Cometa um erro e o boneco morrerá em combate

De Colin Nickerson, do Boston Globe
Em Cambridge, Massachusetts

O dr. Steve Dawson e sua equipe estão criando um boneco que morrerá se você não tratá-lo bem. Visando o treinamento de médicos de combate, o boneco inteligente que está sendo desenvolvido desde a estaca zero em seu laboratório no Hospital Geral de Massachusetts, imita ferimentos de guerra com realismo apavorante, desde o sangue esguichando de artérias rompidas, ferimentos de peito e gritos assustadores de agonia.

Cometa um erro no tratamento deste trauma —a aplicação de um torniquete no lugar errado ou com a pressão errada; o fracasso em encontrar o pulso; segundos desperdiçados tratando de um ferimento feio mas não letal, deixando escapar um ferimento mortífero menos visível (um erro comum em campo de batalha)— e o boneco exibe sintomas de choque.

Fracasse em impedir o choque e o boneco morre.

"Este é um ser humano sintético para treinamento real —treinamento que simula ferimentos reais em combate real", disse Dawson, um radiologista de intervenção e chefe do projeto de US$ 2,2 milhões financiado pelo Pentágono, visando um novo Combat Medic Training System (sistema de treinamento médico em combate), ou Comets, o seu apelido militar.

Os militares querem um simulador que coloque os médicos em campo com um
melhor senso do tratamento de ferimentos traumáticos sob condições de
batalha —experiência que os médicos no momento apenas obtêm no exercício de suas funções. Dawson e sua equipe devem entregar os primeiros protótipos Comets em agosto de 2009. Oficiais médicos militares dizem que as pressões da guerra tornam o dispositivo particularmente urgente.

"Nós temos 4 mil médicos em treinamento em qualquer momento", disse o coronel Robert H. Vandre, diretor do Programa de Pesquisa de Atendimento de Baixas de Combate do Exército. Quase todos estes médicos servirão no Iraque ou no Afeganistão. "A maioria dos feridos morrerá, morrerá antes do atendimento pelo primeiro médico. Em combate, 90% das vidas salvas se devem aos médicos".

O boneco é um esforço conjunto do Hospital Geral de Massachusetts e do
Centro para Integração de Medicina e Tecnologia Inovadora, um consórcio de hospitais da área de Boston que se concentram em áreas, incluindo a medicina militar, onde tecnologia avançada pode melhorar o tratamento.

Dawson é um pioneiro em simulação médica e um defensor apaixonado da idéia de que bonecos ainda mais sofisticados que o "modelo médico" Comets devem ser desenvolvidos para o treinamento de médicos e enfermeiros civis.

"Desde o antigo Egito, os médicos são treinados em pacientes vivos", ele
disse. "Atualmente isso é quase bárbaro. Os estudantes de medicina precisam aprender a fazer nós cirúrgicos ou aplicar injeções intraneurais em simuladores que pareçam reais, não em uma mãe de 84 anos que por acaso foi levada a um hospital escola".

A simulação é um dos campos que mais crescem na tecnologia médica e Dawson acredita que em questão de décadas, estudantes, internos e residentes de medicina realizarão grande parte de seu treinamento em modelos altamente realistas, sem colocar suas mãos nos pacientes até terem dominado o diagnóstico básico e técnicas cirúrgicas.

Desde o início da guerra no Iraque, o Exército quase dobrou o tempo de
treinamento dos médicos de combate para 16 semanas intensivas. Os médicos
que completam o curso possuem aproximadamente a mesma perícia que um técnico médico de emergência civil, ou médico de ambulância. O treinamento atualmente inclui bonecos mais rudimentares e menos móveis, assim como instrução em salas de aula e em campo.

O boneco Comets possui membros destacáveis, de forma que os médicos podem
treinar, digamos, um braço destruído por estilhaços, depois trocar membros para treinar outros ferimentos. O sangue de imitação circula por veias sintéticas sob a "pele" na mesma pressão existente quando um médico insere um agulha em uma veia, com o sangue penetrando no tubo.

Derrube uma bolsa de soro, de forma que o líquido intravenoso deixe de fluir pela gravidade, e o boneco perde a consciência. Um fêmur quebrado sem perfurar a pele pode causar um sangramento interno mortal cujo único sinal é o inchaço da pele do boneco na região da fratura. Uma reação lenta por parte dos médicos significa um óbito para o hospital de combate.

"Há um botão de reset", disse Mark Ottensmeyer, o encarregado da engenharia do boneco Comets, que possui aço inoxidável em lugar dos ossos e minúsculos compressores de ar que realizam o trabalho do coração, "mas você perdeu seu paciente".

"É melhor cometer seus erros no boneco do que requisitar sacos de corpos", conclui Ottensmeyer.

Sem luzes piscando
A medicina militar americana —dos "68 Whiskey", o médico de infantaria, até os enfermeiros e cirurgiões nos hospitais da linha de frente— é supostamente a melhor do mundo. Mas reproduzir a confusão do combate, onde mesmo as cabeças mais frias podem se desorientar, é difícil.

"O treinamento com um simulador de paciente de alta fidelidade em um
ambiente realista aumentará a confiança e a habilidade quando os médicos
trabalharem sob fogo", disse o major Aaron A. Saguil, um médico do Exército americano no Afeganistão responsável pelo atendimento primário e treinamento médico no hospital da Otan no Campo Aéreo de Kandahar, por e-mail.

Muitos dos atuais bonecos para treinamento médico são desajeitados
demais —dispositivos de mais de US$ 200 mil ligados por cabos coaxiais a um computador e que exigem que um técnico dê os comandos para gerar cada sintoma— ou muito limitados. Outros, notadamente a "RCP Annie", são ótimos para prática de técnicas específicas, como ressuscitação cardiopulmonar, mas não particularmente versáteis.

O boneco do Hospital Geral de Massachusetts está sendo projetado para ser
resistente, de forma que possa ser usado em treinamento sob uma diversidade de condições de campo, seja parcialmente imerso em um pântano ou em um Humvee explodido na escuridão da noite. Médicos trabalhando com lanternas e empregando principalmente o tato examinarão a pele sintética que responde como a pele real e aprenderão a enfaixar um ferimento por estilhaço ou de bala em meio às explosões do campo de treinamento e ao fogo das armas.

"Ele é resistente e simples", disse Ryan Bardsley, um dos projetistas. "Ele tenta mostrar os indicadores básicos de ferimentos com realismo, sem luzes vermelhas ou sinais sonoros. Visa ensinar os médicos a chegarem ao local, examinar se alguém está morto ou vivo, levá-los a um lugar protegido e ministrar o atendimento imediato necessário para que ainda estejam respirando quando chegarem aos médicos e enfermeiros".

Em um laboratório em Cambridge, o projetista John Cho Moore estava
construindo na semana passada uma perna usando silicone de várias texturas para passar a sensação de músculo e gordura subcutânea.

"A sensação e resposta será exatamente a de uma perna real", ele disse. "Quando o médico amarra um torniquete, não é bom se a perna falsa comprimir até o osso, como espuma de borracha."

O trabalho de computador de Paul Neumann assegura que após os médicos
terminarem, o boneco transmita o que os militares chamam de "relatório
pós-ação" —dizendo o que aconteceu fisiologicamente, onde o tratamento foi correto, onde o tratamento foi errado.

Um bom ajuste do computador também assegura que os gritos e reações do
boneco correspondam aos sintomas de fato. Assim, por exemplo, quando ele
responder ao tratamento apropriado, e seus olhos voltarem lentamente à
consciência, ele saberá expressar o desejo fervoroso de cada soldado ferido: "Eu não quero morrer", suspira o protótipo de boneco de combate. "Me tire daqui".

*Colin Nickerson pode ser contatado por nickerson@globe.com George El Khouri Andolfato

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