Consertando o Iraque sem os norte-americanos

Kevin Cullen

Quando políticos e elaboradores de políticas falam sobre consertar o Iraque, o problema é geralmente retratado como um conflito religioso não administrável entre pessoas incapazes de deixarem de lado as suas fidelidades sectárias e tribais. E grande parte dos norte-americanos acredita que nós teremos que consertar essa situação - ou simplesmente escaparmos, deixando os iraquianos lutarem perpetuamente.

Mas uma nova abordagem para a resolução de conflitos desenvolvida por um pequeno grupo de negociadores da África do Sul e da Irlanda do Norte sugere que existe uma nova maneira de pensar sobre o conflito civil no Iraque, uma maneira na qual os Estados Unidos não desempenham um papel central e na qual os iraquianos simplesmente assumem o controle sobre o seu próprio processo de decisão.

Essa abordagem consiste em enxergar o Iraque como uma sociedade dividida, de forma semelhante à Irlanda do Norte - um país cujo povo está cindido por desacordos e desconfianças fundamentais, mas que não está irreversivelmente fragmentado ou condenado ao caos. O conserto de uma sociedade dividida exige um conjunto de instrumentos que não estão associados à diplomacia tradicional: começar de forma pequena, trazer os grupos antagônicos para um território neutro e não esperar que respostas surjam a partir dos governos.

Ahmed Alii/EFE - 16.out.2007 
Fumaça negra é vista em local onde explodiu um carro-bomba em Bagdá

"Governos são incapazes de lidar com sociedades divididas, porque eles não as entendem", explica Padraig O'Malley, professor da Universidade de Massachusetts em Boston que vem trabalhando em uma estratégia de negociação para o Iraque. "Pessoas de sociedades divididas estão em uma posição melhor para ajudar integrantes de outras sociedades divididas".

O processo pode ser lento e gradual, e por natureza é destituído de discursos políticos. Mas se ele funcionar, pode compensar de uma forma que não está ao alcance da diplomacia tradicional: criando uma paz duradoura a partir do seio da própria sociedade, em vez de se basear em um acordo imposto por grandes potências estrangeiras.

Com esse objetivo, O'Malley recentemente ajudou a promover o transporte de um grupo de políticos iraquianos, tanto sunitas quanto xiitas, para se reunirem com líderes civis e políticos sul-africanos e irlandeses em um remoto resort finlandês durante quatro dias. Eles esperam que a conferência possa ser o primeiro passo para uma abordagem nova e simplificada para a resolução daquilo que é visto por muita gente como o conflito mais complicado do mundo.

As raízes dessa abordagem remontam à transição da África do Sul para além do regime de apartheid. Durante anos, a elite formada pela minoria branca daquele país simplesmente ignorou a maioria negra, recusando-se a reconhecer o mandato democrático desta última, e mais importante, a própria humanidade dela. Quando o regime do apartheid começou a perder o controle sobre o poder, a situação passou a contar com todos os ingredientes para a explosão de uma cruenta guerra civil.

Mas quando Cyril Ramaphosa, o principal negociador do Congresso Nacional Africano, e o seu congênere do Partido Nacional, Roelf Meyer, começaram a se reunir regularmente em sessões discretas e não divulgadas publicamente, eles descobriram que tinham um vínculo em um nível básico e humano. A enormidade do abismo que separava os dois lados começou a estreitar-se quando eles passaram a conversar sobre o tipo de país que desejavam para os seus filhos.

A inesperada transição suave para além do apartheid teve um efeito profundo sobre O'Malley. Um acadêmico nascido em Dublin que passou grande parte das décadas de 1970 e 1980 na Irlanda do Norte, ele começou a permanecer durante longos períodos na África do Sul. Em ambos os países, ele não se limitou a apenas estudar os conflitos, tendo se envolvido na solução, tentando fazer com que os combatentes que conversavam com ele se comunicassem também entre si.

Em 1992, O'Malley ajudou a trazer os sul-africanos que contribuíram para o fim do apartheid para Boston para se reunirem com representantes de várias facções beligerantes da Irlanda do Norte. Eles se encontraram no Museu e Biblioteca John F. Kennedy, com o propósito de discutir como uma declaração de direitos poderia ajudar a resolver conflitos que se arrastavam havia gerações nos dois países. Mas, para O'Malley, a reunião dizia mais respeito a fazer com que os africanos e os irlandeses se conhecessem. Em 1996, com o auxílio de O'Malley, Ramaphosa e Meyer foram a Belfast para uma segunda rodada de discussões com os indivíduos da Irlanda do Norte.

No ano seguinte, em uma conferência na África do Sul, Nelson Mandela, então presidente da África do Sul, conversou com dois grupos distintos da Irlanda do Norte - sindicalistas protestantes que queriam que a região continuasse fazendo parte do Reino Unido, e nacionalistas católicos e republicanos, que desejavam a união com a República da Irlanda. Mandela não suavizou as palavras. Ele afirmou que o Exército Republicano Irlandês (IRA) teria que propor um cessar-fogo. E disse que os sindicalistas precisavam conversar com os republicanos irlandeses, antes mesmo que o IRA renunciasse às armas.

Membros do Sinn Fein, o braço político do IRA, quase todos eles ex-integrantes do IRA, ficaram impressionados com Mac Maharaj, o último líder militante do Congresso Nacional Africano a baixar as armas. Maharaj, que era um herói para diversos líderes do IRA, explicou como Mandela, seu antigo companheiro de cela em Robben Island, o convenceu de que a luta armada tornara-se contraproducente, e de que eles precisavam negociar com os afrikaners.

"Pessoas que não podiam ser vistas conversando entre si em Belfast conversaram em Boston e em Johannesburgo", diz O'Malley. "Houve conexões humanas reais".

No ano passado, contrariamente à maioria das previsões, o IRA desmobilizou-se e renunciou às suas armas. Em maio último, contra todas as previsões, o pregador protestante fundamentalista, reverendo Ian Paisley, líder do maior partido sindicalista, abandonou uma vida inteira de retórica anti-católica e anti-republicana e ingressou em um governo de compartilhamento de poder com Martin McGuinness, o ex-comandante do IRA.

McGuinness declarou que Mandela teve um profundo efeito sobre ele, ao dizer: "Você faz a paz com os seus inimigos, não com os seus amigos".

"É algo que soa muito simples", disse McGuinness. "Mas quando ele fez essa afirmação, ela significou algo. Ele nos pediu que fizéssemos algo que ele próprio fizera".

As experiências na África do Sul e na Irlanda do Norte forneceram a O'Malley e aos negociadores desses países alguns princípios básicos que eles acreditam que foram cruciais para o sucesso, e eles vêem o Iraque como um outro caso no qual isso poderia funcionar.

Primeiro, o conflito civil no Iraque precisa ser percebido não como um vertiginoso choque de civilizações, mas como um confronto em uma sociedade dividida devido a um conjunto específico de circunstâncias históricas. Tais conflitos estão enraizados nas emoções humanas básicas de medo, desconfiança e preconceito.

Os políticos iraquianos com os quais O'Malley tem conversado reclamam de que a divisão sunita-xiita é um paradigma simplista usado por forasteiros para reduzir uma divisão social complexa a algo que o Ocidente consiga entender. Os iraquianos insistem em dizer que a divisão não se baseia na religião, mas em influência e poder - quem controla e distribui recursos e empregos. Havia um paradigma similar na Irlanda do Norte: o conflito era freqüentemente descrito como sendo entre católicos e protestantes, quando os próprios combatentes insistiam que ele realmente dizia respeito a identidade nacional e poder, e que a filiação religiosa era coincidente, e não causal.

Segundo, esses negociadores descobriram que indivíduos, e não governos, contam com a chave para resolver o conflito. Diplomatas de alto escalão dificilmente vivem em meio ao conflito, e não estão condenados a viver com as conseqüências do fracasso. Aqueles que viveram situações de conflito violento contam com uma credibilidade consideravelmente maior junto àqueles que atualmente vivenciam tal realidade.

"É como um vício", opina O'Malley. "Somente quando você coloca os viciados juntos eles se relacionam uns com os outros de uma forma que os outros não conseguem fazer. Eles trocam histórias nas quais reconhecem os seus próprios comportamentos".

A autodeterminação e a posse do processo também são cruciais. Durante as conversações da Irlanda do Norte, Mandela insistiu que os facilitadores do seu país só continuariam a fazer as intermediações se as facções norte-irlandesas solicitassem formalmente o envolvimento deles. Isso estabeleceu um princípio-chave na nova abordagem: nada seria imposto, e aqueles engajados no conflito teriam que tomar todas as grandes decisões.

Terceiro, não há problema nenhum - e na verdade isso é provavelmente necessário - em que as partes antagônicas confrontem-se fora do seu ambiente. O'Malley e os outros descobriram que inimigos políticos ou rivais são capazes de conversar uns com os outros de forma mais aberta e honesta caso saiam do aquário da política doméstica, e quando não dão coletivas à imprensa enquanto negociam, já que estas poderiam reduzir o processo a uma barganha, ou, pior do que isso, à demagogia. O'Malley afirma que é crucial que as negociações sigam o seu curso natural, durante meses ou anos, sem que sejam objeto de posturas partidárias.

Desde o sucesso que tiveram na Irlanda do Norte, os negociadores individuais tanto da África do Sul quanto da Irlanda do Norte viajaram para outras regiões mergulhadas em conflitos profundos - tendo conversado com os bascos, os palestinos e os bósnios, entre outros. Os resultados foram mistos. Por exemplo, após alguns passos promissores nas conversações entre os separatistas bascos e o governo espanhol, as negociações empacaram e recentemente a violência ressurgiu.

O'Malley acredita que essa abordagem pode dar frutos no Oriente Médio, onde as grandes negociações de paz, ensaiadas e patrocinadas pelos governos, tais como os Acordos de Oslo, geraram bastante atenção, mas não produziram nenhum resultado duradouro.

Durante a última semana de agosto, O'Malley levou um grupo de 16 iraquianos até um resort finlandês a algumas horas de carro de Helsinque. Lá eles foram recebidos por um grande grupo de negociadores africanos e irlandeses - na primeira vez em que estes se reuniram e tentaram reproduzir o sucesso que tiveram em acabar com os problemas na Irlanda do Norte.

A conferência foi organizada pela iniciativa privada, e financiada por Robert Bendetson, diretor da rede de lojas de móveis Cabot House e um ex-aluno de O'Malley na Universidade Tufts.

A delegação iraquiana era composta de políticos sunitas e xiitas, incluindo aqueles leais ao clérigo xiita radical Moqtada al-Sadr, e de deputados ligados a várias milícias e grupos insurgentes. Ela também incluiu o ministro da Reconciliação Nacional, Akram al-Hakim.

Os africanos e os irlandeses não começaram explicando como tiveram sucesso, mas falando sobre onde eles inicialmente fracassaram. Foi uma estratégia deliberada para não dar a impressão de que agiam como conselheiros que tinham respostas para tudo. Quando os políticos norte-irlandeses explicaram a dificuldade de tentar conversar com os inimigos ao mesmo tempo tentar garantir aos seus eleitores que você não está se vendendo, os iraquianos acenaram a cabeça em sinal de aprovação.

Uma sessão foi dirigida por McGuinness, o ex-comandante do IRA e atual vice-primeiro-ministro do governo de coalizão na Irlanda do Norte, e por Jeffrey Donaldson, um dos principais membros do Partido Sindicalista Democrático, que representa a maioria dos protestantes na Irlanda do Norte. Dez anos atrás, Donaldson recusou-se a estar na mesma sala que McGuinness durante uma conferência de paz na África do Sul, por vê-lo como um assassino.

Quintin Oliver, um estrategista político da Irlanda do Norte, diz que os iraquianos reagiram durante a conferência de forma bastante semelhante aos norte-irlandeses quando estes primeiro se reuniram com os facilitadores sul-africanos em Boston e nas conferências seguintes: nos dois primeiros dias eles se dedicaram principalmente a fazer perguntas aos irlandeses e africanos, mas a seguir os iraquianos começaram a conversar entre si.

Um dos iraquianos veio até O'Malley e lhe disse: "Nunca conversamos sobre os nossos problemas de forma tão franca".

No último dia, os iraquianos se reuniram apenas entre eles. Após passarem cinco horas juntos, apresentaram um comunicado de 12 pontos comprometendo-se com os princípios democráticos e a reconciliação. Grande parte disso se baseava nos Princípios Mitchell, o roteiro usado nas conversações da Irlanda do Norte uma década atrás por George Mitchell, o ex-senador dos Estados Unidos pelo Estado do Maine.

À medida que as notícias da conferência na Finlândia se espalhavam, os céticos não perdiam tempo em observar que poucos daqueles que dela participaram tinham qualquer poder real no Iraque, tanto na política formal quanto junto aos diversos grupos armados. O'Malley responde dizendo que esta abordagem do conflito é uma progressão, que existe um processo inicial de sondagem, e que as sessões seguintes passam a atrair um conjunto mais amplo e influente de personalidades.

"A maneira como essas coisas começam é sempre a mesma", disse ele. "Você começa com a etapa de colocar as partes juntas. A seguir, faz com que eles se acostumem a estar juntos, a entender que há lições importantes a serem aprendidas com essas outras experiências, especialmente no que diz respeito à formulação do compartilhamento de poder e à reforma dos serviços de segurança. Caso eles aceitem esses princípios como uma base para como as negociações possam ocorrer, haverá uma nova rodada. Mas, antes que eles negociem, é necessário que saibam quem está participando ou não, quais são as regras básicas, e como o grupo trata as pessoas que permanecem fora do processo. A negociação das regras é o prelúdio da negociação real".

Cabe ao Iraque decidir se haverá outra conferência similar àquela na Finlândia. O'Malley pretende retornar ao Iraque no mês que vem para avaliar o apetite por uma nova rodada de conversações.

Se houver tal apetite, como ele prevê, haverá representantes mais graduados e influentes dos grupos xiita e sunita, bem como das várias facções insurgentes.

O'Malley também espera estender a sua idéia de patrocínio de negociações até outras áreas em conflito. Nesta semana representantes de comissões de verdade e reconciliação da Guatemala, de El Salvador, do Chile e da África do Sul irão se reunir na Universidade de Massachusetts em Boston para trocar as suas experiências com representantes da Irlanda do Norte e da Sérvia, onde tais comissões ainda estão em estágios de planejamento.

"Antes de correr, é necessário caminhar", afirma O'Malley. UOL

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