Vida de monge: silêncio e imobilidade

Carolyn Y. Johnson
em Gyeongju, Coréia do Sul

No meio de um bosque de bambus, um monge vestido com calça e túnica largas e cinzentas fez um golpe perfeito, chutando com os pés oblíquos dois troncos de bambu. "Noossa", sussurrei, vendo a levitação dele. Um dos monges se aproximou e imitou meu sotaque americano e meu deslumbramento de garotinha: "Noossa". Nós dois rimos da situação.

Carolyn Y. Johnson/The Boston Globe 
Estátuas de pedra sentadas em fileiras transmitiam calma no templo budista de Golgulsa

Esta não era uma cena de algum filme de artes marciais mais elaborado. Era o auge do dia que vivi como se fosse uma monja budista coreana, depois de ter passado a noite em Golgulsa, um pequeno templo budista que fica a aproximadamente três horas ao sudeste de Seul.

Eu procurava alguma paz interior. Eu havia praticamente passado por um bombardeio em Seul. Minha mãe e eu ainda nos recuperávamos de uma capenga excursão em ônibus guiada em língua coreana pelo "Havaí da Coréia" - um extravagante resort numa ilha chamada Jeju. Minha mãe começava até a perder o inglês dela, já falando com palavras e verbos fragmentados, até parar de falar comigo de vez.

Eu comecei minha visita a Golgulsa da mesma forma como nas outras visitas a templos budistas. Eu bebia água em copinhos plásticos pendurados perto do bebedouro e depois partimos para explorar a série de santuários espalhados pela colina.

Na parte mais alta, havia um Buda gigante esculpido na rocha. Pelos cantos iluminados a luz de vela, estátuas de pedra sentadas em fileira transmitiam calma; lanternas brilhantes e coloridas estavam dependuradas por toda parte, celebrando o aniversário de Buda. Aí passei a encarnar de verdade meu papel de monja, num exercício de silêncio e imobilidade. Uma mulher silenciosa me levou ao dormitório feminino e me entregou a programação.

Após o jantar - uma refeição simples, com arroz, kimchi, espinafre, brotos de feijão e sopa - nós andamos até o sopé do morro e aprendemos movimentos e respiração básicos do Sunmudo, "uma arte marcial Zen" que parece um misto do tae kwon do e da yoga.

Após alguns aquecimentos, a classe mais avançada executou golpes feito chutes coreográficos. Um monge nos chamou para um canto e nos mostrou como começar a respiração Zen, uma exalação controlada que parece despertar energias mais profundas no corpo.

Nós tentamos uma manobra mais simples, que terminou com uma perna esticada no chão, braços abraçando as cabeças. A aula terminou com exercícios delicados com suaves gestos fluindo, com nossos polegares se tocando como se estivéssemos evocando flores de lótus diante de nossos corações.

Às 10h da noite, eu desenrolava minha tradicional roupa de cama coreana, um fino colchão chamado de "yo" que fica sobre o assoalho aquecido, o "ondol". Antes que pudéssemos perceber, um estrondo oco e ritmado foi se impondo. Eram 4h da manhã. Nós já tínhamos sido avisados sobre o chamado. "Se alguém não estiver presente no canto matinal (às 4h30), como punição ele ou ela deverá se curvar em reverência 3.000 vezes, e todos no templo Golgul deverão jejuar um dia inteiro", dizia a programação.

Durante os cânticos, nós fazíamos reverências metodicamente, enquanto as vozes dos monges vibravam. Então começamos a meditação: primeiramente, sentando e clareando nossas mentes, focando na imobilidade; depois era andar em silêncio; e, finalmente, comer.
Para os monges, o alimento é meditação. A refeição matinal é digerida em silêncio, e o ruído dos pauzinhos nas tigelas se sobressai. Comida, água e sopa passam de uma tigela para outra, e um pedaço de kimchi é a esponja para deixar tudo limpo.

Após a refeição matinal, os monges nos mobilizam em um tipo de treinamento básico para eles, o que faz doer nossos músculos. O treinamento consistia em subir alguns degraus de pedra, depois descer de quatro, subir de cócoras e depois descer como se fossemos carrinho de mão enquanto os monges usavam uma das poucas palavras em inglês que dominam: "Faster!" (Rápido!)

Depois caminhamos descendo uma colina íngreme, passando pelos arrozais até o final do bambuzal. "Corram!", gritavam, e nós treinando lá no bambuzal, deslizando e caindo na esteira lisa formada por folhas de bambu que cobria a terra. Somente então os monges começam a rir, subindo o morro com varas de bambu, fazendo piruetas à nossa frente.

No início era um tanto intimidante, com todas aquelas varas escorregadias e flexíveis balançando. Mas então comecei a arrancar com força a partir das coxas, esticando meus braços, e de repente subia ficando a mais de dois metros acima do chão, golpeando e descarregando tudo. Os monges apoiavam meus pés, mas já não importava - me sentia no ar, não mais conectada à terra. Marcelo Godoy

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