Sem perdão

Don Aucoin
Em Worcester, Massachusetts

A qualquer momento Grace Akallo dará a luz ao seu primeiro filho. Os médicos informaram que será um menino.

Essa possibilidade faz com que surja um sorriso radiante na face de Akallo. "É uma bênção", diz ela. Após uma breve pausa, acrescenta: "E ele vai estar comigo onde quer que eu vá".

Os instintos protetores de uma futura mãe? Talvez. Ou talvez isso seja uma resposta ao fato de que parte da infância de Akallo foi roubada. Quando ela tinha 15 anos de idade, Akallo foi seqüestrada de uma escola católica para meninas no norte de Uganda e obrigada a lutar em um exército rebelde. Antes de escapar, após sete meses, ela foi brutalizada, enterrada viva e obrigada a marchar centenas de quilômetros descalça, dispondo de tão pouca comida que por vezes teve que comer lagartixas e ratos para sobreviver.

Ela viu coisas terríveis serem feitas com outras crianças presas. Ela foi obrigada a ser a "mulher" de um comandante rebelde que tinha três vezes a sua idade. Houve momentos em que a morte parecia preferível à vida: em duas ocasiões ela tentou matar-se com a sua própria arma, como presenciou diversas outras crianças fazerem.

Mas, de alguma forma, Akallo, 27, sobreviveu com o seu espírito e a sua humanidade intactos, e acabou conseguindo chegar aos Estados Unidos. Ela recentemente formou-se pela Universidade Gordon, em Wenham. Akallo conheceu e casou-se com Jonathan Baiden, nascido em Gana e funcionário de uma casa de repouso em Worcester. Ela está se preparando para inscrever-se para um curso de direito. E em breve o bebê nascerá.

No fim das contas, ela conseguiu recuperar a sua vida e garantir um futuro, algo que parecia um sonho impossível durante o longo tormento que passou como presa. Não obstante, mais de uma década após Akallo ter escapado dos seus algozes, ela continua assombrada, não só pelo sofrimento a que foi submetida, mas também por dois fatos que está determinada a mudar.

Primeiro, milhares de "soldados infantis" ugandenses, incluindo duas amigas de Akallo que foram capturadas com ela em 1996, ainda estão em cativeiro. E, segundo, o mundo parece não se importar com isso.

"As minhas amigas ainda estão lá", diz Akallo, com a voz ficando ainda mais suave. "Elas nunca viram os pais; nunca viram as suas casas. Eles não libertaram as crianças". Akallo é co-autora de um livro sobre as suas experiências, "Girl Soldier" ("Menina Soldado"), que ela espera que provoque a ação internacional no sentido de libertar os soldados infantis. Durante anos após a sua fuga, ela repetiu a mesma oração: "Deus, por que não me dá asas para que eu possa voar e ajudar as minhas amigas".

"Deus não me deu asas", diz ela. "Mas, talvez, o livro...". Ela não termina a sentença, como se tivesse medo de ter muita esperança.

"Deus, estou pronta para morrer"
Apenas algumas horas antes da chegada dos rebeldes, as meninas da escola estavam dançando.

Era o dia 9 de outubro de 1996 - Dia da Independência de Uganda -, de forma que Akallo e suas colegas da Escola Saint Mary sintonizaram uma estação de rádio e dançaram para comemorar. No início do ano, Akallo foi matriculada na Saint Mary, uma escola católica para garotas de 13 a 16 anos em uma cidade chamada Aboke.

Ela foi criada em uma vila no nordeste de Uganda, onde a partir dos sete anos de idade Akallo ajudou a tomar conta dos quatro irmãos mais novos, além de trabalhar na agricultura com a mãe. O pai abandonou a mãe para casar-se com outra mulher e deixou de mandar dinheiro para a sua primeira família. Mesmo assim, Akallo diz: "Eu era feliz".

"Eu vivia em paz quando morava com a minha família", lembra-se ela. "As crianças não tinham medo. Nós caminhávamos até a escola, que ficava a 16 quilômetros, sem a companhia de nenhum adulto".

Mas quanto Akallo chegou na Saint Mary, no início de 1996, com 15 anos de idade, as crianças eram baixas freqüentes na guerra entre o governo ugandense e os rebeldes liderados por Joseph Kony, cujo objetivo declarado era criar um Estado administrado segundo os Dez Mandamentos. Kony e o seu chamado Exército da Resistência de Deus seqüestraram grupos inteiros de crianças, submetendo-as a uma brutalidade incansável e transformando-as em assassinos frios.

Naquela noite de outubro, enquanto Akallo dormia, uma janela foi quebrada próxima a ela, deixando-a coberta de cacos de vidro. Coronhas de rifles golpearam as portas. As garotas aterrorizadas começaram a rezar e a gritar, chamando pelas mães. Lá fora, centenas de figuras armadas, muitas delas crianças, brandiam armas, desde facões a fuzis de assalto. Eles avisaram às meninas que caso não abrissem as portas imediatamente, jogariam uma granada no dormitório.

"Todas estavam tão apavoradas", recorda Akallo. "Eles nos arrancaram da escola. Começamos a andar com eles em uma caminhada que durou a noite inteira. Todas choravam com vozes diferentes, pedindo a Deus que as ajudasse a escapar".

Ao todo, 139 meninas foram raptadas na Saint Mary. "Algumas das garotas tinham dez ou 11 anos", conta Akallo. Ao recordar-se disso, ela parece que vai chorar. "E eles eram tão brutos", acrescenta com uma voz que é quase um sussurro.

Os rebeldes acabaram libertando 109 das garotas, mas mantiveram 30 cativas. Akallo foi uma destas.

O objetivo dos rebeldes era aumentar o tamanho do seu exército com crianças e adolescentes capazes de ser doutrinados mais facilmente do que adultos para combater o governo ugandense e os seus aliados. "A fim de nos intimidar, de forma que não tentássemos escapar, eles nos espancavam violentamente. Éramos espancados o tempo inteiro. E éramos ameaçados de morte a todo momento: 'Vamos lhe matar'".

Uma semana após o seqüestro de Akallo, uma menina de 12 anos tentou escapar. Os rebeldes ordenaram que as outras crianças a espancassem até a morte, se não quisessem elas próprias morrer. Akallo não conseguiu fazer tal coisa. Enquanto as outras começaram a bater com porretes na criança, ela pegou a menor vara que conseguiu encontrar e golpeou a garota, mas apenas nas pernas. Um rebelde percebeu o que Akallo estava fazendo e a golpeou na cabeça, fazendo com que ela desmaiasse. "Quando acordei, a garota estava morta".

A brigada rebelde, que incluía adultos, matava qualquer pessoa que entrasse no seu caminho quando vagava de uma vila a outra, seqüestrando mais centenas de crianças. As crianças prisioneiras acabaram sendo divididas em dois grupos. O grupo de Akallo foi forçado a marchar até o sul do Sudão, onde os rebeldes contavam com bases protegidas. Durante o caminho, eles eram constantemente enviados em longas jornadas em busca de comida e água, coisas que eram escassas ou inexistentes. "Você via pessoas apoiadas em uma árvore, e achava que estavam descansando. Mas elas tinham partido. Estavam mortas", diz Akallo.

Assim que chegaram ao Sudão, os rebeldes distribuíram armas aos cativos, em preparação para a batalha. Mas algumas das crianças desesperadas encontraram um outro uso para as armas. "As pessoas começaram a se matar", narra Akallo. "Uma garota estourou a cabeça na nossa frente. Ela estava cansada, sedenta e faminta".

Akallo participou de mais de dez batalhas. Viu centenas de pessoas morrerem à sua volta, tanto crianças como adultos. Ela disparou a sua arma diversas vezes, e, como resultado, também foi alvo de tiros. Ela não sabe se atingiu alguém. Uma noite, após uma batalha particularmente sangrenta, Akallo desmaiou de exaustão. Os seus colegas, todos soldados infantis, achando que Akallo estava morta, removeram as suas roupas e a enterraram em uma cova rasa. Akallo acordou horas mais tarde, no meio da noite, debaixo da terra fofa. Tomada pelo pânico, ela conseguiu escapar da sepultura. "Fazia frio. Tudo estava quieto. Eu me encontrava sozinha", conta Akallo. Ela começou a caminhar até que finalmente alcançou os outros soldados infantis.

No final da primavera de 1997, ela foi novamente enviada em uma jornada em busca de comida e água. Aos 16 anos de idade, Akallo estava emagrecida, e era um verdadeiro esqueleto ambulante. Durante os sete meses em que estivera prisioneira, cinco das suas colegas do Saint Mary haviam sido mortas. Naquele dia, Akallo também teve a impressão que chegara ao fim da linha. "Foi naquele momento que eu disse: 'Deus, estou pronta para morrer'", conta ela. "Estava cansada de correr, cansada de ser obrigada a lutar". Ela sentou-se perto de uma árvore, determinada a não se mexer. "Então", conta, "ouvi uma voz me dizendo que levantasse e andasse... Creio que foi Deus me mandando fugir".

Ela decidiu tentar escapar. Viveu no mato durante três dias sem comida, sobrevivendo com o orvalho que encontrava sobre as folhas. Alguns outros soldados infantis juntaram-se a ela na tentativa de fuga. Eles caminharam quatro dias, e finalmente chegaram a uma vila. Jogaram fora as armas e entraram caminhando na aldeia, no sul do Sudão, com Akallo na frente, gritando: "Não somos pessoas ruins. Fomos raptados da escola em Uganda! Precisamos de ajuda!".

Divulgando uma mensagem
Akallo não usa sapatos ao sentar-se no sofá no seu apartamento. Seus pés têm manchas e cicatrizes, como conseqüências das inumeráveis caminhadas forçadas pela floresta.

Após escapar, ela teve que tomar mais de 30 injeções para o tratamento de diversas doenças de pele que voltavam com freqüência. Quanto à sua recuperação psicológica, Akallo diz, "Rezei muito". As freiras forneceram um apoio emocional crucial quando ela retornou ao Colégio Saint Mary. "As irmãs me encorajaram bastante, e me disseram: 'Este não é o fim do seu futuro'", conta Akallo.

Após se formar no Saint Mary em 2001, ela freqüentou a Universidade Cristã de Uganda, onde conheceu estudantes de intercâmbio da Universidade Gordon, uma instituição cristã. Curiosa quanto ao que eles disseram a respeito da universidade, ela solicitou transferência para lá em 2005, tendo obtido uma bolsa de estudos integral. Akallo formou-se em comunicação, porque isso a ajudaria a aprender "maneiras de falar e escrever a respeito do que passei".

Quando precisa de um intervalo para os estudos, ela encontra uma válvula de escape meio incomum assistindo a episódios antigos da série "Walker, Texas Ranger". A sua ex-colega de quarto, Megan Thompson, 21, recorda: "Akallo costumava ficar acordada até as duas da manhã para assistir àquele programa. Ela dizia: 'Esse é o programa no qual o cara bom sempre vence'".

Akallo sabe que a vida real não é tão simples, mas se agarra à sua crença no poder da fé, e no poder de uma voz humana denunciadora. Akallo acabou tornando-se uma porta-voz da World Vision, uma organização cristã de ajuda e desenvolvimento que é ativa em Uganda. Tom Slicklen, diretor da World Vision na Nova Inglaterra, afirma que as congregações das igrejas da área de Boston ficam invariavelmente "emocionadas e dispostas a agir" ao ouvirem Akallo.

Em 2004, esperando atrair atenção para os problemas do seu país, Akallo contou a sua história no "The Oprah Winfrey Show". Naquele ano ela discursou na reunião anual da Anistia Internacional. No ano passado depôs perante um subcomitê parlamentar, pedindo "intervenção em alto nível" do governo dos Estados Unidos para ajudar a acabar com o conflito.

A última de várias interrupções do combate foi declarada recentemente em Uganda, e as negociações de paz estão em andamento entre o governo e os rebeldes. Mas o trauma nacional está longe de ter acabado. Akallo é apenas uma das cerca de 30 mil crianças seqüestradas durante uma guerra de duas décadas que provocou milhares de mortes. O Tribunal Criminal Internacional, com sede em Haia, emitiu ordens para a prisão de Kony e de quatro dos seus comandantes, acusando-os de crimes de guerra. Em junho o procurador-geral do tribunal disse que uma investigação provou que "os principais comandantes do Exército da Resistência de Deus foram pessoalmente responsáveis pelo recrutamento e pela escravização de crianças, pelo massacre de famílias, tendo forçado o deslocamento de milhões de pessoas dos seus lares".

Akallo pensa constantemente na sua terra natal. Ela espera um dia visitar Uganda e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a nação a se recuperar. Até tal dia, Akallo continuará divulgando uma mensagem que ela espera que o livro "Girl Soldier" amplifique. De fato, parte da sua mensagem parece estar expressa no subtítulo do livro: "A Story of Hope for Northern Uganda's Children" ("Uma História de Esperança para as Crianças do Norte de Uganda").

"Quero que as pessoas saibam o que está acontecendo em Uganda e que façam algo para ajudar", afirma Akallo. "As pessoas devem trabalhar arduamente para acabar com essas atrocidades, porque as crianças não merecem isso. Se ficarmos calados, estaremos permitindo que tais coisas continuem ocorrendo". UOL

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