Diferença cultural provoca diagnóstico errado de doença mental em imigrantes nos EUA

Patricia Wen
Em Lowell, Massachusetts

Os médicos de Heap You acharam que ela estivesse louca. A imigrante cambojana não parava de dizer que o seu pescoço explodiria, embora um exame não tivesse revelado nada de errado sob o ponto de vista físico. Um hospital fez com que ela tomasse um antipsicótico.

Mas a mulher, que tem cinco filhos, acabou consultando-se com Devon Hill, um psiquiatra que tem uma clínica no centro desta cidade cheia de problemas. Ela chegou no consultório em um dia de primavera, dez anos atrás. O seu pescoço estava rígido, mesmo quando ela narrava, chorando, a sua problemática vida familiar. Heap You disse a Hinton que não queria mover a cabeça porque o "vento" excessivo, preso no seu corpo, poderia passar rapidamente para o pescoço, rompendo os vasos sangüíneos e matando-a.

Hinton percebeu que a paciente não estava louca. O professor da Universidade Harvard, que se especializou no tratamento de pacientes do Sudeste Asiático, sabia que os cambojanos acreditam que a circulação de ar pelo corpo mantém a saúde, e que a má circulação em um corpo doente pode provocar uma poderosa e perigosa explosão de vento semelhante a um derrame.

Hinton, falando na nativa língua khmer de Heap You, disse a ela que parasse de tomar a medicação antipsicótica, e receitou-lhe duas outras drogas - uma para ajudá-la a dormir, e a outra para controlar os seus ataques de ansiedade. Ele pediu que ela continuasse com as práticas de medicina cambojana tradicionais para ajudar o "vento" a fluir.

Após sessões regulares de terapia com Hinton, as emoções de Heap You estabilizaram-se. E ela confiou nas palavras que ele lhe disse: "Você não morrerá devido a um estouro das veias do seu pescoço".

Hinton foi um dos primeiros profissionais engajados em uma iniciativa nacional no sentido de proporcionar serviços de saúde mental mais sensíveis em relação aos aspectos culturais para grupos imigrantes, muitas vezes em pequenas clínicas em áreas urbanas. Esses médicos são uma mistura de antropólogo cultural, psiquiatra e investigador médico. Uma parte fundamental do trabalho deles é diagnosticar apropriadamente as doenças mentais que os pacientes expressam primeiramente, com freqüência, como dores corporais, enxaquecas ou distúrbios estomacais.

"Muitas vezes vemos as emoções expressas como um sintoma corporal", afirma Glenn Saxe, um psiquiatra do Hospital Infantil de Boston que a ajudou a criar uma nova clínica de saúde mental para refugiados somalis.

Entre os recém-chegados aos Estados Unidos - atualmente um em cada oito norte-americanos nasceu no exterior - doença mental pode ser um termo estigmatizante, e é bem mais provável que muitos imigrantes da América Latina, da África e da Ásia inicialmente falem sobre problemas físicos, em vez de procurarem assistência psiquiátrica.

Durante os últimos anos, especialistas famosos em saúde mental deram início a várias novas iniciativas para melhorar a qualidade dos cuidados psiquiátricos fornecidos aos imigrantes. O Departamento de Saúde Mental de Massachusetts, juntamente com uma equipe de pesquisadores, está educando clínicos gerais do Estado para que estes saibam que sintomas físicos podem ser sinais de desordens mentais.

Clínicas médicas em Somerville e Cambridge, administradas pela Aliança de Saúde de Cambridge, estão indo mais além, criando programas educacionais computadorizados em português, espanhol e idiomas crioulos, com o objetivo de informar aos imigrantes que a fadiga, os problemas intestinais e outras sintomas físicos, bem como a saudade intensa dos seus países de origem ou a solidão, podem ser sinais de depressão.

Os pesquisadores dizem que no passado a psicologia intercultural ficava relegada às áreas marginais da saúde mental, sendo vista pela medicina tradicional como um "espetáculo exótico" de menor importância. Mas desde que um relatório sobre saúde mental de 1999 do Departamento de Saúde dos Estados Unidos revelou que o impacto da cultura vinha sendo "historicamente subestimado", surgiram cada vez mais clínicas focadas nas necessidades dos imigrantes. Muitas adotam uma mistura de práticas tradicionais dos países dos pacientes e tratamentos ocidentais convencionais, e contrataram tradutores e funcionários que se identificam com as raízes nacionais dos pacientes.

Assim como vários outros médicos, Hinton, que atende na clínica Arbour Counseling Services, em Lowell, toma cuidado para não generalizar demais a respeito de qualquer grupo étnico. Por exemplo, nem todo cambojano com desordens de ansiedade falará de dor no pescoço. E, em determinados casos, dor de pescoço é exatamente isso - sendo necessário um exame de raio-X. Mas depois de trabalhar com refugiados do Sudeste Asiático durante mais de duas décadas, Hinton identificou mais de 400 pacientes cambojanos que reclamavam de dores no pescoço e que acabaram sendo diagnosticados como padecentes de síndrome do pânico e de desordens de ansiedade. Nas publicações especializadas que escreveu, ele chama o fenômeno de "síndrome do pescoço dolorido".

Hinton diz que cada grupo imigrante possui uma "etnofisiologia" (a forma como percebem o funcionamento interno dos seus corpos) específica. Ele afirma que nas culturas inglesa e alemã são freqüentes as queixas focadas no coração quando o problema é a ansiedade, enquanto que nas culturas latino-americanas é comum que os pacientes refiram-se a "ataques de nervos".

Segundo Hinton, muitos cambojanos acreditam na importância do vento, e que esse vento precisa sair regularmente através dos seus pés e mãos. Mas quando as suas extremidades tornam-se frias, talvez devido a uma resposta física involuntária ao estresse, eles temem que o vento tenha ficado preso no torso.

Como resultado, tais pacientes desenvolvem medos culturalmente enraizados de que o vento preso possa deixar o corpo subitamente por meio de uma explosão no pescoço. Hinton acredita que o seu trabalho é reverter este tipo de pensamento desastroso e cumulativo - que pode levar alguns médicos que não conhecem a cultura cambojana a acreditarem erroneamente que o paciente é psicótico.

Durante as sessões de Hinton com Heap You, ele pediu a ela que mexesse o pescoço repetidamente em movimentos circulares na sua presença, como forma de convencê-la de que não morreria devido a tais movimentos. Ele a encorajou a usar tratamentos nativos para ajudá-la a aliviar o estresse, tais como o "cupping", que consiste na aplicação de um copinho de sucção à testa durante vários minutos para ajudar o vento a sair. Quando o copinho é removido, ele deixa uma marca vermelha circular que pode demorar vários dias para desaparecer.

"O tratamento me ajudou a fazer com que a minha dor de cabeça fosse sugada para fora", disse Heap You, 50, em uma entrevista na sua casa em Lawrence. Segundo Heap You, a sua terapia com Hinton a convenceu de que não morrerá de "excesso de vento", e ela não nutre mais preocupações obsessivas em relação a isso.

Mas, em casa, ela ainda usa a técnica do "cupping", que aprendeu com os avós no Camboja, e também encorajou os filhos a fazerem o mesmo. Ela também continua a tomar aqueles que chama de "os remédios do doutor Hinton", incluindo uma medicação para dormir e um antidepressivo.

Hinton acredita que o fato de tê-la encorajado a fazer uso do "cupping" fez com que a confiança da paciente em relação a ele aumentasse, e diz que isso explica em parte porque ela continua a falar a ele sobre os seus problemas familiares e financeiros.

Hinton acabou diagnosticando Hinton como padecente de depressão e desordem de pânico comuns entre os refugiados cambojanos, sobremaneira aqueles que passaram pelo regime brutal do Khmer Vermelho, responsável pelo assassinato de um milhão de cambojanos no final da década de 1970.

O psiquiatra Francis Lu, especialista em diversidade cultural da Associação Americana de Psiquiatria, que está familiarizado com o trabalho de Hinton, afirma que para o clínico geral norte-americano típico pode ser muito difícil compreender as nuances de todos os grupos culturalmente diversos neste país.

"Não conhecemos todas as intricadas facetas de centenas de culturas, mas isso não significa que desistiremos", explica Lu. "Sem dúvida estamos armazenando uma grande quantidade de conhecimento. E pelo menos ficaremos conscientes daquilo que não sabemos". UOL

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