Dando presentes que adquirem vida própria

De Joseph P. Kahn*
Do Boston Globe

Mais bem-aventurado é dar que receber, nos diz a Bíblia. Para a equipe responsável pelo www.handmeon.com, um Website no qual prevalece a "ecologia dos presentes", mais bem aventurado é dar, receber e passar adiante. A gente diz: posse material. Eles dizem: propriedade compartilhada.

"Subversivo? Sem dúvida, porque isso é algo que questiona todo o nosso relacionamento relativo à aquisição de bens", diz Jeff Doyle, um programador de Internet de Norwich, no Estado de Vermont, que ajudou a lançar o site de reciclagem de presentes três meses atrás.

"Pessoalmente, gosto do Natal", acrescenta Doyle. "Mas conheço muita gente que se sente coagida e frustrada nesta época do ano devido à natureza obrigatória do ato de dar presentes".

Doyle, 50, e os seus parceiros, Dwight Aspinwall, 46, de Hanover, em New Hampshire, e Michael Yacavone, 45, de Cornish, também no Estado de New Hampshire, ponderaram a idéia um ano atrás, e a seguir a burilaram durante aquilo que Doyle chama de "muitas sessões de cerveja", antes de lançarem-na sem estardalhaço no verão passado.

A idéia básica da ecologia de presentes é inserir objetos —eles podem ter sido comprados em lojas, achados ou feitos artesanalmente— em uma matriz de propriedade que os desloca de um receptor a outro, acumulando história e redes sociais durante esse percurso. Quanto mais decorativo e singular for o objeto, melhor. Até o momento os objetos incluem obras originais de arte, estátuas, um violão Ovation, sementes para jardins, um pedaço de pedra do Monte Washington, um cachorro de brinquedo que canta "Jingle Bells", um flamingo de latão e uma vela comemorativa do complexo Watergate, em Washington. Tudo é fornecido gratuitamente, com a exceção das despesas com remessa. A idéia é que os objetos mudem de dono a cada quatro ou seis semanas, embora não haja nenhuma regra estabelecendo o tempo de propriedade.

O período que um objeto passa nas mãos de alguém é conhecido como "residência temporária". Antes que uma peça entre em circulação, o seu dono recebe uma etiqueta com um número de identificação e uma palavra-chave que é colada no objeto. Quando é ativada online, a etiqueta abre um URL no qual a odisséia do presente pode ser localizada e a sua história expandida com a adição de fotos, reflexões pessoais e outros materiais.

A rota migratória de uma tigela de açúcar Irezumi, por exemplo, teve início três meses atrás com uma mensagem autobiográfica da ceramista Sarah Heimann, que fez a peça e a deu a Doyle. Ele a passou adiante, para o seu atual dono, que escreve no site que o objeto faz com que ele se lembre da avó.

"Tenho uma grande queda pelo sabor doce", confessa o proprietário, prometendo ficar com a tigela apenas "um pouco mais" antes de enviá-la a outra pessoa.

Ao todo, cerca de cem objetos estão atualmente em regime de "residência temporária". O site conta com 60 membros registrados. Uma das integrantes escreve que já teve dez 'handmeons', embora o total mais comum seja de um ou dois.

Alguns itens são rotulados novamente na esperança de que sejam aperfeiçoados todas as vezes que trocarem de dono. Esses chamados objetos "recifes de coral" incluem um robô que detecta paredes, criado por Michael Geilich, músico e gerente da Tele Atlas, uma companhia de mapas digitais de New Hampshire. Ele recentemente deu o robô a Aspinwall, que acrescentou luzes coloridas e o devolveu a Geilich, que a seguir reconstruiu o artefato e o deu de presente a um amigo. Segundo Geilich, o objeto está lá, ainda incapaz de saltar sobre o muro da posse.

"Sou fascinado pelo conceito, mas também sou cético", diz Geilich, que admite estar frustrado com a lentidão com que um outro objeto —um CD de um concerto para celebrar a reunião de uma ex-banda sua— foi copiado e passado a frente.

Além das virtudes inerentes ao fato de se reciclar presentes sem culpa, o objetivo é reduzir a ênfase material dessas peças, e ao mesmo tempo enaltecer os seus valores mais estéticos, e até espirituais, afirma Doyle.

"O conceito unificador é a construção de conversas em torno desses artefatos. A dinâmica realmente interessante é o fato de pessoas que se preocupam com o mundo e que têm uma mentalidade ecológica se conhecerem e tornarem-se amigas por meio do site", explica Aspinwall.

O www.handmeon.com é a quarta iniciativa que envolve a colaboração entre Doyle e Aspinwall. A primeira, o Stella, um software escrito para computadores Macintosh estreou em 1985. Aspinwall é também o co-fundador da Jetboil, uma companhia que fabrica sistemas de cozimento portáteis. Yacavone trabalhava como consultor de gerenciamento antes de entrar no handmeon.com.

Ele e Doyle conheceram-se em 1999, quando construíram juntos um sistema de gerenciamento de conteúdos baseado na Internet. Por ora, os três parceiros decidiram não buscar verbas de propaganda ou de investidores para sustentar o site. Aspinwall diz que no futuro cada rótulo 'handmeon' poderá ser vinculado a uma taxa, mas por ora o site é "preponderantemente um trabalho baseado no amor".

Central social, sim; depósito de lixo, não
Doyle foi originalmente inspirado por uma tribo do Pacífico Sul que pratica o modelo de troca de presentes conhecido como anel Kula. Objetos decorativos como colares de conchas são oferecidos apenas para aumentar o status social do doador, e não como uma compensação. Segundo o código Kula, a grandeza está no ato de fornecer. E, também, as pessoas recebem aquilo que dão.

Sites de redes como o Facebook e o MySpace também influenciaram os pensamentos deles, segundo Doyle, mas há pelo menos uma diferença importante.

"A topologia social deles parece mais uma experiência de faculdade", diz ele. "Já os adultos tendem a ter redes sociais que são mais individuais e complexas. O nosso modus operandi é mais baseado em trocas, é mais um café do que uma grande festa".

Embora qualquer objeto tenha o potencial para tornar-se um handmeon, desencoraja-se a doação de objetos pessoais como anéis de casamento (pós-divórcio). Objetos como mobílias, roupas e ferramentas também não são apreciados, bem como outras coisas facilmente encontráveis no eBay.

"Não somos um depósito de lixo online", afirma Aspinwall. Mesmo assim, segundo Doyle, eles não se propõem a vetar todos os objetos que apareçam.
"Isso não é uma extensão do nosso espaço pessoal".

Comparado aos eventos de "representeamento" dos feriados de fim de ano, quando os presentes indesejados são passados adiante de maneira muitas vezes engraçada, o handemeon.com é mais sério, ou pelo menos é isso o que garantem os seus criadores. Phil Cubeta concorda. Cumbeta, o dono temporário de um handmeon, é um bloguista do Texas que divulga as suas mensagens no www.gifthub.org.

"Doyle é um intelectual que realmente pensa naquilo que mantém a sociedade coesa", diz Cubeta. "Isso não é estritamente uma iniciativa despreocupada".

Mas será que de fato não traz obrigações? O custo de passar um objeto adiante é um potencial fator negativo, observa Cubeta. "Além disso, dar um item deste tipo é algo que impõe uma responsabilidade sobre a pessoa para quem você deu o presente. E presentes que vêm com obrigações têm um lado positivo e um negativo", diz Geilich.

E se a "residência temporária" de um presente durar mais do que, digamos, um ou dois meses? "Não sabemos de nada de ruim que tenha ocorrido", diz Aspinwall. "A nossa única regra é: não fique com o objeto para sempre".

*Pode-se entrar em contato com Joseph P. Kahn no endereço jkahn@globe.com UOL

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