Escândalo político na Colômbia coloca em risco laços com os EUA

Indira A.R. Lakshmanan
em Bogotá

Apenas duas semanas antes de uma importante visita do presidente Bush à América Latina, a principal parceira dos Estados Unidos no continente se vê envolvida em um escândalo extraordinário que ameaça minar a credibilidade das alianças americanas e as prioridades políticas do México até a Argentina.

A crescente investigação que liga dezenas de aliados políticos do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, aos esquadrões da morte de direita do país e aos narcotraficantes começou a minar o apoio no Capitólio à Colômbia, a maior recebedora de ajuda americana fora do Oriente do Médio e Afeganistão.

Os Estados Unidos gastaram US$ 4,7 bilhões desde 2000 combatendo as drogas e os rebeldes na Colômbia. Em uma demonstração de apoio ao seu aliado de centro-direita, o presidente Bush deverá ser no próximo mês o primeiro presidente americano desde John F. Kennedy a visitar Bogotá, a capital colombiana.

Mas após uma semana que viu a queda da ministra das Relações Exteriores de Uribe, devido aos laços da família dela com as milícias paramilitares e a prisão por assassinato de seu chefe da polícia secreta, que ele escolheu a dedo, a próxima baixa no escândalo poderá ser a reputação americana. A região se sente esquecida e alienada por Washington desde os ataques terroristas de 11 de Setembro, assim como uma série de vitórias de presidentes esquerdistas.

Bush não deverá oferecer nova ajuda significativa ou comércio em sua visita de 8 a 14 de março, mas seu adversário Hugo Chávez, da Venezuela rica em petróleo, está percorrendo o continente com um talão de cheques aberto.

"Em quem apostamos todo nosso capital político na América Latina? Uribe", disse Adam Isacson, do Centro para Política Internacional, um centro de estudos em Washington. "Se este escândalo envolvê-lo ou às suas forças armadas, será um golpe devastador a todo o projeto da política americana."

O escândalo "parapolítico" estourou no ano passado, quando um computador apreendido com o líder paramilitar "Jorge 40" revelou os nomes de dezenas de políticos que supostamente colaboravam com os paramilitares na intimidação de eleitores, na tomada de terras e no seqüestro e morte de sindicalistas e adversários políticos. Outras revelações se seguiram, incluindo documentos secretos assinados por autoridades prometendo apoio moral ou recursos para as milícias ilegais.

Os grupos paramilitares se formaram nos anos 80 para combater os guerrilheiros de esquerda que aterrorizavam a população há mais de 40 anos. Mas as milícias, como suas rivais esquerdistas, logo foram implicadas em massacres, seqüestros e tráfico de drogas para os Estados Unidos. O grupo paramilitar Forças de Autodefesa Unidas da Colômbia (AUC) é considerado por Washington como sendo uma organização terrorista e muitos de seus líderes são procurados para extradição por crimes ligados ao narcotráfico.

Em um processo de paz que foi iniciado por Uribe, cerca de 31 mil supostos combatentes paramilitares baixaram suas armas e concordaram em confessar seus crimes em troca de penas mais leves, abrindo o caminho para investigações dos laços com elites poderosas.

Oito congressistas pró-Uribe foram presos por colaboração com paramilitares e dezenas de políticos nacionais e regionais estão sob investigação. Alguns deles fugiram do país. Legisladores pró-Uribe, assim como da oposição, pediram a realização de eleições especiais para "limpar" o Congresso, para apagar as suspeitas de que muitos foram eleitos devido ao apoio dos paramilitares. Um coronel condecorado foi afastado de seu posto e outros ex-oficiais militares também estão sob investigação.

Na segunda-feira, a ministra das Relações Exteriores de Uribe, María Consuelo Araújo, renunciou após a Suprema Corte ter prendido seu irmão, um senador aliado de Uribe, por envolvimento no seqüestro de um adversário político. O pai dela, um ex-governador, outro irmão e um primo também estão sob investigação.

Na quinta-feira veio o pior golpe. Jorge Noguera, que serviu como diretor de campanha de Uribe e posteriormente como chefe da polícia secreta da Colômbia, foi preso pelo procurador-geral. Noguera é acusado de dar uma lista de sindicalistas e ativistas para os paramilitares, que então os assassinaram. Outra ex-autoridade da polícia secreta está cumprindo uma pena de 18 anos por apagar registros policiais dos paramilitares e traficantes de drogas.

O escândalo já surte um efeito no Capitólio, onde já são questionados os pedidos para US$ 4 bilhões adicionais em ajuda para o combate ao narcotráfico e um pacto de livre comércio que estão aguardando aprovação.

"Os contribuintes americanos merecem garantias de que o governo colombiano não mantém laços com estes grupos terroristas", disse o senador Patrick J. Leahy, um democrata de Vermont e presidente do subcomitê orçamentário que supervisiona os programas americanos de assistência no exterior. "Este escândalo apenas reforça a necessidade de reavaliar com quem estamos lidando, se medidas corretivas adequadas estão sendo tomadas e o que estamos recebendo pelo nosso dinheiro."

Para o governo Bush, Uribe tem sido um raro e ferrenho aliado em uma região cada vez mais dominada por líderes esquerdistas ou antiamericanos. Mas com o início das audiências do Congresso colombiano, no próximo mês, sobre o poder paramilitar no Estado natal de Uribe, incluindo acusações contra o irmão deste, o escândalo ameaça envolver o próprio presidente.

Os defensores de Uribe em casa e em Washington se mantêm firmes, argumentando que é seu sucesso em persuadir o desarmamento e a confissão dos paramilitares que trouxe à tona os laços com as milícias ilegais. Uma recente pesquisa Gallup na Colômbia deu a Uribe um índice de aprovação de 73%.

"Os Estados Unidos aplaudem o governo colombiano por sua determinação de investigar e, quando apropriado, processar todos os envolvidos com as organizações paramilitares e outros grupos armados ilegais", disse Eric Watnik, um porta-voz do Departamento de Estado, em uma entrevista por telefone em Washington.

Mas com a visita marcada de Bush a Bogotá, a política americana para a Colômbia estará sob o microscópio. Além dos democratas no Congresso, alguns dos vizinhos da Colômbia poderão questionar por que Washington permanece fiel a um governo no meio de uma crise humilhante.

O deputado William D. Delahunt, um democrata de Massachusetts ativo em assuntos latino-americanos, disse que a evidência de laços do governo de centro-direita com os esquadrões da morte "evoca lembranças da América Central nos anos 80. Eu acho que veremos audiências sobre estes assuntos". Além dos problemas na Colômbia, Delahunt argumentou que "o que temos é uma política para a América Latina que é uma reflexão tardia".

Maria McFarland, uma pesquisadora sobre Colômbia para a Human Rights Watch, disse que Bush "apóia Uribe incondicionalmente", apesar das antigas alegações de suas forças armadas colaborarem com os esquadrões da morte. Com as provas agora aparecendo, disse McFarland, a política americana parece hipócrita.

"Eles parecem preparados para criticar duramente os líderes com os quais discordam, mas quando seus aliados fazem algo, eles fazem vista grossa", ela disse. Se os Estados Unidos continuarem "apoiando tão fortemente um governo atolado em corrupção e com ligações com terroristas e narcotraficantes", segundo ela isto alimentará o ressentimento em outros países latino-americanos que foram ignorados.

Ao depositar tanta fé em Uribe, Bush deverá ampliar sua agenda durante uma viagem que também o levará ao Brasil, Uruguai, Guatemala e México. "Nós veremos uma verdadeira ênfase no México e Brasil, no etanol e biocombustível - uma tentativa de elevar outros parceiros regionais", previu Dan Restrepo, do Centro para o Progresso Americano, um grupo de estudos em Washington. "Parte do raio de esperança nisto tudo poderia ser um despertar para nos dedicarmos a todos os nossos interesses na América Latina."

Mas Leonardo Carvajal, um professor de relações exteriores da Universidad Externado de Colombia, em Bogotá, desconsiderou tais comentários como deixando de levar em consideração a "realpolitik" estratégica da região. "A Colômbia é a cabeça de ponte dos interesses americanos na América Latina. (...) Não importa que escândalo aconteça", disse Carvajal. "Todos sabem que o contrapeso para Chávez é Uribe e que a Colômbia é o baluarte dos interesses americanos na América Latina." George El Khouri Andolfato

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