, que sugere que todos os recursos empregados no combate ao tráfico de cocaína fracassaram em reduzir a demanda nos Estados Unidos ou diminuir a produção na Colômbia. George El Khouri Andolfato

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