Estudo revela que preconceito racial pode afetar tratamento médico

Stephen Smith

Posturas profundamente arraigadas a respeito de raça influenciam a maneira como os médicos tratam os seus pacientes negros, segundo um estudo da Universidade Harvard que pela primeira vez mostra detalhadamente como o preconceito inconsciente contribui para um tratamento médico de nível inferior.

Os pesquisadores sabem há anos que os pacientes negros que estão sofrendo um ataque cardíaco têm uma probabilidade bem menor do que os pacientes brancos de receber tratamentos com potencial para salvar suas vidas, tais como drogas fragmentadoras de coágulos, em um exemplo dramático das persistentes disparidades que afetam o sistema de saúde dos Estados Unidos. Mas as razões por trás dessas diferenças sombrias quanto ao tratamento de doenças do coração, assim como do câncer e outras enfermidades graves, eram nebulosas, e a culpa era atribuída aos médicos, ao hospitais e aos planos de saúde.

No novo estudo, médicos em fase de treinamento em Boston e Atlanta foram submetidos a uma pesquisa de 20 minutos feita por computador e elaborada para detectar tanto o preconceito escancarado quanto o implícito. Foi também apresentado a eles um caso hipotético de um homem de 50 anos de idade afligido por uma dor aguda no peito. Em certos cenários o homem era branco, e, em outros, negro.

"Descobrimos que à medida que aumentavam os preconceitos inconscientes dos médicos contra os negros, a probabilidade de que eles submetessem os pacientes a um tratamento anti-coagulante diminuía", afirma o principal autor do estudo, o médico Alexander R. Green, do Hospital Geral de Massachusetts. "Não é uma questão de ser ou não racista. O que realmente importa é que a maneira como o cérebro processa informações é influenciada por coisas que a pessoa vê, experimenta, bem como pela forma como a mídia apresenta os fatos".

Os especialistas prevêem que o novo estudo, publicado no site do "Journal of General Internal Medicine", resultará em uma considerável auto-análise na carreira médica, na reavaliação dos currículos das escolas de medicina e em cursos de atualização para médicos veteranos.

"Anos de educação avançada e de intenções igualitárias não se constituem em uma proteção contra o efeito das atitudes implícitas", adverte o médico Thomas Inui, presidente do Regenstrief Institute Incorporation, em Indianápolis, que estuda os grupos de pacientes vulneráveis. "Quando é que elas emergem? Quando estamos envolvidos com processos decisórios afetados por grande pressão e por coisas importantes que estão em jogo, quando existe muitas coisas influindo na nossa decisão, mas temos pouco tempo para refletir sobre tais coisas. É nesses momentos que as atitudes implícitas que não são científicas emergem e tomam conta de nós".

Green se diz incapaz de explicar por que o preconceito implícito faria com que os médicos privassem os pacientes de terapias capazes de salvar-lhes as vidas, e outros pesquisadores afirmam não saber até que ponto o preconceito inconsciente é um fator importante para o amplo problema das disparidades.

Segundo os especialistas, a melhor maneira de combater tais impulsos é reconhecer que eles existem. Eles sugerem que os profissionais da área médica façam um teste para medir o preconceito inconsciente, tal como aquele do site implicit.harvard.edu.

"A grande vantagem do ser humano, de contar com o privilégio da consciência, de ser capaz de reconhecer o material que está oculto dentro de nós, é que somos capazes de derrotar os preconceitos", afirma Mahzarin R. Banaji, um psicólogo da Universidade Harvard que ajudou a elaborar o teste de preconceito que é amplamente utilizado.

A médica JudyAnn Bigby, secretária de Saúde e Serviços Humanos de Massachusetts e especialista em disparidades do sistema de saúde, diz que o estudo demonstra a importância de monitorar como os hospitais e médicos fornecem atendimento aos pacientes de raças diferentes.

Mas Inui e outros especialistas dizem que nem mesmo o controle dos preconceitos dos médicos será suficiente para eliminar as disparidades de tratamento.

Uma série de estudos realizados nos últimos dez anos demonstra graficamente a dimensão das disparidades e a complexidade do problema, que está vinculado a questões como pobreza, localização geográfica e genética.

Os pacientes negros que estão em meio a um ataque cardíaco, por exemplo, têm apenas a metade da probabilidade de receber medicação anti-coagulante em relação aos pacientes brancos, e é também bem menos provável que sejam submetidos a uma cirurgia de tórax aberto. De maneira similar, as mulheres negras são submetidas a exames para detecção do câncer da mama com freqüência substancialmente inferior à das mulheres brancas. E um número menor de bebês negros vive para comemorar o primeiro aniversário: em Massachusetts, o índice de mortalidade dos bebês negros é mais do que o dobro daquele registrado entre os bebês brancos.

As disparidades no tratamento médico emergiram como uma questão de âmbito nacional com a divulgação, em 2002, de um estudo pioneiro chamado "Tratamento Desigual", que foi encomendado pelo Congresso e produzido pelo Instituto de Medicina. Em Boston, o departamento municipal de saúde divulgou dois anos atrás um plano abrangente para lidar com a questão da disparidade. O prefeito Thomas M. Menino descreveu a questão como o problema de saúde mais urgente enfrentado pela cidade.

"Atualmente a maioria dos médicos deseja admitir que existem disparidades importantes no sistema de saúde", afirma o médico John Ayanian, um especialista em políticas de saúde do Hospital Brigham and Women's, e que não participou da recente pesquisa. "Porém, ainda há uma barreira para que vários médicos reconheçam que pode haver disparidades no tratamento dos seus próprios pacientes".

Foi durante uma palestra feita há três anos por Banaji que Green teve a idéia de medir o preconceito inconsciente dos médicos usando um teste que Banaji ajudou a desenvolver. O instrumento nunca havia sido aplicado nos médicos e nas suas práticas de tratamento.

Green e seus colegas decidiram testar médicos residentes no Hospital Geral de Massachusetts, no Brigham e no Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, bem como em um hospital de Atlanta. Foi informado aos residentes que o estudo avaliava o uso de drogas para tratamento de ataques cardíacos em salas de emergência, mas não que ele também examinava o preconceito racial. Participaram do teste 220 médicos.

Os residentes receberam primeiro uma narrativa descrevendo um paciente do sexo masculino que surge em uma sala de emergência reclamando de dores no peito. Acompanhando a narrativa havia uma imagem gerada por computador do paciente, que podia ser um homem branco ou negro, mostrado do tórax para cima, vestindo uma bata de hospital, e com uma expressão facial neutra.

Foi indagado aos médicos se, com base nas informações fornecidas, eles diagnosticariam um ataque cardíaco e, caso o fizessem, se prescreveriam drogas anti-coagulantes chamadas trombolíticos, comumente usadas em hospitais de comunidades para estabilizar pacientes que estão sofrendo ataques cardíacos, e ainda qual seria a probabilidade de administrarem estas drogas.

Também foram feitas aos participantes do estudo perguntas elaboradas para determinar se eles eram abertamente preconceituosos. As respostas revelaram que este não era o caso.

Por último, os residentes fizeram o "teste de associação implícita" de Banaji, que se baseia no conceito de que quanto mais intensamente a pessoa submetida ao teste associar uma figura de um paciente branco ou negro a um conceito específico, como, por exemplo, a cooperação, mais rapidamente os dois fatores se encaixarão. Os médicos brancos, asiáticos e hispânicos foram os mais rápidos para fazer associações entre negros e conceitos negativos, e mais lentos para associar os negros e os conceitos positivos. O pequeno número de médicos negros no estudo revelou propensão igual de discriminar brancos e negros.

A seguir os pesquisadores compararam os resultados dos testes de associação implícita com as decisões quando ao fornecimento do remédio anti-coagulante, e descobriram que os médicos que avaliaram de forma mais negativa os negros foram também aqueles com menor probabilidade de prescrever o medicamento a esses pacientes.

Um outro estudo, que deverá ser apresentado por um pesquisador de medicina da Universidade Johns Hopkins em outubro, chega a resultados similares. Quase 50 médicos que fizeram o mesmo teste exibiram um preconceito favorável aos brancos que pareceu afetar a forma como interagiam com um ator negro que fez o papel de paciente.

"A conclusão é que, mesmo em meio a pessoas muito bem intencionadas, os preconceitos implícitos podem ser predominantes e, em algumas situações, causar impacto sobre as decisões clínicas", afirma o médico Amal Trivedi, especialista em disparidades no tratamento de saúde da Escola de Medicina da Universidade Brown, e que não participou do estudo. "O que este estudo pode fazer é elevar a consciência a respeito destas descobertas". UOL

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