Brasileiros nos EUA retornam em massa ao Brasil

Brian R. Ballou
Em Framingham, Massachusetts

Francisco Neto trocou o Brasil por Marlborough, em Massachusetts, em 1995, atraído pela sua versão do sonho norte-americano: a possibilidade de contar com um salário estável e uma taxa de câmbio que triplicaria o dinheiro que ele enviaria para casa a fim de ajudar os parentes em dificuldades.

Mas após quase 12 anos, ele pretende retornar para Goiânia, a sua cidade natal, na região centro-oeste do Brasil, juntando-se a grupo de milhares de brasileiros que não enxergam mais vantagem em morar aqui. O declínio do dólar reduziu pela metade o valor dos US$ 700 que Neto envia para casa todos os meses: cinco anos atrás, essa quantia valia RS$ 2.450. Hoje ela vale apenas RS$ 1.225.

Esse declínio do dólar, conjugado a uma economia brasileira em expansão, está fazendo com que os brasileiros reavaliem as dificuldades de se viver nos Estados Unidos, longe de suas famílias, em um país no qual muitas vezes é difícil ser imigrante, até mesmo para alguém que possui visto de residência, como Neto.

Pat Greenhouse/The Boston Globe 
Francisco Neto faz entregas em Marlborough, um de seus trabalhos nos EUA

"Durante um longo período, foi ótimo", afirma Neto, 39, fazendo uma pausa na semana passada no seu trabalho como entregador de encomendas para a Kodak. "Eu enviava a minha família cerca de US$ 700 mensais. Mas no ano passado a situação ficou muito pior. Tive que pagar pela minha gasolina, e, tendo uma família aqui, eu e a minha mulher trabalhávamos sem parar, e mesmo assim estávamos quebrados".

Segundo estimativas do Centro Brasileiro do Imigrante, uma agência sem fins lucrativos com sede em Allston, no Estado de Massachusetts, um número estimado de 5.000 a 7.000 brasileiros deixou Massachusetts e retornou ao Brasil em 2007. O centro calcula que de 2.000 a 3.000 brasileiros retornaram a sua terra natal em 2006.

O censo dos Estados Unidos de 2000 registrou 39 mil pessoas de ascendência brasileira morando no Estado; o número aumentou para 73 mil em 2006, de acordo com a American Community Survey, uma pesquisa demográfica anual realizada pelo Birô do Censo dos Estados Unidos. Mas esse número não inclui os brasileiros que vivem aqui sem a documentação apropriada. Alguns estimam que o número total de imigrantes brasileiros chegue a 230 mil.

Fausto da Rocha, diretor executivo do Centro do Imigrante Brasileiro, diz que o dólar fraco é apenas um dos diversos motivos pelos quais os brasileiros estão voltando para casa. Os brasileiros são o segundo grupo de imigrantes ilegais que mais cresce nos Estados Unidos, e muitos ficaram profundamente desapontados no verão passado quando o Congresso norte-americano não aprovou um projeto de lei que daria a milhões de imigrantes uma chance de se inscrever para o visto de residência legal.

Ele prevê que em 2008, de 7.000 a 10 mil brasileiros poderão voltar ao Brasil.

"Isso tem muito a ver também com uma falta de esperança", afirma Rocha. "Quando Deval Patrick foi eleito governador, houve muita esperança de que a situação melhoraria para os imigrantes, mas a condição deles tornou-se ainda pior. Uma alta percentagem de trabalhadores não conta com papéis de imigração, e eles precisam de um carro para trabalhar. Assim, eles estão dirigindo sem documentos, e a Polícia Estadual os têm parado e denunciado".

Mário Saade, o cônsul geral do Brasil em Boston, diz que há provavelmente mais brasileiros partindo do que em qualquer outro período no passado. Mas Saade também diz achar que o número seja inferior a 7.000, baseado no número de brasileiros que procuram os serviços consulares, que manteve-se estável entre 300 e 400.

Saade diz que o fracasso da lei de reforma da imigração no ano passado foi um grande golpe para muitos brasileiros daqui, e afirma que a economia brasileira, que experimentou um crescimento de 5,5% no ano passado, pode estar estimulando muitos a retornar.

"A economia do Brasil está atualmente no seu melhor estado em vários anos, e existem mais oportunidades de trabalho lá", diz ele. "Existem setores que estão prosperando, especialmente na construção civil, e a maioria dos brasileiros que estão aqui trabalha na construção civil".

Álvaro Lima - o brasileiro que é diretor de pesquisa da Autoridade de Redesenvolvimento - calcula que o número total de brasileiros em Massachusetts não seja superior a 200 mil. Embora afirme que as pessoas estão retornando, ele duvida que 7.000 pessoas estejam voltando ao Brasil.

"Pode até estar acontecendo, mas não sei se está ocorrendo em tal escala", afirma Lima.

Rocha diz que as suas estimativas baseiam-se em entrevistas com a Rede de Pastores Brasileiros e as agências de viagens. Os brasileiros recém-chegados costumam procurar igrejas da área para entrarem em contato com a comunidade, e muitas vezes tornam-se membros. Os pastores conversam com brasileiros que estão pretendendo voltar ao Brasil, e sabem quando eles partiram.

Rocha diz ter feito pesquisas junto a diversas agências de viagens que atendem aos brasileiros, tendo descoberto um aumento drástico da venda das passagens só de ida, especialmente para Minas Gerais, o Estado natal da maioria dos brasileiros que vivem na região.

Alguns donos de negócios brasileiros dizem ter notado um grande número de partidas e ditam uma queda drástica da clientela, nos bairros brasileiros das comunidades de Massachusetts, onde butiques, restaurantes e outros negócios exibem orgulhosamente a bandeira brasileira nas vitrines.

Em duas joalherias no centro de Framingham, os negócios caíram acentuadamente. Geni Luz, gerente da Joyce Jewelry, diz que a loja presenciou uma queda de 40% no número de clientes no último ano, em relação ao ano anterior, porque esses clientes retornaram ao Brasil.

"Eles dizem que estão voltando porque não querem ficar aqui ilegalmente, sem carteira de motorista ou o cartão de Social Security", afirma Luz. "Eles estavam esperando que a lei de imigração fosse aprovada, mas isso não ocorreu".

João Freitas, dono da Vera Jewelers, diz que dezenas dos seus clientes regulares voltaram ao Brasil.

"Começamos a perceber isso no início do ano passado", conta Freitas. "Então, quando a lei de imigração não foi aprovada, as pessoas ficaram bastante desapontadas e começaram a comprar as passagens de volta".

Freitas diz que muitos imigrantes que estão pensando em retornar ao Brasil estão aguardando para ver como se sai a primeira onda de brasileiros que retornaram. Segundo ele, vários outros estabelecimentos, como a Brazilian Pizza e o Adrianna's Beauty Salon, faliram porque uma grande quantidade de seus clientes partiu.

Neto, que tem visto de residência permanente, juntamente com a mulher, Elaine, 38, decidiu em novembro passado que a família retornaria ao Brasil. Elaine e a filha de 14 anos do casal já voltaram, e ele pretende partir assim que consiga juntar dinheiro suficiente para abrir um pequeno negócio no Brasil.

Neto diz que trabalha até 70 horas por semana em vários empregos, e que a sua mulher tinha uma carga de trabalho quase igual. "Esta é uma maneira terrível de viver, de criar uma filha", queixa-se ele. "Nunca nos víamos. Na nossa terra natal, pode ser que não ganhemos tanto dinheiro, mas poderemos passar mais tempo juntos". UOL

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