Na televisão, programas confrontam estereótipos do transexualismo

Joanna Weiss

Carmelita é bonita. Não há como negar. É ardente, com cabelo comprido louro e amplo decote. Ela é majestosa com um vestido longo. O fato de antes ser homem só vem à cabeça depois.

Quase.

A personagem -interpretada por uma atriz transexual chamada Cândis Cayne- traz mais do que intriga sexual para "Dirty Sexy Money", nova série da ABC sobre um clã rico e sofrido de Nova York. Ela acrescenta surpreendente profundidade a uma novela que na maior parte é satírica. E traz algo novo para a televisão em geral: um personagem transexual que não é apenas uma estranheza. Sim, é o tema de algumas cenas, especialmente no começo. Mas ela também é muito verdadeira, uma amante surpreendentemente adorável de um homem complicado e apaixonado.

Mesmo com os limites inibidos de nossa cultura, os personagens transexuais há muito atraem fascínio. Eles figuraram entre convidados em dramas médicos e programas jurídicos, ou encontraram formas de entrar em elencos pouco convincentes: Alexis, a transexual da "Betty, a feia", da ABC, é interpretada por Rebecca Romijn.

Agora, depois de filmes como "Transamerica", de 2005 -cujo personagem transexual foi interpretado por Felicity Hufman de "Desperate Housewives"- os transexuais estão se tornando ainda mais comuns. Mas não tão tridimensionais.

"Big Shots", outra nova série da ABC sobre um grupo de homens ricos e insatisfeitos, apresenta uma prostituta transexual chamada Dontrelle, que faz sexo com o executivo desavisado Dylan McDermott. E no final do mês, a Fox Reality vai botar no ar a série controversa britânica "There's Something About Miriam", cuja chamada para reunir o elenco falava de "a aventura sexual de uma vida". O programa fez seis concorrentes lutarem por uma mulher que no final era transexual.

Os concorrentes de "Miriam", nada satisfeitos, entraram com uma ação na justiça para impedir o show de ir ao ar. E alguns ativistas transexuais nos EUA, agitados com a proeminência de novos personagens transexuais, estão igualmente preocupados sobre o que representam.

Quebra do tabu

Como "Miriam", "Big Shots" usa velhos estereótipos de transexuais que tentam enganar homens inocentes, diz Jillian T. Weiss, professora de direito da Remap College e consultora de questões de transexuais no trabalho. Mesmo "Dirty Sexy Money", diz ela, em grande parte limita a influência de Carmelita ao quarto de dormir. Ainda não está ao alcance uma era de um "'Will and Grace' transexual", diz ela.

"O fato desses dois programas de televisão estarem no ar indica que estamos chegando à consciência do público", diz Weiss, que também é transexual. "Não significa que somos mainstream".

Não surpreende que a televisão esteja trabalhando os sentimentos públicos em relação a um tópico que antes parecia tabu. Alguns dos programas mais interessantes de televisão hoje exploram nuances de sexo. O drama da última primavera do FX "The Riches" foi elogiado em círculos transexuais por seu realismo e sua referência cruzada: o ator Eddie Izzard, que usa roupas femininas, fez o papel de um homem, enquanto seu filho pré-adolescente, Sam, usa roupas de menina.

"There's Something About Miriam" é muito menos aberto; o programa é mais zombador. Na estréia, antes de Miriam aparecer, os concorrentes masculinos se reúnem para se conhecerem em uma casa pitoresca na Espanha.

Poucas horas e alguns drinques depois, eles decidiram tirar a roupa e sentarem-se juntos nus. Os produtores fazem edições para ser o mais sugestivo possível: em entrevista confessional, um homem disse que não ia querer namorar alguém com um pomo de adão, enquanto outro diz que namorar uma mulher sem seios seria como "beijar um menino, não é?"

Em meio às obscenidades, a suave Miriam mal aparece como personagem. É mais um objeto, tão naturalmente feminina que é difícil ver o programa sem olhar para suas partes baixas. É tentador sentir pena dela -e um pouco assustador, dada a história de violência contra os transexuais, quando ela diz em certa altura que "precisa de alguém" para protegê-la.

Mas também é provável que ela não se importe com o que os produtores estão fazendo: sua principal ambição parece ser a fama. Após a exibição da série na Inglaterra, ela de fato conseguiu uma ponta como visitante no "Big Brother Australia".

Relacionamentos

Dontrelle, em "Big Shots", não é bem uma vítima, e mal representa uma vitória para a compreensão do transexualismo. No programa piloto, ela revela a verdade sobre suas genitais usando um urinol em um banheiro masculino. Ainda assim, ela tem uma pequena chance de redenção quando tenta consertar as coisas. E quando o personagem de McDermott se preocupa que o encontro será revelado em público, não parece irritado com Dontrelle.

Diferentemente de homens de verdade em "Miriam", ele não vê a confusão como uma ameaça a sua heterossexualidade.

O mesmo acontece com Patrick Darling, amor de Carmelita em "Dirty Sexy Money", interpretado com fraqueza simpática por William Baldwin. Ele é promotor do Estado de Nova York com mulher e filhos, desesperado para escapar do jugo de seu pai poderoso. Papai quer que concorra a uma vaga no Senado. Carmelita representa rebelião, está claro. Mas ela também representa compreensão e apoio, e seu relacionamento é recíproco.

Ele defende a honra dela. Ela o aconselha e o estimula a concorrer ao Senado. Seu raciocínio: faça o que seu pai quer agora, para que ele possa fazer o que ele quer no futuro. O que ela quer dizer, precisamente, não está claro. Mas poderia ser uma chance de fazer uma espécie de declaração pública -provocar um tipo de debate que a televisão pode se envolver muito antes dos americanos acompanharem.

Isso seria com certeza a primeira vez na televisão: um político e sua namorada transexual tendo um relacionamento, sem qualquer sinal de vergonha. Deborah Weinberg

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