Tranqüilamente, imigrantes ilegais vivem o sonho americano

Maria Sachetti

Ele mora em uma casa de dois quartos perto da rodovia em Boston, com flores na frente e uma churrasqueira no fundo. Criou dois filhos, comprou dois carros e pagou impostos federais e estaduais todos os anos.

Ele se mistura completamente à vizinhança, exceto por uma coisa: este proprietário de uma residência particular, com seus 170 m2 de solo americano, é um imigrante ilegal da Colômbia, um entre possivelmente centenas de milhares em todo o país que conseguiram agarrar um pedaço do sonho americano.

Sua própria existência, que hoje ganha cada vez mais atenção dos formuladores de políticas em Washington, provocou novos pedidos de restrições aos empréstimos para compra de residências, ao mesmo tempo que muitos imigrantes ilegais ascendem à classe média e se inserem em suas comunidades.

Pat Greenhouse/The Boston Globe 
Colombiano de 48 anos é um dos imigrantes ilegal que possui sua própria casa em Boston

Críticos da imigração ilegal acham absurdo que imigrantes não-autorizados possam comprar casas, considerando-as investimentos de risco para os bancos.

Os imigrantes alegam que muitos deles estão mais estáveis do que as pessoas pensam, e que alimentam os investimentos nas cidades.
"Este lugar está cheio de pessoas como eu", disse o homem de 48 anos. Ele falou sob a condição de que seu nome não seja publicado, porque é facilmente encontrado no registro de imóveis e teme que as autoridades de imigração o persigam. "Elas têm casas porque os bancos lhes deram empréstimos".

Embora não tenham a residência legal, os imigrantes encontram maneiras de obter crédito e comprar casas: têm empregos, pagam as contas, abrem contas bancárias e solicitam cartões de crédito. Muitos até pagam imposto de renda anualmente usando seus verdadeiros nomes, endereços e números de identificação emitidos pelo Serviço de Imposto de Renda. Este geralmente não compartilha informações com os agentes federais de imigração.

Nada na lei federal proíbe que os imigrantes ilegais possuam residências. E os bancos podem legalmente aceitar passaportes, números de identificação de contribuinte e cartões consulares de pessoas que querem abrir contas bancárias ou obter empréstimos imobiliários, segundo o Controlador Monetário, um órgão do Tesouro dos EUA que regulamenta os bancos nacionais.

O colombiano proprietário de casa em Boston disse que uma convergência de fatores lhe permitiu comprar uma casa de mais de US$ 400 mil através de um corretor que falava espanhol, em 2004.

Primeiro, ele disse, obteve um número verdadeiro da Seguridade Social e uma carteira de motorista de Massachusetts no início da década de 1990, antes da repressão à Seguridade. Depois trabalhou em três empregos: fazendo pizzas de dia, limpando escritórios à noite e levando lençóis de hotéis para a lavanderia nos fins de semana. Para conseguir crédito abriu uma conta bancária e pediu cartões de crédito, que sempre paga à vista.

No dia em que comprou a casa, pagou US$ 4 mil de entrada mais taxas. Devido à baixa prestação, ele disse que teve uma alta taxa de juros, de 7,8%, que depois reduziu através de refinanciamento.

Hoje ele apenas limpa escritórios das 5 da tarde às 6 da manhã, cinco dias por semana, ganhando US$ 3 mil por mês. Disse que cobre a prestação mensal da hipoteca de US$ 2.400 com seu salário, o aluguel de um inquilino e a ajuda de parentes que moram com ele.

Ele diz que o esforço vale a pena e que está confiante de que conseguirá pagar a hipoteca. "O dinheiro que você gasta em aluguel é dinheiro perdido", ele diz, com um aceno da mão. "Aluguel é jogar dinheiro fora".

Outro dono de casa em uma cidade litorânea no leste de Massachusetts, um trabalhador da construção de 50 anos que está no país ilegalmente, vindo da Irlanda, disse que usou um número de identificação de contribuinte para comprar uma casa que vale quase US$ 400 mil. Dois anos atrás um amigo lhe indicou um pequeno banco local que recebia bem os estrangeiros. Como o colombiano, ele disse que paga todos os seus impostos. "Não estamos prejudicando os cidadãos americanos", disse em uma entrevista por telefone.

"Não sou um cidadão, mas faço minha parte como cidadão".

Os críticos acusam os bancos de usar brechas jurídicas para basicamente sancionar a imigração ilegal, e temem que os imigrantes que não falam bem inglês -ou que não têm habilidade financeira- sejam uma presa fácil para credores inescrupulosos.

O deputado republicano John T. Doolittle, da Califórnia, tentou restringir os empréstimos para imigrantes ilegais este ano quando apresentou uma lei para proibir que empresas patrocinadas pelo governo concedam empréstimos residenciais com base nos números de identificação de contribuintes. A proposta foi aprovada na Câmara em maio como uma emenda a outra lei e está pendente no Senado.

"Isso praticamente zomba do nosso sistema", disse Doolittle. "Você pode ser dono de um pedaço do sonho americano sem estar aqui legalmente".
Ira Mehlman, porta-voz da Federação para a Reforma da Imigração Americana, criticou os credores de hipotecas e outros por venderem empréstimos a pessoas que podem ser deportadas a qualquer momento. "É mais um exemplo de empresas que ignoram o impacto que a imigração ilegal tem sobre a sociedade porque acham que podem ganhar dinheiro com isso", ele disse.

Os banqueiros hipotecários dizem que acatam as leis federais e muitas vezes exigem registros adicionais, como cartas de empregadores, para avaliar se um mutuário pode pagar o empréstimo.

"Não é função dos bancos nossos membros determinar a política de imigração", disse Corey Carlisle, diretor sênior de assuntos do governo na Associação de Banqueiros Hipotecários, uma organização nacional que representa mais de 3 mil empresas. "Mas... eles não querem fazer um empréstimo para alguém que não conseguirá pagá-lo".

Advogados e outros dizem que a propriedade de casas revela um lado diferente da imigração ilegal -o dos imigrantes, geralmente em comunidades de baixa renda, que pagam impostos e muitas vezes reduzem a criminalidade.

"Eles são iguais a todo mundo. Não querem continuar pagando aluguel", disse o advogado Chris Lavery, do Centro de Imigração Irlandesa em Boston. "As pessoas que são imigrantes ilegais são seus vizinhos".
O colombiano disse que ele e sua família se sentem bem-vindos no bairro. A casa é pequena mas confortável, com lavadora de pratos, microondas e uma grande televisão de tela plana. Nos fins de semana ele gosta de acender a churrasqueira e tomar uma cerveja com os vizinhos. Eles reciclam papéis e latas como todo mundo. Um prêmio de bons serviços da pizzaria em que trabalhava decora sua sala de visitas.
Comprar uma casa em Boston não fazia parte do plano quando ele chegou, no início dos anos 90. Mas ele e a família economizaram e construíram um apartamento de três quartos de US$ 70 mil na cidade colombiana de Medellín, com vista para as montanhas da cidade.

Ele voltou a viver lá em 1997, mas não encontrou trabalho. Em poucos meses estava de volta em Boston. Ainda é dono do apartamento em Medellín, mas teve de alugá-lo para outra pessoa. "Às vezes tenho vontade de vender aquela casa", ele diz sorrindo. "Então compraria outra coisa aqui". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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