Em revelação de Watergate, Thompson leu um roteiro

Michael Kranish
Em Washington

Um dia antes do consultor da minoria no Comitê de Watergate do Senado, Fred Thompson, ter feito a pergunta que o colocou no centro das atenções - ao perguntar a um assessor do presidente Nixon se havia um sistema da gravação na Casa Branca - ele telefonou para o advogado de Nixon.

Thompson indicou à Casa Branca que o comitê sabia sobre o sistema de gravação e tornaria pública a informação. Em suas memórias de Watergate praticamente esquecidas, "At That Point in Time", Thompson disse que agiu "sem autoridade" ao divulgar o conhecimento que o comitê tinha das fitas, que forneceram a evidência que levou à renúncia de Nixon. Foi um dos muitos vazamentos de Thompson para a equipe de Nixon, segundo um ex-investigador para os democratas no comitê, Scott Armstrong, que permanece irritado com as ações de Thompson.

"Thompson era um agente infiltrado da Casa Branca", disse Armstrong em uma entrevista. "Fred estava trabalhando para derrubar a investigação sobre o que aconteceu para autorizar Watergate e descobrir qual foi o papel do presidente."

Ao ser perguntado sobre o assunto nesta semana, Thompson - que está se preparando para disputar a indicação presidencial republicana para 2008 - respondeu por e-mail sem tratar da acusação específica de ser um espião de Nixon: "Eu estou feliz por tudo isto ter finalmente feito alguém ler meu livro sobre Watergate, apesar de ter levado mais de trinta anos".

A visão de Thompson como sendo um espião infiltrado de Nixon vai contra a antiga imagem do ex-senador do Tennessee de um promotor de mentalidade independente, que ajudou a derrubar o presidente que ele admirava. De fato, o site do comitê presidencial de Thompson se gaba de que ele "ganhou atenção nacional ao liderar a linha de investigação que revelou o sistema de gravação de áudio no Escritório Oval da Casa Branca". É uma imagem que foi solidificada pelo retrato de Thompson como um promotor de fala dura na série de televisão "Lei & Ordem".

Mas a história de seu papel no caso Nixon ajuda a colocar em perspectiva a recente posição de Thompson como um dos mais francos defensores do perdão a I. Lewis "Scooter" Libby, o ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney. Assim como Thompson antes defendeu fervorosamente Nixon, ele pediu o perdão para Libby, que foi condenado em março por obstrução da Justiça na investigação do vazamento do nome de uma agente da CIA.

Thompson declarou em um comentário em rádio em 6 de junho que a condenação de Libby foi uma "injustiça chocante (...) criada e autorizada por autoridades federais". Bush comutou na segunda-feira a sentença de 30 meses de Libby, faltando pouco para um perdão.

A intensidade dos comentários de Thompson sobre Libby lembrou a forma como ele inicialmente se posicionou em relação a Nixon. Poucos republicanos eram crentes mais fortes em Nixon durante os primeiros dias de Watergate.

Thompson, em suas memórias de 1975, escreveu que acreditava que "não haveria nada incriminador" sobre Nixon nas fitas, uma teoria que ele disse que "provou estar totalmente errada".

"Olhando para trás, fica aparente que eu estava subconscientemente buscando uma forma de justificar minha fé no líder do meu país e do meu partido, um homem que estava sofrendo um ataque violento da imprensa, que eu achava que nunca tinha lhe dado um tratamento justo no passado", escreveu Thompson. "Eu procurava por um motivo para acreditar que Richard M. Nixon, presidente dos Estados Unidos, não era um velhaco."

Thompson era um consultor jurídico assistente federal no Tennessee quando a investigação do Congresso de Watergate teve início. Ele serviu como gerente de campanha da bem-sucedida reeleição do senador Howard Baker, um poderoso republicano do Tennessee, em 1972.

Quando o Comitê de Watergate do Senado foi criado em 1973, Baker se tornou o líder da bancada republicana e trouxe Thompson para Washington para servir como consultor jurídico da minoria. Baker, que está entre aqueles que pedem para Thompson disputar a presidência, não retornou o telefonema que pedia comentários.

John Dean, o ex-advogado da Casa Branca de Nixon, que foi uma testemunha central nas audiências, disse acreditar que Baker e Thompson estavam longe de serem membros imparciais. "Eu sabia que Thompson seria um homem de Baker, tentando proteger Nixon", disse Dean em uma entrevista.

O site do comitê presidencial de Thompson, imwithfred.com, sugere que este ajudou a revelar o sistema de gravação e expôs o papel de Nixon no acobertamento de Watergate. E apesar da pergunta de Thompson ao assessor presidencial Alexander Butterfield durante a audiência de Watergate ter revelado a existência do sistema de gravação para o mundo exterior, não foi Thompson que descobriu que Nixon gravava as conversas. Nem foi Thompson o primeiro a questionar Butterfield sobre a possibilidade.

Em 13 de julho de 1973, Armstrong, o membro democrata, fez a Butterfield uma série de perguntas durante uma sessão privada que levou à revelação. Ele então passou o interrogatório para um investigador republicano, Don Sanders, que fez a Butterfield a pergunta que levou à menção ao sistema de gravação.

Para assombro de todos na sala, Butterfield reconheceu a existência do sistema de gravação. Quando Thompson soube do reconhecimento por Butterfield, ele vazou a revelação para o advogado de Nixon, J. Fred Buzhardt.

"Mesmo não tendo autoridade para agir em nome do comitê, eu decidi telefonar para Fred Buzhardt em sua casa" para lhe dizer que o comitê tinha tomado conhecimento do sistema de gravação, escreveu Thompson. "Eu queria assegurar que a Casa Branca tivesse pleno conhecimento do que seria revelado para que pudesse tomar a medida apropriada."

Armstrong disse que ele e outros democratas há muito estavam convencidos de que Thompson estava vazando informações da investigação para a Casa Branca. O comitê, por exemplo, obteve um memorando escrito por Buzhardt que os democratas acreditavam ter se baseado em informação vazada por Thompson.

Armstrong disse que achava que os vazamentos levariam à demissão de Thompson. "Qualquer promotor ficaria irritado se um membro da equipe de acusação estivesse orquestrando uma defesa para Nixon", disse Armstrong, que posteriormente se tornou repórter do "Washington Post" e atualmente é diretor executivo da Information Trust, uma organização sem fins lucrativos especializada na abertura de informações do governo.

Enquanto isso, Baker insistiu para que Thompson fosse autorizado a fazer a Butterfield a pergunta sobre o sistema de gravação na audiência pública em 16 de julho de 1973, três dias depois de o comitê ter tomado conhecimento do sistema.

A escolha de Thompson irritou Samuel Dash, o advogado chefe democrata no comitê, que preferia que um democrata fosse autorizado a fazer a pergunta. "Eu fiquei pessoalmente ressentido e me senti trapaceado", escreveu Dash em suas memórias. Mas ele disse que sentiu que "não tinha escolha exceto permitir que Fred Thompson desenvolvesse o material de Butterfield", porque a pergunta foi feita inicialmente por Sanders, um republicano.

Quando Dash disse a Thompson no dia seguinte que a audiência concordou que Thompson fizesse a pergunta que mudaria a história americana, este respondeu: "Isto é muito generoso da sua parte, Sam".

E foi assim, na audiência, que Thompson saltou para o centro dos holofotes nacionais: "Você está ciente da instalação de quaisquer dispositivos de escuta no Escritório Oval do presidente?" ele perguntou a Butterfield durante a audiência transmitida pela televisão. "Sim, senhor, eu estava ciente dos dispositivos de escuta", respondeu Butterfield.

Mesmo enquanto interrogava Butterfield durante a audiência, Thompson disse posteriormente, ele acreditava que as fitas inocentariam Nixon, de forma que não viu problema em pressionar pela divulgação delas. Foi depois de Thompson ouvir Nixon incriminar a si mesmo nas fitas que ele finalmente decidiu que Nixon era um velhaco - e deixou de defender o presidente.

"Olhando para trás, eu me pergunto como pude deixar de perceber de imediato (..) sobre a importância das fitas", escreveu Thompson. "Eu percebi que provavelmente pensaria sobre as implicações de Watergate pelo resto de minha vida." George El Khouri Andolfato

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