Situação de Hillary Clinton na campanha frustra feministas

Susan Milligan
Do The Boston Globe
Em Washington

Enquanto Hillary Clinton batalha para recuperar o seu ímpeto na corrida presidencial, feministas frustradas estão olhando para aquilo que consideram o supremo limite para o avanço profissional das mulheres: uma candidata dona de uma carreira hiper substancial vê-se neste momento ameaçada de perder a candidatura democrata para um homem cujo estilo carismático e retórica poderosa estão sobrepujando as décadas de experiência que ela possui.

O embate entre o estilo e a substância é comum nas disputas presidenciais e, segundo as lideranças feministas, ele também já prejudicou candidatos fracos do sexo masculino. Mas elas argumentam que Hillary Clinton carrega um fardo peculiar na campanha deste ano porque ela jamais seria capaz de chegar aos estágios finais para a escolha do candidato democrata a menos que passasse a vida inteira enfatizando o seu currículo profissional e não as habilidades estilísticas.

"Eu de fato acredito que em um certo nível existe um beco sem saída para as mulheres que concorrem à presidência", afirma Kim Gandy, presidente da Organização Nacional para as Mulheres e apoiadora de Hillary Clinton. "Revelar o coração nunca foi um ponto a favor para as mulheres profissionalmente bem-sucedidas".

Scott Olson/Getty Images/AFP 
Hillary Clinton tira foto com uma fã durante campanha em Wisconsin

Martha Burk, presidente do Conselho Nacional de Organizações das Mulheres, diz que a senadora pelo Estado de Nova York está sendo prejudicada por não ser a candidata do "glamour".

"Hillary Clinton se apresenta como um cavalo de trabalho e não um cavalo de espetáculo", diz Burk, que endossou a candidatura da senadora. "Ela está sendo punida de uma certa forma por ser competente e não espalhafatosa. Se Obama fosse mulher, com as suas credenciais, idade e histórico, não creio que estaria nem perto da presidência dos Estados Unidos", afirma Burk.

Muitas líderes feministas têm o cuidado de afirmar que não acham que Hillary Clinton careça da capacidade de se identificar com os eleitores ou que o senador Barack Obama não tenha substância. E, apesar da recente onda de vitórias de Obama, elas insistem que Hillary será a candidata pelo Partido Democrata. Mas tendo apoiado a candidata mais bem preparada na história recente para a presidência, as ativistas estão furiosas e confusas com o fato de a mensagem carregada de propostas políticas - "soluções para os Estados Unidos" - não ter eclipsado um candidato cujos temas centrais são esperança e mudança.

"Toda a substância, todo o trabalho, todas as propostas políticas e todas as realizações provavelmente não transmitem uma imagem de espetáculo", opina Ramona Oliver, diretora de comunicação da organização EMILY's List, que arrecada verbas para as candidatas democratas. Comparando Obama a Hillary Clinton, Oliver diz: "De um lado está a inspiração, do outro a eficiência".

Candidatas a todos os cargos eletivos enfrentam o desafio de terem que parecer fortes e confiantes sem passar uma imagem que destoe da feminilidade, segundo especialistas na questão das mulheres e política. Mas o dilema é mais pronunciado no nível da eleição presidencial, dizem essas analistas, porque os eleitores têm mais propensão a ser guiados pelas suas reações instintivas em relação aos candidatos do que pelas comparações entre as biografias dos que disputam um cargo.

A escolha de um presidente é o voto mais pessoal que a maior parte dos norte-americanos deposita na urna, afirma o consultor democrata Peter Fenn, e os eleitores muitas vezes sentem-se mais atraídos pelas idéias genéricas e pelo estilo de liderança de um candidato do que pela sua agenda política específica. Os candidatos presidenciais democratas Michael Dukakis, Al Gore e John F. Kerry, por exemplo, foram prejudicados pela impressão de que eram menos agradáveis do que os seus oponentes republicanos, segundo observam vários analistas políticos.

Na eleição de 2000 os eleitores perguntavam, "com qual deles você gostaria de tomar uma cerveja?", diz Debbie Walsh, diretora do Centro sobre Políticas e Mulheres da Universidade Rutgers. "Al Gore era o cara que sabia tudo sobre todos os tópicos, o sabichão, mas os eleitores gostaram de George Bush. Eles sentiram que Bush era um deles", afirma.

Mas as candidatas do sexo feminino enfrentam um outro empecilho, dizem as líderes feministas e especialistas políticas que não estão ligadas à campanha de Hillary Clinton.

"Há todas essas demandas. As mulheres precisam ser mais inteligentes do que os homens, mais articuladas, melhores na área de política externa, menos emotivas, enfim, todas essas exigências malucas. Finalmente temos uma candidata que, basicamente, é tudo isso", afirma Fenn, mas mesmo assim o estilo empolgante de Obama compete poderosamente com as virtudes dela. "Não há como esta situação não ser deprimente", lamenta Fenn, que não está vinculada a nenhum dos candidatos democratas.

No circuito da campanha, eleitores democratas de todo o país disseram em entrevistas que respeitam a experiência e a habilidade de Hillary Clinton, enquanto os eleitores de Obama retrucam dizendo que acreditam que ele seria capaz de unir o país.

"É isso o que temos presenciado quando se trata de candidatas mulheres. Exige-se que elas saibam tudo a respeito de todas as questões para que sejam politicamente viáveis", diz Walsh. "Mas no momento não parece ser isso o que está conquistando uma grande parte do eleitorado. E certamente não é o que atualmente anda conquistando as imaginações dos jovens".

Carol Hardy-Fanta, diretora do Centro de Mulheres na Política e Políticas Públicas da Universidade de Massachusetts, em Boston, afirma: "O carisma desempenha um grande papel em uma campanha, obrigando Hillary Clinton a provar não apenas que é séria e firme, mas também agradável. Creio que, até certo ponto, é verdade que exige-se das mulheres esta qualidade depois que elas tornam-se inteligentes e seguras para seguir em frente. É uma situação do tipo se ficar o bicho pega, se correr o bicho come".

Mas a mensagem de Obama, focada na mudança - e desprezada por Hillary Clinton na campanha como sendo um "floreado retórico" -, está ajudando o parlamentar por Illinois a avançar entre os eleitores de vários grupos que normalmente simpatizam com Hillary Clinton, incluindo as mulheres.

Durante a maior parte do período de prévias eleitorais, as eleitoras preferiram Hillary Clinton, que obteve a sua vitória crítica em New Hampshire em grande parte devido ao voto feminino, e que conquistou a maioria dos votos das mulheres em quase todas as primárias até 5 de fevereiro.

A lacuna entre os sexos é particularmente crítica nas prévias e convenções democratas, nas quais o número de eleitoras é consistentemente maior do que o de eleitores masculinos. Por exemplo, Hillary Clinton venceu Barack Obama entre as mulheres por uma diferença de 12 pontos percentuais em New Hampshire, enquanto Obama superou Hillary no que se refere aos votos masculinos naquele Estado por uma margem de 11 pontos percentuais.

Mas, como as mulheres representavam 57% dos votos democratas de New Hampshire, Hillary Clinton beneficiou-se bem mais com a lacuna entre os sexos, e venceu no Estado com uma vantagem de dois pontos percentuais.

Mas recentemente Obama fez progressos entre o eleitorado feminino, tendo conquistado 60% dos votos das mulheres na Virgínia e 55% em Maryland.

Recentemente Hillary Clinton tem enfatizado as suas propostas políticas, repetindo com freqüência que não está no "ramo de promessas" e sim no "ramo de soluções". Os responsáveis por sua campanha esperam que a mensagem focada em questões concretas ressoe em Ohio e na Pensilvânia, e atraia os eleitores de baixa renda que em grande parte apóiam a senadora por Nova York em vez de Obama. Já Obama está enfatizando mais as suas propostas políticas, enquanto continua com a mensagem de esperança e mudança que atraiu tantos eleitores.

"Os analistas políticos sempre afirmam que a personalidade supera o foco em questões concretas em 90% dos casos durante uma campanha presidencial", afirma Jon Delano, professor adjunto de ciência política e de políticas públicas da Universidade Carnegie Mellon. "Mas a barreira para as mulheres é bem mais alta - isto é triste, mas é verdade". UOL

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